A aldeia do desassossego

Da sétima economia mundial encolhemo-nos numa aldeia. Amigos, pobres, ricos, remediados, quer-se recomeçar a viver numa planície minimamente aprazível.  Outros não deixam sua terra. Não falamos em pátria, já que não passa de um símbolo equívoco e o patriota, dizem, geralmente é acometido de males psíquicos. Só nos resta fazer de nosso desassossego nossa felicidade paradoxal.

Como o fez Fernando Pessoa. Certo que todos os momentos da vida, para ele, até mesmo o momento único do dia em que uma costureira dobrava a esquina de sua casa, eram poéticos, ainda que sem o saber com certeza, num mundo diferente, Pessoa ia escrevendo suas impressões em anotações amarrotadas no primeiro papel que encontrava, um recibo do leiteiro, um pedaço de jornal, parte de um recado que lhe mandara o patrão Vasquez, e os depositava numa famosa arca. Lá foram envelhecendo, amarelecendo, sem que Pessoa os publicasse. Fê-lo com alguns, mas a maioria foi póstuma, porque as pessoas, que verdadeiramente amaram um dos maiores poetas da humanidade, cuidaram da prática.

Hoje, a arca editada pode ser sua “magnum opus”, genial, boa e má, ao gosto do freguês, como Pessoa gostaria de dizer. Podemos ter acesso ao calhamaço numa livraria brasileira. Essa foi sua vida, de casa para os baixios, de volta à casa, na janela da Rua dos Douradores, na contabilidade do patrão Vasquez. Pessoa, homem franzino, óculos desproporcionais, chapéu que envolvia, talvez, sua timidez natural. Não se dava nada por ele. Amores são possíveis, mas ele guardou em outra arca. Se de cá para lá, ou de lá para cá, não o sabemos. Se encontradiços, também não. As desventuras naturais da vida  o poeta assimilou em lágrimas que formam palavras e versos. No mais, Lisboa, sua amada Lisboa. Não temos notícia de amor tão desmedido por sua cidade que o de Pessoa por Lisboa.

Não viajava, raramente a Cascais, de trem, distância que atravessamos em momentos de automóvel. Morava Pessoa num mundo que era a linguagem. O conjunto de símbolos que nos tornaram humanos; responsáveis por nossa evolução. Comunicamo-nos como por milagre, a língua é nossa mãe, e Pessoa só odiava quem atentasse contra ela. Suas viagens eram literárias. Podemos mesmo perguntar: o que é melhor? Ler uma história sobre tapetes voadores ou ir a Istambul a vê-la, para apregoar nossos conhecimentos. Alguém que viaja ao Oriente será que percebe que, lá, o céu e as estrelas são mais baixos?

Pessoa foi, sem o saber, o reizinho de Lisboa num momento político parecido com o nosso. Podre. De conflito entre o povo e os políticos ou, melhor dizendo, entre os políticos e o povo. Dominadores com suas artimanhas, dominados com suas lágrimas sinceras. As democracias só têm um fundamento crucial: a mentira, sem a qual nenhuma delas sobrevive. Ainda assim, fala-se que o homem conquistou a lua, mas não conseguiu construir um sistema político melhor que a democracia. Mal quebra um galho para vivermos, diríamos.

Se a linguagem era sua mãe, Pessoa não podia admitir que a tisnassem. Por ela conhecia o mundo inteiro. Não sei o que diria de nossos digníssimos arquitetos das redes sociais e de suas mensagens. Dos que viajam o mundo inteiro e não conseguem descrevê-lo; dos que param minutos frente à Torre Eiffel ou ao Louvre e saem satisfeitos, ansiosos pelo almoço. Dos que não conseguem ser monoglotas, mas acessam um arremedo de inglês para dar alguma conta em suas viagens maravilhosas. Temos de sair do País, e gastar muito, para mostrar que somos poderosos brasileiros. Se disser “para mim fazer”, não há problemas. Entendemo-nos. O último governo queria oficializar os desacertos, a ponto de editar livros escolares com timbres oficiais encapando edulcorações dolorosas, mas “politicamente corretas”.

“Tudo para nós está em nosso conceito de mundo; modificar o nosso conceito de mundo é modificar o mundo para nós, isto é, modificar o mundo, pois ele nunca será, para nós, senão o que é para nós. Aquela justiça íntima pela qual escrevemos uma página fluente e bela, aquela reformação verdadeira, pela qual tornamos viva nossa sensibilidade morta – essas coisas são a verdade, a nossa verdade, a única verdade.” (Livro do Desassossego).

Amigos, nesta quadra melancólica, ao verem os noticiários, a cada dia mais uma denúncia, sempre a mesma justificativa, reiterada, estereotipada, finjam,  finjam tão completamente, e deixem-se a fingir que é dor, a dor que deveras sentem.

 

*Amadeu Roberto Garrido de Paula, é Advogado e sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados, com uma ampla visão  sobre política, economia, cenário sindical e assuntos internacionais.