“Cerco da Lapa”, o episódio histórico que marcou a Lapa

No dia 09 de fevereiro comemora-se os 126 anos do Cerco da Lapa, episódio histórico que marcou nossa querida cidade da Lapa.

Nesse ano de 2020, completa 126 anos do Cerco da Lapa, episódio histórico que dizimou vários homens, mulheres e crianças no município, durante a Revolução Federalista.  Para entender um pouco mais da história, o porquê que aconteceu tudo isso, devemos voltar um pouco mais no tempo, começar desde o princípio. Vamos relatar os fatos, desde a Revolução Federalista. Quem eram os Federalistas e Republicanos? Fatos históricos sobre o Cerco da Lapa e o após a Revolução Federalista. Então senta, leia com atenção, que lá vem História!

REVOLUÇÃO FEDERALISTA

A Revolução Federalista, aconteceu entre os anos de 1893 e 1895. Ocorreu durante o governo de Floriano Peixoto, no período denominado “República da Espada”, aonde foi uma guerra civil gaúcha disputada entre os federalistas (maragatos) e os republicanos (pica-paus). Esse período representa uma das mais violentas e sangrentas revoltas travadas no sul do Brasil.

A revolução durou dois anos e meio, desde fevereiro de 1893, com a eclosão da revolta pelos maragatos, os quais tentaram tomar a cidade de Bagé, no Rio Grande do Sul, devido sua posição estratégica, espalhando-se por outros estados da região sul: Santa Catarina e Paraná.

A revolução somente terminou em agosto de 1895, no governo de Prudente de Moraes, que ao contrário de Floriano, ficou conhecido como o “Pacificador” e assinou um tratado de paz com os maragatos, em 23 de agosto de 1895, na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, estabelecendo a derrota definitiva dos maragatos pelos pica-paus bem como a anistia dos envolvidos.

FEDERALISTAS E REPUBLICANOS

Os Federalistas, também chamados de “Maragatos” (termo que no Uruguai indica os espanhóis oriundos da localidade de Maragataria, na província de Léon, Espanha), faziam parte do Partido Federalista do Rio Grande do Sul, fundado em 1892.

Eles estavam insatisfeitos com as ações do governo (após a renúncia de Deodoro), eram contrários ao sistema de governo presidencialista, portanto, almejavam a deposição do republicano Júlio de Castilho (eleito Presidente do Estado), e ansiavam por um governo parlamentarista, sobretudo, para a descentralização do poder; foram liderados por Gaspar da Silveira Martins (1835-1901) e Gumercindo Saraiva (1852-1894).

Por sua vez, os Republicanos ou “Pica-Paus” (denominação referente à vestimenta: roupa azul e quepe vermelho), Legalistas, Chimangos (nome de uma ave do Rio Grande do Sul) ou Castilhistas (nome referente ao líder do movimento: Castilhos) estavam ao lado de Floriano e acreditavam no nacionalismo, na consolidação do sistema republicano (desde a Proclamação da República em 1889), na centralização do poder e na modernização do país; faziam parte do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), seu principal líder foi o jornalista e político positivista, na época Presidente do Estado: Júlio de Castilhos (1860-1903).

CERCO DA LAPA

Um dos episódios mais sangrentos e trágicos da Revolução Federalista ficou conhecido como o “Cerco da Lapa”. Durante os 26 dias de luta armada a cidade da Lapa foi quase destruída. Porém, a coragem e a determinação em não se render mostrada pelos lapeanos não era privilégio dos militares. Em 15 de janeiro de 1894, o general Carneiro conformado com a situação convidou todas as famílias a retirarem-se da cidade num trem que mantinha preparado. As senhoras da cidade, impossibilitadas de levar seus maridos, irmãos, noivos e filhos, resolveram não ir e correr os mesmos riscos durante o período de luta. Na época a Lapa tinha aproximadamente 200 casas dispostas ao longo de apenas 4 ou 5 ruas. Os combatentes formaram uma legião de 639 homens, entre militares e civis. Número pequeno, todavia, bravo, para combater cerca de três mil federalistas.

Depois de muitas batalhas onde os federalistas tomaram vários pontos da cidade, como o próprio cemitério, as vítimas da guerra estavam sendo colocadas numa vala comum, embaixo do assoalho da igreja. Antes de chegar à Lapa, os revoltosos já haviam tomado Paranaguá, Tijucas do Sul e Curitiba.

A Lapa caiu apenas com a morte do general Carneiro. Na noite de 6 para 7 de fevereiro, Carneiro tentou socorrer o tenente Henrique dos Santos, atingido no peito, porém também foi atingido por uma bala que atravessou o estômago e o fígado. O general foi socorrido, resistiu mais um pouco, mas às 18h30 de 9 de fevereiro de 1894 veio a falecer. Em reunião com oficiais e considerando a impossibilidade de resistência, a precária situação da tropa e da população da cidade, já sem alimentos, aceitaram discutir com os federalistas as cláusulas da capitulação. Na mesma tarde, a força legal foi desarmada e a praça ocupada pelos maragatos.

Mesmo vencida, a Lapa causou discórdia no movimento, que não seguiu para São Paulo como era previsto. Enquanto a Lapa resistiu, deu tempo ao Marechal Floriano de organizar forças para defender São Paulo, daí a desistência dos maragatos.

Os 26 dias de encarniçada luta no Cerco da Lapa, seguidos de uma breve e também trágica tomada de Curitiba, marcaram o epílogo dessa jornada. Sem a opção de levar a sua revolução até as portas do palácio de Floriano Peixoto no Rio de Janeiro, Gumercindo Saraiva retornou definitivamente ao Rio Grande do Sul, onde foi morto e teve seu cadáver profanado três vezes. Na última delas, reza a lenda, sua cabeça decepada e embrulhada em um pano teria sido levada como troféu de guerra ao governador Júlio de Castilhos, em Porto Alegre. O destino colocou, portanto, a pequena e charmosa cidade da Lapa numa encruzilhada da história. A sorte da então jovem República brasileira se decidiu aqui.

O Cerco da Lapa ainda vive no imaginário popular da cidade e região, como um dos mais sangrentos conflitos vividos em território nacional. A violência e barbárie ocorridas abrilhantam ainda mais os nomes dos guerreiros que lutaram para defender as suas ideias, seja ela de qual lado for. É um episódio que nos faz refletir e aprender acerca da história do Brasil.