Política, Políticos e outros

A despeito de tudo o que vemos acontecer em todas as esferas da política, em que vale o erro do outro, e não o próprio, o texto a seguir, republicado no jornal Tribuna da Fronteira, de Rio Negro/PR e Mafra/SC, pelo jornalista J. Sartori, cabe “como uma luva” aos tempos atuais e a alguns da região.

Disse J. Sartori, “(…) fui rebuscar e encontrei o livro ‘Maravilhas do Conto Humorístico’, uma seleção de Mariano Torres, no qual, em 1961, ou seja, quase 50 anos atrás, li o conto a seguir que mais se adaptaria aos dias atuais do que, propriamente, àquela época (…). Portanto, Ipsis literis, lá vai:

O cão farejador

Escrito por M. Zostchenko.

Os atuais acontecimentos, camaradas, não me alegram muito. Um cão me pôs de mau humor. Faz alguns dias que isso aconteceu.

Roubaram um abrigo de peles do merceeiro Eremi Babkin.

– O abrigo – disse o comerciante – é de muito luxo e seria uma lástima perdê-lo. Não pouparei esforços para encontrar o ladrão.

E pediu, por telefone, que lhe mandassem um cão farejador. O cão chegou acompanhado de um agente policial, homem modestamente vestido, de gorro na cabeça. O cão parecia ser deveras bravo. Com o focinho pontiagudo, farejava tudo a sua volta. O agente mostrou-lhe as pistas próximas da porta, disse “ps” e ficou de lado. O cão farejou o ar, olhou com atenção para as pessoas que, naturalmente, se haviam aglomerado no pátio, e eis que, de repente acercando-se da senhora Fecla, a vizinha do número cinco, pôs-se a farejar-lhe as saias. A indiciada procurou esconder-se atrás de outras pessoas, mas o sabujo a perseguiu. Intentou afastar-se, mas o cão continuou a persegui-la implacavelmente, farejando-lhe as saias.

A senhora Fecla caiu de joelhos diante do agente.

– Sim – disse – confesso tudo. Pilharam-me. Roubei cinco litros de vinho e uma prensa. É verdade. Pode levar-me para o comissariado.

Os circunstantes, como era de esperar-se, puseram-se a suspirar.

– E o abrigo? – perguntaram-lhe.

– Do abrigo nada sei, mas do restante sim. Confesso-o.

Levaram embora a mulher. Novamente o agente levou o cão até as pistas e afastou-se. O sabujo olhou em torno de si, farejou o ar e, de repente, acercou-se do encarregado do prédio. Este empalidecendo, deixou-se cair no chão e exclamou:

– Amarrem-me, camaradas, bons cidadãos. Sou o pior dos delinquentes. Cobrei o imposto de água corrente e gastei-o em benefício próprio.

Obviamente, os inquilinos se precipitaram sobre ele e amarraram-no. Mas o cão já havia farejado o ar outra vez e, aproximando-se do vizinho do número sete, puxou-o pela barra das calças. Empalidecendo, o cidadão caiu de joelhos diante do agente.

– Sou culpado – exclamou – sou culpado. Sou um infame, um malfeitor. No registro de trabalho, falsifiquei o ano de meu nascimento. Deveria estar no exército, defendendo a pátria e, ao invés disso, continuo a viver no número sete, gozando dos serviços comunitários.

Todos ficaram confusos.

– Que cão! – pensaram.”