Da agricultura ao comércio

Este mês visitamos toda a área aos arredores do Mato Preto, mas sempre nos mantendo na margem sul da Rodovia do Xisto. Lembrando que dividimos a zona rural da Lapa em pequenas regiões, para ser mais fácil de registrarmos os destaques de cada local.
Nosso circuito começa justamente na Rodovia do Xisto, no Quiosque do Sr. João Antônio Mayer Dias. Em alguns municípios temos quiosques para vendas de produtos da região a cada 50 metros das rodovias. No trecho entre Lapa e Antônio Olinto, temos apenas 3 quiosques. Claro que paramos para um “pé de prosa”. Seguindo na direção oeste passamos por várias cerealistas, que realmente marcam presença forte na região. Ainda na rodovia, nos deparamos com um redutor de velocidade em uma reta perfeita para ultrapassagens. Motivo? Simples: chegamos ao Colégio Estadual Juscelino K. de Oliveira, que é um ponto de referência na região. O redutor é justamente para proteger as crianças e adolescentes que por ali transitam.
Ao lado do Colégio, mais conhecido apenas por JK ou Juscelino, tomamos a estrada rural para o Mato Preto Paiol. Logo no primeiro entroncamento encontramos mais uma cerealista – que também é uma agropecuária – Cerealista Por do Sol – e colocamos aqui como destaque.
Na chegando já em Mato Preto Paiol tivemos a grata satisfação de conhecer os senhores Aurélio Mello e João dos Santos, o primeiro um exemplo de uma nova tendência no meio rural – aposentados retirando-se dos grandes centros para ter melhor qualidade de vida. O segundo representante da Associação local, que conseguiu algumas boas conquistas para a comunidade.
Retornando à rodovia continuamos seguindo à oeste, e encontramos outra cerealista e mais um destaque: um restaurante bastante tradicional na região e que já está se tornando até nome de comunidade.
Finalmente chegando quase à divisa entre Lapa e Antônio Olinto acessamos uma pequena estrada rural e chegamos à residência da D. Cecília Pavão, que tem uma agroindústria de conservas. Infelizmente não a encontramos em casa, então vamos tentar novamente para a próxima edição.

Quiosque do Sr. João A. Mayer Dias
Quiosques de beira de estrada são normalmente subvalorizados e até menosprezados pela população em geral, mas são importantes formas de escoamento de produção de uma região, pois é comum agricultores da região levarem uma pequena parte de sua produção para venda nestes quiosques. O volume sempre é pequeno, mas a alternativa é vender normalmente para alguém no CEASA, que irá revender para algum atravessador, que por fim irá vender para mercadinhos e frutarias. Cada etapa desta aumenta o preço do produto.
Vendendo a produção em quiosques, o agricultor consegue um preço muito maior que se vendesse optasse pelo CEASA, e o preço de venda ainda costuma ser mais atrativo que o da cidade. Como é possível? Simples: o agricultor fica com a margem de lucro que seria dos atravessadores.
Em muitas cidades você vê que os agricultores já se perceberam desta vantagem, e encontra em grande quantidade vendedores em quiosques de beira de estrada. Na Lapa não é assim.
O Sr. João Antônio Mayer Dias recebeu de seu pai como herança uma pequena propriedade às margens da rodovia do Xisto. Não mais que 3,5 hectares – quase um alqueire e meio. Como a área era pequena para manter a família, estudou formas de melhorar a renda.
Plantou toda a área com frutas de caroço, pêssego e ameixa, mas para escoar a produção optou por criar um quiosque e vender seus produtos. Isso se vão já mais 10 anos. Não parou por ai: também começou uma horta para diversificar os produtos, e quando as vendas de pêssego começaram a ficar mais atraentes, entrou em parceria com um sócio para cultivar mais 1,5 hectare de pêssego, em área vizinha à sua.
O quiosque foi se diversificando, e para ajudar contou com o apoio de sua esposa Elaine e sua filha Janaina, que também atendem os clientes que param no local. Vizinhos começaram a trazer parte de suas colheitas, e hoje, apesar de o “carro chefe” de vendas ainda ser o pêssego, o Sr. João também vende feijão, cebola, pinhão, mel, ovos, frutas diversas (quando visitamos, a fruta da estação era a pera), e ainda disponibiliza artesanatos, doces, salgados, sucos e água para quem ali fizer sua parada.
Na margem sul da rodovia do xisto, em toda a extensão entre Lapa e Antônio Olinto este é o único quiosque de vendas.

Quiosque do Sr. João Antônio. Ponto de comercialização para a produção local.

Colégio Estadual Juscelino Kubitschek de Oliveira
Fundado em 1984, o popular JK, ou Juscelino, é um ponto de referência na Rodovia do Xisto, e hoje é uma das três únicas escolas rurais do município que mantém ensino médio (antigo 2º Grau) para seus alunos.
Quem nos contou um pouco sobre a instituição foi o Sr. Pedro Ribeiro, que está lá desde 1989, inicialmente como professor de Língua Portuguesa, e a partir de 2009, como diretor.
Segundo ele, a escola começou bastante tímida, com apenas 4 turmas entre 5ª e 8ª séries do ensino fundamental. Não tinha de inicio mais que 100 alunos. Só que a distância da cidade sempre foi um fator agravante para a população da região, e com isso o número de matrículas foi crescendo, de forma que em 1994 já houve intervenção com a criação de mais salas de aula. Não foi suficiente. Em 2004 a situação estava tão crítica que 3 turmas recebiam suas aulas em um barracão da Igreja, ao lado do colégio, e ainda uma outra turma era obrigada a assistir aulas no paiol do Sr. Antônio Ribas, vizinho da escola. Houve uma grande mobilização da diretoria e professores e finalmente foram construídas salas emergenciais, que então deram conta da grande demanda da região.
Este ano a instituição atende a 34 comunidades lapeanas, além de 40 a 50 alunos do município de Antônio Olinto. São cerca de 500 alunos matriculados todos os anos, atendidos por cerca de 54 professores e funcionários.
Mas além da clara importância na educação, o Colégio se tornou importante também por outro motivo: Terminal de Conexão de Ônibus! Até 2004 o Juscelino só funcionava pela manhã, mas para dar conta do número de alunos passou a ter turmas à tarde também. Como é necessário transportar alunos de muitas comunidades, e alguns alunos ainda se deslocam para escolas municipais (ensino de 1ª a 5ª série), houve a necessidade de que todos os horários de ônibus que circulam no interior fossem sincronizados, e o ponto de encontro é justamente o pátio em frente ao JK, nos horários de entrada e saída dos alunos.

Diretor Pedro Ribeiro em frente ao Colégio Juscelino K. de Oliveira. Estabelecimento de referência no interior do município.

Cerealistas
Na região uma atividade que sem dúvida se destaca são as cerealistas. São cinco no total. Para quem não conhece, uma cerealista é uma parceira do produtor rural que produz grãos. Cada grão é colhido no campo com um nível de umidade que varia com as condições climáticas, e se armazenado com muita umidade, os grãos irão mofar, germinar, e até mesmo fermentar. Então o serviço mais básico que uma cerealista presta é justamente a secagem dos grãos colhidos – soja, milho e feijão são os principais na Lapa, mas também trabalham com trigo e batata (que não é grão, mas também entra no escopo destas empresas).
Outra função importante é a armazenagem. Como os custos de se implantar um silo nem sempre é viável para pequenos e médios agricultores, as cerealistas prestam este serviço, cobrando um aluguel pela armazenagem. Para o agricultor isso é importante pois os preços destes produtos – principalmente do feijão (ver artigo nesta edição) – sofrem algumas variações, e com o armazenamento o agricultor tem a possibilidade de tentar vender sua produção quando os preços forem mais favoráveis.
Finalmente, as cerealistas também compram e revendem a produção agrícola. Com um potencial comprador nas proximidades o agricultor tem menores preocupações com frete e escoamento da produção, entre outras muitas vantagens.
Das cinco cerealistas conseguimos conversar com quatro. A maior de todas e também mais antiga é a Rio Sul, fundada em 1994, contando hoje com 83 funcionários fixos e cerca de 10 temporários, que trabalham apenas durante a safra. A Unegrãos é a mais próxima de Antônio Olinto e também a caçula do grupo, fundada no inicio de 2017, e conta com quatro funcionários fixos e outros 4 temporários. Próximo ao JK está a Master Grãos instalada ali desde 2007, no momento com 2 funcionários fixos e 5 temporários. Praticamente ao seu lado encontramos a Sul Agrícola, mas não conseguimos contato com ninguém responsável. É importante salientar que esses empregos citados são apenas nas unidades dessa região. A Rio Sul, por exemplo, tem mais de 100 funcionários, mas nem todos atuam no Mato Preto – o mesmo se dá com as outras.
Entrando na estrada rural ao lado do JK, em direção ao Mato Preto Paiol logo encontramos a Cerealista Por do Sol, que é gerenciada pelo Sr. Sérgio Araújo Santos. Resolvemos parar no local por três características interessantes: primeiro é uma empresa familiar, segundo que o proprietário também é agricultor e construiu a cerealista em suas terras. Finalmente, além de cerealista a empresa também é uma agropecuária. Achou pouco? Imagine um comércio em uma estrada rural onde outras residências e pontos comerciais próximos se contam nos dedos. E ainda assim, o local estava com vários clientes – tanto que quase não consegui falar com os proprietários.
A Cerealista Por do Sol começou em 2013, gerenciada pelo Sr. Sergio e sua esposa Silvana. Como a filha Stefany concluiu o ensino médio ano passado (pelo JK), agora também auxilia a família. A loja agropecuária foi criada no inicio de 2017 tendo como forte o comércio de rações. Já a cerealista, a exemplo de outras da região, decidiu criar sua própria marca de feijão, embalando o produto e vendendo nos mercados locais.

Cerealista Pôr do Sol, no Mato Preto. À direita a Sra. Silvana e sua filha Stefany que junto com o   Sr. Sergio administram tanto cerealista quanto a agropecuária.
Pacote de feijão embalado por esta empresa familiar e que pode ser encontrado no comércio lapeano.

Sitio do Sr. Aurélio
A primeira informação que chegou para nós foi a existência de um “naturalista aposentado” que veio de fora e comprou terras lá no Mato Preto Paiol.
Perguntando no caminho encontramos o Sr. Aurélio João Melo e sua esposa, a D. Mariana. A história do casal bate mais ou menos com o comentário inicial, mas não sei se eles se consideram “naturalistas”. De toda forma, representam uma tendência crescente em nosso País: pessoas que optam por sair dos grandes centros em busca de qualidade de vida.
O Sr. Aurélio nasceu em Laguna/SC, mas se mudou para Curitiba onde trabalhou por vários anos na fábrica da New Holland. Aposentado, resolveu que gostaria de uma chácara para curtir com calma os seus fins de semana.
Encontrou um anúncio no jornal A Tribuna do Paraná sobre uma área na Lapa, e tentou localizar, sem sucesso. Porém já durante a busca percebeu que a região era bastante segura e isso lhe agradou muito. Depois de ver repetidos anúncios no jornal, tentou localizar a área novamente, e conseguiu. Se encantou com o local.
A área era um lavourão que ia até quase a beira do rio. Aos poucos Sr. Aurélio foi construindo sua casa, replantando a mata ciliar e plantando suas fruteiras prediletas. Na nossa visita fomos presenteados com uma bacia de uvaias, madurinhas.
Vinha nos fins de semana, e cada vez melhorava a infraestrutura do local, até que em 2012 decidiu, em conjunto com a D. Mariana, mudar de vez para a Lapa.
O local é realmente um sossego, cheio de árvores, bem cuidado e ainda com o barulho do ribeirão correndo logo ao lado. Tanto que o local virou ponto de encontro da família para o fim de ano. Este ano, além do filho, nora, filha e genro, chegaram vários parentes, e segundo o Sr. Aurélio a diversão foram as ameixeiras carregadas de frutas maduras que fizeram a alegria do povo que pouco sai da zona urbana. Claro, hoje o sitio conta com uma bela churrasqueira para atender a família.
Parte da área é locada para plantio de soja, mas o Sr. Aurélio está preocupado com a quantia de agrotóxicos que vê sendo aplicados, e pensa seriamente em encerrar contrato. Ainda não decidiu o que fará no local, mas a julgar pela área de uso da família, será algo bem mais benéfico ao meio ambiente.

Casal Aurélio e Mariana de Mello em seu sítio no Mato Preto Paiol. Qualidade de vida e segurança como motivadores param deixar a vida em grandes centros.

Associação de Agricultura Familiar do Mato Preto Paiol
Junto à capela do Mato Preto Paiol nos deparamos com uma placa que informa de modo retumbante: “Projeto Mato Preto Paiol – Premio Santander – Universidade Solidária 16ª Edição”. A placa é do Centro Tecnológico Positivo, afixada na agroindústria que a comunidade recebeu – a fundo perdido – através do projeto acima. Calma… comecemos do começo.
A comunidade do Mato Preto Paiol é na verdade um Faxinal. Para quem não sabe o que é isso, uma das definições mais completas que encontramos segue abaixo:
“Faxinal: uma quantidade de terra que não era habitada e ainda sem proprietário, que foi conquistada por desbravadores. Cada um desses desbravadores fica com um pedaço dessa terra, mas não dividem as propriedades com cercas e todos criam seus animais soltos nas terras um dos outros, identificados pelas marcas de cada um.”
Ocorre que cada faxinal desenvolve características culturais e sociais próprias, e são reconhecidos e protegidos por lei. O Mato Preto Paiol já tem todo esse reconhecimento e proteção.
Em 2013 uma professora da Faculdade Evangélica estava buscando comunidades para criar projetos e vincular à universidade. Foram visitadas 630 comunidades em todo o Brasil, e oito foram escolhidas, entre elas a dos nossos irmãos lapeanos.
Em 2015 o projeto foi assumido pela Centro Tecnológico Positivo, e ganhou mais força. Basicamente fizeram um estudo para melhorar a qualidade de vida da população e buscaram recursos necessários para a implantação. Claro, a faculdade lucra tanto com o nome quanto com a possibilidade de seus alunos terem vivências práticas.
Segundo o Sr. João Araújo dos Santos, atual tesoureiro da associação, o projeto era a implantação de uma fábrica de beneficiamento de mandioca, onde a mesma é descascada, embalada a vácuo e congelada. O projeto teve um inicio muito bom logo que a fábrica foi instalada, tendo capacidade de processar 60 kg de mandioca por dia, com 4 funcionárias fixas. O produto local foi enviado para demonstração em Curitiba e despertou interesse de uma rede de restaurantes que tem 20 unidades na capital, e também de uma rede de supermercados.
Também gerou algumas visitas de estudantes: a turma de medicina chegou e fez um check-up em todos da comunidade. Já o pessoal da veterinária atendeu todos os animais que os locais apresentaram. Visitas das turmas de pedagogia e engenharia ambiental também quebraram a rotina do faxinal.
De momento está em implantação uma segunda etapa, onde será produzida massa cozida pronta de mandioca, mas esse avanço ainda está esbarrando na falta de produto, o que já está sendo sanado pelos faxinalenses.

Cozinha industrial de propriedade da Associação de Agricultura Familiar do Mato Preto Paiol, construida através do apoio do Centro Tecnológico Positivo.

Restaurante Palmeirinha
Qualquer um que tenha feito um bom curso se direção defensiva sabe que é recomendável programar suas viagens com antecedência, e na programação estabelecer locais de parada sempre do seu lado da rodovia, evitando cruzamentos.
Para quem vem de São Mateus em direção à Lapa existem poucas opções de parada sem fazer o cruzamento. Existem neste lado da pista apenas dois restaurantes – um vinculado a um posto de gasolina, e o da Palmeirinha.
O da Palmeirinha fica aqui como destaque por alguns motivos particulares: foi criado e é gerenciado por agricultores e está dando nome à uma comunidade.
Tudo começou com um casal empreendedor. O Sr. Mário Kovalczuk recebeu de herança uma área no local, e como a lavoura permitia algum tempo sem atividades, criou um bar. Alguns anos depois, em 1995, a sua esposa, Sra. Teresinha resolveu seguir o exemplo e começou um restaurante.
De inicio, o restaurante não tinha nome, mas logo em frente ao prédio tem uma palmeira jerivá, que ninguém soube informar se foi plantada ou nasceu sozinha. Aos poucos os caminhoneiros descobriram o restaurante aprovaram a comida. Para indicar para os amigos falavam do “restaurante da palmeirinha”. Aos poucos a Sra. Teresinha adotou o nome.
Hoje tanto o Sr. Mario quanto a Sra. Teresinha estão aposentados. O Sr. Mário cuida do bar, e deixou a lavoura aos cuidados dos dois filhos. Já a filha, Flavia Kovalczuk Falat, e a nora, Silvana Costa Kovalczuk, assumiram o restaurante – ou mais ou menos… a Sra. Teresinha fica a cargo da cozinha e claro, de puxar a orelha das meninas se fizerem algo errado. Ainda trabalham no restaurante uma neta e uma sobrinha da Sra. Teresinha.
O restaurante é bastante pequeno – tem apenas 28 lugares, mas atrai pela comida caseira, simples e bem feita no fogão a lenha. Como a média de atendimentos é de 50 pessoas por refeição, os clientes mais assíduos até criaram o hábito de confraternizar mesas. O ambiente familiar aliado à qualidade das refeições e do atendimento tornou o restaurante uma referência local.
O restaurante está no Km 239, na comunidade chamada oficialmente de “Bonito”, mas muita gente já se refere ao local por Comunidade da Palmeirinha, ou Vila Palmeirinha, apesar destes nomes não serem oficiais – aliás, é mesmo uma vila onde todos são parentes e se sobressaem dois sobrenomes: Kovalczuk, é claro, e Knaut.
Quem desejar conhecer o restaurante basta dirigir-se em direção a Antônio Olinto. Se desejar agendar algo, pode entrar em contato pelo telefone 9 8873-3995.

Restaurante Palmeirinha no km 239 da Rodovia do Xisto. À esquerda da foto a palmeira jerivá que deu nome ao local.