As bravatas de Lula

 

Lula trabalha menos com a corrida real à Presidência em 2018 e mais com a construção de uma narrativa que fará dele o maior perseguido político do país

Rui Falcão, o presidente do Partido dos Trabalhadores, já tinha lançado o plano: a candidatura de Lula em 2018 como um antídoto contra uma eventual condenação do ex-presidente em algum dos cinco processos em que é réu, três dentro da Operação Lava Jato. Agora, foi a vez de o próprio Lula confirmar a estratégia. “Se preparem, porque, se necessário, eu serei candidato à Presidência”, bravateou em Salvador (BA), na quarta-feira passada, em evento do Movimento dos Sem-Terra (MST), um dos poucos ambientes onde o petista ainda consegue alguma unanimidade.

Sim, porque nem mesmo entre os partidos de esquerda e extrema-esquerda que tradicionalmente se aliam ao PT há consenso em torno de uma candidatura unificada de Lula – aliança que, anos atrás, seria óbvia. Os comandos nacionais de PCdoB e PSB não falam em nomes, mas já manifestam a intenção de apresentar chapas próprias no ano que vem – em 2014, o PSB já tinha lançado Eduardo Campos, que morreu em um acidente aéreo e foi substituído por Marina Silva, que também não esconde a vontade de concorrer novamente, agora por sua sigla, a Rede Sustentabilidade. O PDT flerta com Ciro Gomes. E que não se descarte uma candidatura do PSol, que nas eleições municipais de 2016 levou Marcelo Freixo ao segundo turno no Rio de Janeiro. Tudo isso desmente Rui Falcão, que classificou Lula como “aspiração nacional” pouco antes de o ex-presidente falar no evento do MST. Ora, se até mesmo os velhos aliados da esquerda evitam a companhia de Lula, que “aspiração nacional” é essa?

No mesmo discurso, Lula já deixou clara até mesmo sua plataforma de governo: mais gasto estatal. “O único jeito desse país voltar a crescer é o Estado investir, pode mexer no compulsório, pode aumentar a dívida. A melhor forma de diminuir a dívida como proporção do PIB é fazer o PIB crescer”. A matemática até está correta – desde que o PIB cresça mais que a dívida, é claro –, mas não deixa de ser incrivelmente irresponsável propor algo assim depois de tudo que o país tem presenciado. A aposta no protagonismo do Estado como promotor do crescimento e na gastança indiscriminada do poder público mostrou-se um desastre. Foi esta fórmula que, em vários estados, deixou funcionários públicos sem pagamento, precisando depender da solidariedade de amigos e familiares para comprar itens básicos. Em outras palavras, Lula sugere jogar por terra todo o esforço que está sendo feito para recuperar o Brasil e consertar o estrago feito em 13 anos de petismo, que deixou milhões de desempregados e inflação em alta.

Se há um consolo para o país, é saber que provavelmente nem o PT nem o próprio Lula realmente acreditam em sua candidatura em 2018. Aqui, interessa menos o cenário político real que a construção da narrativa destinada a acrescentar um novo título ao currículo de Lula: além de melhor presidente que o universo jamais viu, de “alma mais honesta deste país”, o ex-presidente quer ser visto como o maior perseguido político do Brasil, um mártir do povo brasileiro, processado, julgado e eventualmente preso por ter trabalhado pelos pobres do país e, com isso, atraído o ódio da elite que manobra para vê-lo atrás das grades. Já que o acerto de contas com a Justiça se mostra quase inevitável, Lula tenta fazer com os limões uma caipirinha, montando um discurso na esperança de que a população o veja como vítima e, quem sabe, lote as ruas em seu socorro.

É por isso que as palavras de Lula soam como bravata de quem se vê cercado por todos os lados e não tem para onde correr. Do contrário, teríamos de classificar sua promessa de concorrer em 2018 como uma ameaça – ameaça para o Brasil, que não merece ver novamente o populismo e a irresponsabilidade orçamentária no Planalto.