A Lapa e seus causos curiosos

Em 249 anos de existência, as ruas da cidade trazem muito mais do que está registrado nos livros.

A Lapa é conhecida por sua rica história, que pode ser facilmente encontrada nos livros. Mas, além destas, há outras que fazem com que suas ruas e casarões chamem ainda mais a atenção.

Sabendo da importância da história oral, daquela que não foi registrada em nenhum livro oficial, a redação da Tribuna foi conversar com a lapeana Rosângela Xavier, funcionária pública aposentada, historiadora, e integrante da Associação Literária Lapeana. Ela compartilha aqui um pouco de seu conhecimento e de sua experiência com inúmeras pessoas que viajam no tempo com relatos que mantêm vivas histórias através dos séculos.

Ela afirma que trata-se de fatos verídicos e também estórias, que cultivam a cultura de um povo com 249 anos de existência.

As estórias, conhecidas de Rosângela, não foram registradas oficialmente, mas fazem parte da vida de muitas pessoas que cresceram vendo ou ouvindo, ou repassando os causos, para os filhos, netos e bisnetos…

LOBISOMEM E BOITATÁ

Os causos de ver lobisomem, boitatá e almas são bastante conhecidos, principalmente por quem reside no interior.

Um dos episódios, conta Rosângela, se deu alguns anos atrás, quando, recém-casada, seguia pela Rua Ubaldino do Amaral com o marido. Era final de tarde e num terreno vago tinha um olho d’água. Ali ela viu uma bola de fogo que acompanhava os dois. Chegou a gritar, e a bola de fogo adentrou no olho d’água no terreno de propriedade do falecido Alexandre Weinhart. Em outra ocasião, em uma visita ao Sr. Alexandre, Rosângela contou o ocorrido e ele disse que dentro do olho d’água ela havia visto a “Mãe de ouro” e que ela poderia ir lá procurar e até encontrar o ouro. Rosângela, em tom sorridente, o agradeceu, dizendo: “Não, muito obrigada vim aqui lhe contar e não quero mexer com essas coisas”.

Essas estórias não estão nos livros, mas são contadas e fazem parte da cultura e da imaginação do povo. Outro relato destacado por Rosangela, é de que onde estão hoje construídos imóveis de um condomínio fechado, atrás da Escola Abigail Cortes, existia um olho d’água. Isso nos anos de 1789 e 1800. Ali havia um orifício perfurado pelos escravos. Ela e seus colegas não costumavam brincar no local por medo do olho d’água, pois diziam que não tinha fundo. Mas, na verdade a água era cristalina e por conta do limbo que se formou parecia escura.

Nesta região, devido a ter animais soltos, no descampado, havia apenas uma ou outra casa. Havia pequenos rios por ali e sempre eram vistas bolas de fogo pelos campos. Bolas de fogo que para muitos significava o Boitatá.

Hoje, sabe-se que há uma explicação científica para a “aparição” do Boitatá. Corpos (humanos e também de outros animais) em decomposição atraem uma série de bactérias que aceleram o processo. Com a decomposição, ocorre o acúmulo dos gases metano e fosfina. Aos poucos, esses gases vão à superfície e, ao entrarem em contato com o ar, entram em combustão.

O verdadeiro nome desse fenômeno é fogo-fátuo e ele não dura mais do que poucos segundos. Como o fogo faz com que as pessoas se assustem, é muito comum que quem está perto das chamas saia correndo. Nessa situação, o deslocamento de ar faz com que o fogo-fátuo siga os pés da pessoa, causando a impressão de que é uma cobra flamejante.

O CARROCEIRO

Outra estória contada por Rosangela, escrita por ela, baseada nos causos de antigamente e que mexe com a imaginação das pessoas é sobre o carroceiro que passa pela rua, mas ninguém vê. Só ouvem o barulho, olham e enxergam água caindo.

Essa estória foi contada pelo pai de Rosângela, que, segundo ela, inúmeras vezes relatou ter ouvido o barulho, mas nunca ter visto alguém.

“O barulho vem dos lados do Piripau e vem vindo como se fosse uma carroça antiga arrastando correntes”, explicava.

Conta-se que no passado escravos com as carroças levavam água e distribuíam nas casas da região. Conta-se que o barulho é percebido geralmente na Quaresma. São causos que, verídicos ou não, mexem com o imaginário das pessoas.

Sobre o carroceiro, Rosângela comentou que há pouco tempo, questão de meses, um amigo seu relatou que fazia sua caminhada pela Avenida e depois pela Rua Marechal Floriano Peixoto. Naquela rua viu o carroceiro. A descrição que fez a ela era de que era um sujeito moreno, com rosto desfigurado, pés com correntes, em uma carroça antiga e com barricas de água. Ele logo desapareceu  no portão do Colégio General Carneiro.

Rosângela destacou haver algum fundamento nos causos antigos contados, pois no período da Revolução Federalista inúmeras ruas foram muito alvejadas, inclusive a Marechal Floriano Peixoto. Assim, acredita-se que muitos escravos ou soldados foram mortos nestas vias. E, estes sinais, ruídos e aparições estariam relacionados às almas deles, vagando pela cidade.

Rosangela ressaltou: “Caminhamos na Lapa e nem imaginamos que pode haver corpos enterrados. No trecho entre o Clube Congresso e o Clube Lapeano, por exemplo, havia uma vala onde muitos corpos foram postos, ’sepultados’, no período da Revolução”.

Muitos mistérios de vida, de luta, vitórias e dores que marcam a Lapa. A cidade é muito rica em histórias e estórias. Muito mais pode haver guardado nos cantos e nas ruas, nos casarios da Lapa, vidas que marcaram a construção dessa bela cidade que chega a seus  249 anos.