E a Velha Senhora voltou à Legendária!

Emoldurada pela fumaça de vapor lançada ao céu a cada apito, a Maria Fumaça coroou os 249 anos da Lapa, oferecendo aos lapeanos e turistas a oportunidade de voltar ao passado! É de marejar os olhos!

Doze de junho de 2018… Muito antes de raiar o dia, a equipe da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária de Santa Catarina (ABPF-SC) já se movimentava para colocar em marcha em direção à Lapa a Maria Fumaça Mallet 204 (a única do clássico modelo Mallet 204 em circulação na América do Sul). Ela, a estrela maior das festividades alusivas aos 249 anos da histórica cidade, saiu por volta de 6h45 de Rio Negrinho, com previsão de chegada à Lapa entre 16h e 18h. Resultado? Grande expectativa da população, que guarda com carinho no coração os memoráveis passeios dos anos 1980, quando a Lapa – em virtude do turismo férreo e da Maria Fumaça – entrou para o mapa turístico nacional.

No dia seguinte, 13 de junho, com as bênçãos de Santo Antônio, padroeiro, e de São Benedito, padrinho da Lapa, a Velha Senhora voltou a operar nos trilhos do município, partindo do Bairro Estação com destino ao Rio da Várzea.

Os curiosos e os passageiros iam chegando, recepcionados pela Banda Municipal João Francisco Mariano, sob regência do maestro Luiz Eduardo.

De marejar os olhos!!!

O belo e nostálgico apito da locomotiva era o convite para que todos, ao menos, fossem até a antiga Estação, encher os olhos com tanta beleza. Aos que puderam ir além, a emoção ainda maior de sentar nos velhos bancos e apreciar uma curta, mas linda, viagem até logo ali, no Rio da Várzea. Cerca de duas horas de passeio, ida e volta. O suficiente para trazer à memória belas lembranças dos saudosos passeios de trem e todo o contexto (a espera na estação, o coração apertado na despedida, a alegria na chegada, o lanche oferecido nos vagões – ou aquele preparado cuidadosamente e levado junto à bagagem, a conversa com os outros passageiros pra passar o tempo…).

Quem não viveu essa época, em que o Brasil ainda oferecia o trem como meio de transporte, também pode sentir o gostinho e entender um pouco do porquê de tanto saudosismo! É lindo de viver!

A locomotiva, emoldurada pela fumaça de vapor lançada ao céu a cada apito, ia passando pelas localidades da Lapa. Os passageiros, acenando, fotografando e aproveitando cada segundo ali vividos. Já do lado de fora, tantos outros “tietes” aguardavam a passagem da linda Maria. Quase que em todo o caminho, lá estavam eles, os fãs, aguardando para um registro de sua passagem!

A Lapa é terra de muitos ex-ferroviários, terra de muitos de seus descendentes… Então, mesmo quem não viveu os tempos da Maria Fumaça, já ouviu lindos relatos em que ela estava envolvida, sempre, como estrela principal!

Um exemplo é César Perosa, 58 anos. Hoje aposentado, atuava como Maquinista na Rede Ferroviária. Seu pai, Palmiro Perosa, também foi funcionário da empresa, mas trabalhava no trecho. Em sua família, mais amantes do trem: Luís Perosa, o conhecido Lima Laize, que hoje é maquinista da América Latina Logística. “Está no sangue”, conta César, que após se aposentar passou a trabalhar como voluntário, “pilotando” a Maria Fumaça em passeios especiais, como estes, que estão acontecendo na Lapa até o dia 17. Sobre ser um dos responsáveis pelo apito da locomotiva, ele relata: “É muita emoção, sempre uma emoção diferente”, ao ser questionado sobre presenciar tantas pessoas irem até a beirada dos trilhos para acompanharem a passagem da Velha Senhora.

E é muita emoção, mesmo! Para todos os gostos e todas as idades! Crianças e idosos, todos com o rosto transbordando magia! Mais do que um trem, ou um mero passeio, um retorno ao passado… Retorno à época em que tudo caminhava mais devagar, compassado ao ritmo dela (Tic tac, tic tac, piuiíííííí)… Viajando com velocidade média de 21km por hora, o balanço agradável da Maria Fumaça deixava margem à boa prosa, ao cochilo sossegado, à apreciação das deslumbrantes paisagens que estão ao nosso redor, mas que acabam passando despercebidas. Abençoado caminho entre Lapa e Rio da Várzea, que quase não tem sinal internet! Assim, os “conectados” se obrigam a realmente imergir no passeio e entender tudo o que acompanha a maravilhosa Maria Fumaça!

Saudades de uma época em que o tempo corria mais devagar. A avó acenando aos pequenos no início da viagem.
Está no sangue! Um dos maquinistas da locomotiva, César Perosa, está aposentado do ofício, mas atua como voluntário em passeios especiais.(Foto Matheus Baggio Gorniski)
Luimar Perosa é neto de “Seu Palmiro Perosa e sobrinho de César Perosa: 10 anos como maquinista. “É um sonho de infância que consegui realizar”, comenta Luimar.
Tic tac tic tac – piuí!!! Numa velocidade média de 21km por hora, impossível não apreciar cada detalhe do passeio! (Foto Matheus Baggio Gorniski)