Lapa do passado

Meu chapéu de palha, que coisa linda! Eu tenho que falar “Meu chapéu de palha” para que fique inspirado e eloquente! (Seu Abdalla, que inspiração é esta?!…)

Pois bem! A gente vai ficando velho e a saudade vai aumentando progressivamente e as lembranças do que ficou para trás a gente vai verificando no momento de recordar que os costumes mudaram, os sentimentos se modificaram, os procedimentos são outros totalmente diferentes… E tudo isto causa saudade daquilo que se foi, que não existe mais e quem viu, viu, quem não viu não verá jamais! Meu chapéu, que coisa estranha…

É, minha gente, há 65, 69 anos não existia supermercado, não existia automóveis e muito menos caminhão, não existia estradas largas e asfaltadas e em consequência as casas possuíam quintais grandes, onde existia plantações de verduras e hortaliças, existia também várias árvores frutíferas: peras, maçãs, pêssego, uvas, pitangas, jabuticaba, melão, goiaba e tantas outras espécies. Naquela época a gente (criança) trepava nas pereiras ou na árvore de maçã e comia as frutas sentado no galho da árvore e, às vezes, a gente, no meio da folhagem e do galho da árvore, sentava um passarinho na cabeça da gente ou nos braços, tamanho e número de pássaros existentes nos quintais naquela época.

Naquela época era comum existirem a frente das casas jardins com variados tipos de flores, onde também se viam vários pássaros que cantavam alegremente, como se ali fora o paraíso. Ali se viam sabiás, juritis, sanhaços, bem-te-vis, pardais, pica-paus, coleirinhas, beija flores, saíras e tantos outros, e nas Conheiras das casas se viam as corruíras cantando. À noite se ouvia a melodiosa e tristonha cantoria da coruja, tempos esses que o tempo levou.

Nas ruas se viam dezenas de carroças e cavaleiros com lindos cavalos, que costumeiramente relinchavam, se atribuíam sua participação em qualquer pedaço do paraíso que Deus deu a todos.

Nas carroças vindas das colônias, vinham o homem, sua mulher, seus filhos e filhas, todos juntos numa belíssima reunião de família. O homem vestido de bota, camisa entrecortada de dobras no peito, chapéu de aba larga e pistola na cintura e do outro lado um facão, traje esse normal na época.

Ao lado do patrão estava sua esposa sentada do seu lado esquerdo, trajada com um vestido longo, justo na cintura, um cachecol que lhe caía do pescoço até a cintura e um manto que lhe caía da cabeça até as costas e quem viu, viu, quem não viu, não verá nunca mais, pois os costumes vão mudando e os procedimentos nunca mais se repetirão. E isto só se torna conhecido pelos relatos ortográficos e imagens que se ficam para o futuro.

Não posso me esquecer que em todos os quintais das casas existia criações de galinhas, patos, marrecos, perus, galinha “galizé”. Muitas vezes um galo galizé, ao se aproximar de uma galinha legorne caipira, levava uma surra do gigante galo que, enciumado, lhe impedia até de cantar. E o coitado do garnisé saía gritando “conhenhém”, “conhenhém-quem-quem”… Aliás, seu Abdalla, “conenhém conhenhém é voz de cachorro apanhado. Voz de galo galizé é “qui-quiri cuiqui”.

Nos finais de semana, principalmente aos sábados em festas de casamento, vinham famílias das colônias em dezenas de carroças trazendo inclusive sanfoneiras para alegrar a viagem, pois as estradas por serem estreitas e cheias de buracos, tornava as viagens penosas e longas. Então o sanfoneiro diminuía essa dificuldade da viagem, alegrando o trajeto com melodias e canções vocais.

Outro fato animador era o pipocar dos foguetes que encantavam o trajeto e os fazia animador do evento matrimonial. Meu chapéu de palha, que coisa bonita! Aliás, falta dizer que ao chegar à Praça General Carneiro, quase em frente o Portal da Igreja, se soltava inúmeros foguetes, que pareciam a beleza de um trovão da natureza, ao se comemorar a nova criação de um lar e de uma família.

E assim, ao ir recordando o passado, a gente vai sentindo saudade daquilo que se foi, daquilo que um dia fez parte da nossa imaginação. Ao recordar o passado, recordamos o tempo da juventude, dos colegas, dos amigos, dos procedimentos que pertencem unicamente àquele momento da vida e que hoje, ao relembrarmos, vimos que pertencem à imaginação, às lembranças, e, portanto, ao relembrarmos voltamos a viver aquele momento e instantaneamente nos vem o encanto da saudade.

Conheci a Lapa com apenas 5.000 habitantes, há 69 anos. Hoje, já velho, 80 anos, posso dizer emocionado e saudoso que a vida é bela em todos os momentos e cada um o sente no momento que lhe é devido.

Viva a lembrança, viva a recordação, bendita é a saudade! O que passou, passou, tudo muda a cada instante e com o passar do tempo o momento anterior se torna saudade.

*Abdalla João Dardaque é Cidadão Honorário da Lapa.