Quebrando o discurso do preconceito de raça, Jair se apresenta na Lapa, trazendo a alegria de suas músicas e encerrando a festa ao Santo
No dia de São Benedito, dia 26 de dezembro, a Lapa recebeu o cantor Jair Rodrigues para fazer o show de encerramento da Festa ao Santo, que aconteceu no Santuário desde o dia 16.
O cantor, que tem extenso currículo e experiência na música, ganhou o Troféu Raça Negra 2011, no dia 13 de novembro, na Sala São Paulo. Trata-se do prestigiado “Oscar” da comunidade negra. Na nona edição, o evento homenageou o ícone negro da música brasileira e fez questão de ressaltar o Ano Internacional dos Afrodescendentes, decretado pela Organização das Nações Unidas – ONU.
E ele veio à Lapa justamente no dia de Natal dos escravos, como conta a história da relação dos afrodescendentes com o Santo no município. Mas, apesar de sua cor da pele e de ser considerado um ícone negro da música brasileira, Jair se diz “marrom provocante”, já que não vê diferença de cor nas pessoas.
Quando questionado sobre o negro no Brasil, Jair diz que é muito difícil falar sobre o assunto, pois não vê as pessoas pela cor. “Eu nunca tive problema de racismo, de cor. Eu não sei a minha cor. Eu vejo todo mundo de todas as cores, um coração só”, afirma ele.
Jair Rodrigues também falou sobre fé. Em início de carreira, costumava cantar a música Balada do homem sem Deus, de Agostinho dos Santos. Mas seus empresários na época, Venâncio e Corumba, diziam que balada do homem sem Deus não existe. Então fizeram a música Balada do Homem com Deus, de Venâncio e José Ramos, que foi uma das primeiras músicas que Jair gravou. “Eles ficavam indignados por alguém ter feito uma música falando sobre a falta de Deus na vida do homem”, falou Jair.
Entre as grandes canções de Jair, há a música Deixa isso pra lá, que pode ser considerada a precursora do rap, por conta de seu refrão falado. Jair conta que é preciso que os jovens fiquem atentos para isso, que o rap nasceu com este samba. “Não pelo ritmo, mas pela forma de se versar sobre o ritmo. O rap nasceu aqui. Está na hora da moçada se tocar e começar a falar sobre o que surge aqui, divulgar isso”, reforçou Jair.
Jair Rodrigues animou o público que prestigiou o show. Com uma simplicidade ímpar, recepcionou fãs no camarim e fechou em grande estilo a festa a São Benedito.
Não poderia ter sido nome melhor para tal data. Um afrodescendente que não reforça o preconceito, que mostra que todos são iguais, independente de seu tom de pele ou classe social. O “marrom provocante” comprova que, mais do que aparências, o que importa é o esforço de cada um, sua capacidade e o que tem dentro de si. “O que vale é o que está no coração”, diz ele.

