A sociedade do medo

Nas últimas semanas a Lapa viu acontecer várias ações de vandalismo. Além disso, a sensação de que as drogas estão, cada dia mais, tomando conta da realidade das escolas, das ruas, dos bairros. A sensação de insegurança é percebida pelo aumento na utilização de cercas elétricas, grossos arames no alto dos muros, utilização de alarmes e todos os aparatos possível de segurança. É preciso tudo isso? Bom, o seguro morreu de velho, dizem alguns.

Mas, até que ponto a sociedade deve se desesperar e deixar de ocupar o espaço público, se isolar em sua residência e não interagir com os demais, com medo de que o bandido more ao lado?

Pensando sobre a violência na escola, nas ruas, no trânsito, nas relações sociais, nos homicídios de fins de semana, lembrei-me de Tempos Líquidos, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que aborda a insegurança vivida nas grandes metrópoles globalizadas. Para ele, contemporâneo do Holocausto, as cidades são verdadeiros campos de batalha. Suas análises apontam para o choque entre “poderes globais” e “identidades locais” desintegrando, progressivamente, a solidariedade social. O resultado desse encontro produz insegurança e violência nas relações sociais em todas as esferas.

As “sociedades abertas”, uma vez conectadas ao fenômeno planetário que ele chama de “globalização negativa”, desintegram seus referenciais sólidos apoiando-se em verdadeiras placas de gelo, que podem romper ou desaparecer a qualquer momento. Para Bauman nunca houve alguém que conseguisse equilibrar segurança e liberdade e hoje, contemplamos “uma população horrorizada por sua própria vulnerabilidade”.

Na década de 20, século passado, as pessoas queriam menos segurança e mais liberdade. Hoje presenciamos o caminho inverso. As pessoas vivem inseguras e desejam segurança; se isolam cada vez mais em busca de liberdade e privacidade; sentem-se inseguras nas ruas, nas relações sociais e mesmo dentro de suas fortalezas.

O medo do terrorismo planetário nos enclausura. As multinacionais superfaturam com tecnologias e produtos de proteção individual. Surge um exército de empresas de segurança privada. Um claro ataque liberal ao Estado Social. Descrença popular, medo generalizado, histeria social, pânico nas escolas, são alguns dos fenômenos intensificados no cotidiano da população através dos noticiários.

Nas palavras de Alexander Hamilton, as nações democráticas “para serem mais seguras, acabam se dispondo a correr o risco de serem menos livres”. Para David L. Altheide a questão não está no medo do perigo, mas no desdobramento do que esse medo pode se tornar.

Quando as pessoas não interagem socialmente e se escondem atrás de muros, carros blindados, contratando segurança particular, elas reafirmam o sentimento de desordem, de insegurança e caos. Pseudo-análises cotidianamente veiculadas com uma rapidez incrível disseminam o pânico e a incerteza. As pessoas são impedidas de sonhar e a sociedade perde o sono.

Cuidado com o discurso do medo. Seja de quem for. O mundo está corroído por todo tipo de medos, habilmente alimentados por políticos que querem assumir o papel de salvadores.

Mais do que achar uma “solução” para o equilíbrio entre segurança e liberdade é necessário pensarmos nossas relações de mercado e de consumo. O que realmente é importante para nós?

O que realmente deve ser feito? Somente mais segurança por parte do Estado? Ou mais participação da sociedade para que o fator de geração da violência seja diminuído?

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“Creio que a sociedade é filha do medo, não da fome. Ou melhor, eu diria que o primeiro efeito da fome deve ter sido mais dispersar os homens do que agrupá-los, todos indo buscar o seu alimento justamente nas regiões menos exploradas. Só que, enquanto o desejo os dispersava, o medo os agrupava. Pela manhã, sentiam fome e tornavam-se anarquistas. Mas, à noite, sentiam o cansaço e o medo e amavam as leis”. (Alain, in ‘Considerações II’)

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