A tradição lapeana do “café com mistura” foi tema de palestra realizada pelo SENAC/PR no mês de julho. O evento ocorreu no SESC Paço da Liberdade e fez parte da programação do 1º Festival do Centro Histórico de Curitiba.
A instrutora de gastronomia do SENAC, Giana Cristina Coró, apresentou a origem do café com mistura e comentou que ele se confunde à história da própria Lapa, eleita em 2011 a Capital Brasileira da Cltura pela Bureau Internacional, tendo a frente da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo à época, Valeria Borges da Silveira.
Segundo Giana, os visitantes da Casa Lacerda, um dos pontos turísticos da cidade, têm a sensação de que o café da tarde será servido a qualquer momento. A mesa posta, a porcelana simples e os demais utensílios da época recriam um hábito de praticamente todas as famílias lapeanas do século XIX, mas que permanece até hoje. Por volta das 15h, era costume passar um cafezinho fresco, que acompanhando por leite, pão fresco, manteiga e outras delícias simples como broas, bolo de fubá, o bolo pipoca, petequinhas e biscoitos, atraíam as pessoas para a copa. Mais do que uma refeição para aplacar a fome do meio da tarde, o café com mistura era o momento de reunião da família.
A palestra foi inspirada no livro Café com Mistura, escrito por Maria Thereza Lacerda, neta do coronel Joaquim Lacerda. A obra mescla história, cultura e receitas, revelando antigos costumes e hábitos lapeanos por meio da culinária.
“A simplicidade é o que define o café com mistura, algo feito nas cozinhas das casas, com cara de vó”, explicou Giana. No entanto, conforme Maria Thereza relata em seu livro, o café era incrementado com a presença de visitas. Surgiam as tolhas de linho, alvas e sem pregas. Eram preparados outros quitutes, como bolos e doces. E, nos aniversários, se servia a gasosa para as crianças.
O café com mistura vem no sentindo oposto tanto da gastronomia profissional, com suas medidas exatas e pratos complexos, e também da cozinha doméstica moderna, que busca a praticidade com refeições congeladas e lanches. Por ser uma “prática sem gramática”, as receitas eram repassadas oralmente, de mãe para filha. O aprendizado vinha do “ver fazer”.
A equipe do SENAC resgatou essas receitas tradicionais lapeanas e recriou várias delícias do café com mistura. “A poética das receitas, que traziam medidas imprecisas, como um pires de leite ou um punhado de farinha, trouxe algumas dificuldades para nossa equipe, que hoje utiliza a chamada ficha técnica, com pesos e medidas muito precisos. Mas buscamos encontrar as equivalências e foi uma experiência enriquecedora”, explicou Giana.
Os participantes da palestra puderam tirar algumas dúvidas com Maria Thereza, que estava presente no encontro culinário. “O SENAC fez um trabalho muito bonito, fizeram uma excelente pesquisa gastronômica. O café com mistura era mais do que uma refeição, era uma reunião familiar”, enfatizou a escritora.
E essa tradição persiste até hoje em muitos lares lapeanos e em padarias e confeitarias da cidade, onde é possível encontrar a maioria dessas iguarias.

