“Doutora Morte? A Medicina do banco dos réus”

Advogado criminalista lapeano lança livro, no dia 26 de julho, sobre o emblemático caso da médica Virginia Helena Soares de Souza, ex-chefe da UTI do Hospital Evangélico de Curitiba, acusada, em 2013, de ordenar a morte de vários pacientes.

O advogado criminalista lapeano Elias Mattar Assad lança, no dia 26 de julho, o livro “Doutora Morte? A Medicina no banco dos réus – o resgate da verdade”, em que narra o caso da médica Virginia Helena Soares de Souza, ex-chefe da UTI do Hospital Evangélico de Curitiba, acusada, em 2013, de ordenar a morte de vários pacientes. No ano passado ela foi absolvida de todas as acusações, sem sequer chegar a ir a júri popular.

O evento de lançamento do livro acontece às 19h30, na Livraria da Vila, no Shopping Pátio Batel, em Curitiba.

“Este é o caso criminal contemporâneo mais emblemático e desafiador que se tem notícias. Os extremos limites defensivos do imaginável foram testados, como se verá da leitura. A Justiça imperou, impedindo um imperdoável e irreparável erro judiciário. Esperamos que sirva de exemplo para que as desgraças de falsas acusações não vitimem outras pessoas. Obra baseada em fatos reais posto que nem a ficção ousaria chegar a tanto”, afirmou o advogado Elias Mattar Assad.

A MÉDICA

Desde 2006, Virgínia era chefe da UTI do Hospital Evangélico, um dos mais importantes do Paraná e referência no Brasil em tratamento de queimados.

Em entrevista à época das acusações, questionada se era inocente, a médica respondeu: “A inocência e culpa tem que estar relacionada a um fato comprovado e o fato da minha vida, como médica, é que eu nunca ia omitir socorro. Nunca fui negligente, nunca fui imprudente, nunca tive uma infração ética registrada, uma queixa e exerci a medicina de forma consciente, correta; não sou Deus, não sou perfeita, erros podem ter acontecido, jamais de forma intencional, e nada mais fiz do que exercer com a maior dignidade possível, e com respeito aos pacientes, a medicina intensiva”.

Na edição de junho de 2013, a Revista Piauí publicou o perfil da doutora Virgínia. A reportagem relatava um componente de animosidade pessoal contra ela entre os que a denunciaram. Subordinados se achavam maltratados, colegas preteridos e superiores, desafiados pelo jeito mercurial e pouco diplomático da médica. A descrição de como ela, que era chefe da UTI, supostamente matava pacientes também era dissonante. Nos depoimentos, havia muitos “ouvi dizer”, “todo mundo sabe”, “era óbvio que ela fazia isso”. Entrevistados, profissionais de outros hospitais lançavam dúvidas sobre o teor das acusações.

A doutora e outros sete funcionários do hospital foram denunciados pela promotoria por homicídio e formação de quadrilha. Ela chegou a ficar presa por um mês. Nos outros quarenta e nove enquanto durou o processo, ela se impingiu uma prisão domiciliar esperando julgamento. À exceção dela, todos os demais continuaram trabalhando até o desfecho do caso. “Uma delas, uma enfermeira mais nova, me culpa pela situação, eu sei”, disse. Todos foram absolvidos por falta de provas. Ela já havia sido inocentada no Conselho Regional de Medicina. E também ganhou uma ação trabalhista contra o hospital que totaliza 4 milhões de reais – soma que a defesa acredita nunca irá receber.

O advogado Elias Mattar Assad, autor da obra sobre o caso, disse: “A medicina foi para o banco dos réus, não a doutora”. “Médicos podem ser investigados? Claro, mas é preciso que seja examinado por gente que tenha expertise no assunto. Não pode ser um policial, um delegado, um procurador”, disse Assad. Assim que o “caso do Hospital Evangélico” veio à tona, a doutora teve o salário cortado. Como não tinha poupança e morava de aluguel, a situação se complicou. O advogado lhe cedeu um apartamento de 120 metros quadrados, onde ela passou a viver – e ainda vive – com o único filho, Leonardo, que é solteiro e músico.

Na crise, alguns amigos sumiram. Outros ressurgiram do nada. A maioria, segundo ela, se fez mais presente do que nunca. Um deles, dono de uma clínica, a contratou para um serviço de atendimento ao cliente por telefone. “Uma criatura excepcional que me amparou em tudo. Ele inventou um jeito de eu trabalhar para poder sobreviver. A função pode ser considerada menor para alguém que comandou uma das UTIs mais sobrecarregadas do país. O novo trabalho consistia em, depois da consulta, ligar para o paciente para saber se tudo correu bem, como foi o exame, se foi fácil estacionar, se há críticas ou sugestões. Outro amigo passou a pagar a diarista. Durante meses, outros lhe mandaram comida, presentes, roupas. A manicure e o cabeleireiro de anos se voluntariaram para atendê-la em casa. Quando relatou a solidariedade recebida, ela chorou. “Eu nunca, nunca, vou poder pagar isso de volta”.

Nas vezes em que circulou publicamente, ouviu “Olha a doutora morte”, “Olha a assassina”, mas, segundo disse, “nada de mais grave”. Também disse que muitas vezes a interpelaram perguntando “A senhora é a…” ao que ela prontamente respondia: “Sou eu sim.” E a conversa transcorria de forma civilizada.

No meio do processo, a doutora foi diagnosticada com catarata bilateral e sofreu uma perda de visão severa.

A experiência lhe trouxera algum ensinamento? “O que eu aprendi com isso? De bom? Nada”, disse enfática. Depois, refez a frase. “Não acho que estamos num país onde nada presta”, disse. “Fez-se justiça no meu caso”. Sobre o Ministério Público e a imprensa, ela tem uma opinião particular. Segundo ela, o esforço dos procuradores em incriminá-la poderia ter sido direcionado para melhorar o atendimento de saúde pública para a população, que enfrenta filas, serviços de péssima qualidade. Já o jornalismo, ela disse, havia sido uma decepção. “Fico chocada com algumas coisas. Com o português usado, por exemplo”. Também, ressaltou, o que chamou de “jornalismo de caras e bocas”. “Detesto”, deixou escapar. Ao fim e ao cabo, ela disse achar estar diferente, mais reflexiva, menos radical.

“Se eu pudesse, se eu fosse aceita, me ofereceria graciosamente para trabalhar para um CRM para fazer leituras de prontuários de pessoas acusadas”, disse. Em sua opinião, nada melhor do que quem passou por isso para ter o equilíbrio de fazer a coisa correta.