A polêmica dos agrotóxicos

Produtos químicos estão entranhados em nossa cadeia produtiva agrícola, e apesar de sofrerem forte resistência por lobbys contrários, se bem utilizados podem ser grandes aliados no desenvolvimento nacional e na manutenção do meio ambiente.

Imagine o leitor um cenário onde alguma agencia governamental deveria fiscalizar algum aspecto burocrático da gasolina nacional, e deixou de cumprir suas obrigações para este ano. Imagine ainda que havia uma obrigatoriedade legal de se proibir a venda e uso de gasolina, se não existisse essa fiscalização, e dai um juiz federal qualquer decida cumprir a lei à risca, proibindo o uso de gasolina em todo o Brasil.
Absurdo? Com certeza. A gasolina é um produto que polui, tem suas complexidades, e claro, devemos substituí-la por novas tecnologias. Mas e se fizermos isso de uma hora para outra, sem uma transição, qual seria o efeito? Caos, desabastecimento, fome, desemprego, entre outras.
Pois bem. Existem algumas substâncias químicas que estão para a agricultura assim como a gasolina para a sociedade em geral, e o quadro pintado no primeiro parágrafo aconteceu de fato neste último mês. Tratam-se de três substâncias, o Glifosato, a Abamectina e o Tiram.
Como são agrotóxicos, tem sua regulamentação pela ANVISA e Ministério da Agricultura, e são regulamentações pesadas e difíceis de se conseguir. Portanto, quando se libera um produto para uso agrícola, existem os que falam que ele é até mais fiscalizado que se fosse usado como remédio humano.
E sim, a comparação tem sentido. O cetoconazol é um fungicida usado tanto na agricultura quanto em pomadas e shampoos para uso humano. A diferença é que a dose na agricultura chega a ser 20 vezes menor, mas para comprar a pomada ou shampoo nem precisa de receita médica. Já para comprar a versão agrícola, existe toda uma burocracia e fiscalização incidente.
E essa fiscalização é eficiente em muitos sentidos. Claro, em qualquer área sempre existem os que conseguem burlar o sistema, mas não são a maioria.
Em conversa com a Eng. Agrônoma Susane Hoffmann de Siqueira, ali da Coop. Agroindustrial Bom Jesus, confirmamos que antes mesmo da compra do produto existe já um diagnóstico na área onde será aplicado, seguido de todo um sistema de cuidados com a aplicação para não afetar nem populações humanas e nem meio ambiente, e finalmente, existe ainda todo um cuidado com a destinação das embalagens, a chamada logística reversa. No Paraná ainda temos uma espécie de segunda regulamentação promovida pelo ADAPAR, que torna o uso ainda mais seguro.
Isso tudo no momento de se falar em agrotóxicos nem sempre é lembrado, e o lobby contrário costuma ser bastante expressivo.

Segundo Eng. Agrônoma Susane, da Cooperativa Agroindustrial Bom Jesus, o controle e uso de produtos químicos é bastante rígido, e existem iniciativas bastante louváveis como o “Dia Nacional do Campo Limpo”, que serve para conscientizar e educar a população rural a respeito do tema.

O Eng. Agrônomo Maycon, da Astral Grãos, nos conta que tem até a impressão as decisões sobre o assunto são muito mais políticas que técnicas. Segundo ele, existe uma percepção coletiva errada onde “todas as doenças do mundo, algumas que sempre existiram, de repente passam a ser culpa do uso de agrotóxicos”. Um claro exagero.
Alguns argumentariam que é possível produzir sem estes produtos químicos, e comparam o Brasil com países como Dinamarca, onde o cultivo já é 100% orgânico. Ocorre que em primeiro lugar a Dinamarca não é uma potencia agrícola, e em segundo, o inverno serve como uma excelente forma de se controlar pragas. Em um país tropical como o nosso que não tem neve e é um paraíso para pragas e doenças, até conseguimos produzir algumas coisas sem químicos, mas ainda não existe tecnologia no mundo capaz de sustentar nossa produtividade e extensão agrícola sem o uso destes produtos.
Na verdade, um grande entrave é justamente a tecnologia destes produtos químicos. No Brasil ainda usamos moléculas mais antigas, e não temos acesso a produtos mais novos, mais eficientes e menos tóxicos. O motivo disso é justamente a regulamentação, que faz com que um novo produto demore até 20 anos para ser aprovado para uso. Inclusive a pouco tempo houve um grupo de parlamentares que tentou mudar isso, mas foi duramente criticado principalmente por artistas, e as mudanças tiveram que retroceder.
Focando apenas na questão da proibição do glifosato, é visível a falta de compreensão que as pessoas não ligadas ao meio rural têm sobre seu uso.
A proibição da comercialização e uso caiu no dia 23, mas assustou muitos agricultores. Um impacto que muitos não relacionam é justamente com o meio ambiente. O uso do glifosato permitiu que se implantasse em todo o Paraná a técnica chamada “Plantio direto”, que reduz grandemente os problemas de erosão e ainda proporciona um aumento considerável de matéria orgânica no solo, portanto, favorecendo inclusive a manutenção da biologia do solo.
O Eng. Agrônomo Maycon conta que existiriam duas alternativas à nossa agricultura. A primeira seria regredirmos tecnologicamente em praticamente 30 anos. A segunda seria optar por produtos químicos que substituiriam o glifosato. Mas essa substituição seria cara, pois as possibilidades de substituição custam até 10 vezes mais, e ainda teriam que ter eficácia confirmada.

Para o Eng. Agrônomo Maycon, da Alstral Grãos decisões sobre agrotóxicos parecem mais baseadas em questões políticas do que questões técnicas.

Conversando com o agricultor Pedro Krupa, percebemos ainda um outro problema. Todas as sementes que serão usadas agora, a partir de outubro, já foram compradas no final do ano passado e inicio deste ano, e todas já são sementes com tecnologia adaptada ao uso do glifosato. O Sr. Pedro estima que sem glifosato, a Lapa teria uma quebra de safra da ordem de 90%. Mas ele está errado.

Sr. Pedro Krupa, que não quis sorrir para a foto justamente pela gravidade que considera a questão dos agrotóxicos e da forma que as pessoas de fora do meio rural interpretam o seu uso. Durante sua entrevista a decisão de proibir o glifosato ainda estava vigorando.

A Eng. Agrônoma Susane estimou que não mais que 2% da produção lapeana é de soja convencional, portanto, consideramos que a quebra prevista pelo Sr. Pedro poderia chegar em 98%.
Muitos que são contrários ao comércio e uso de agrotóxicos – particularmente do glifosato – chegam a afirmar que “não comemos soja”. E isso é um erro, pois a soja está entranhada em nossa cadeia produtiva, primeiro gerando renda e empregos, servindo para produção de óleo vegetal, rações e outros produtos. Segundo que as rações são a base da produção de proteína animal, e, portanto, o impacto na soja teria impacto na carne suína, bovina, frangos, ovos, no leite, no óleo, e em vários produtos de nossa indústria alimentícia.
Se a proibição se mantivesse, até teríamos substituições de tecnologia, mas só para safras futuras. A próxima safra seria fortemente frustrada. Com isso teríamos primeiro menos dinheiro circulando no Brasil, o que faria o desemprego aumentar drasticamente. Segundo a cotação da soja no mercado internacional aumentaria, e com isso, todos os produtos dela dependentes também teriam elevação de preços. E se os consumidores não conseguirem bancar os aumentos, teríamos mais desemprego no meio rural.
E estamos falando apenas do impacto no cultivo de soja. Como bem lembrou o Sr. Pedro Krupa, existem outros grãos que também estão dependentes do glifosato, talvez em menor grau, mas que também sofreriam impacto. Exemplos são milho e feijão, essenciais na mesa do brasileiro.
E é por tudo isso que o uso do glifosato e outros agrotóxicos deveriam discutidos mais por técnicos que por políticos, artistas e palpiteiros.