Depois de acordar, ele preparava com muito gosto o seu chimarrão (com erva mate Legendária – sem dúvida) e sentava-se à mesa de sua cozinha para saborear o amargo (e doce) tradicional mate.
Uma das paixões dele era apreciar o movimento e a bagunça dos pássaros que visitavam todos os dias o jardim de sua casa. Para não perder este espetáculo da natureza, a partir de um certo momento começou a colocar quirera e alpiste próximo às árvores do seu pequeno, mas bem cuidado jardim. Até frutas eram deixadas em locais estratégicos para que os pássaros viessem o visitar todos os dias.
Nessa rotina simples e contemplativa, todos os dias ele colocava as ideias em dia e preparava o seu roteiro para o trabalho e logo mais. Nesse meio tempo, seus filhos, ainda pequenos, se achegavam a ele e ouviam histórias sobre o Sanhaço, o Pintassilgo, os Pardais, e principalmente contava uma história popular que dizia que a Corruíra foi o pássaro que escondeu os passos de Jesus em sua fuga para o deserto quando o Filho de Deus resolveu meditar durante o seu tempo, como contado na Bíblia.
Mas, a principal paixão daquele homem eram os Sabiás. Ele vibrava quando recebia a visita de tão belo e esperto pássaro em seu jardim. Ensinava seus filhos e amigos das crianças que não havia prova maior do amor de Deus para com o homem do que os pássaros livres e felizes.
Naquele tempo não existiam todos esses aparatos tecnológicos, como computadores, celulares, videogames, tablets e tudo o mais. Praticamente todos os moleques tinham o seu estilingue, montado com forquilhas cortadas de árvores das redondezas e garrotes comprados na farmácia do saudoso Seu Arthur Vidal.
Aquele homem, que tanto admirava os pássaros e a natureza, fazia questão de ensinar aos seus pequenos que o estilingue deveria ser apenas usado como brinquedo e, jamais, em hipótese alguma, contra algum animalzinho inocente, como os pássaros, principalmente.
Com essa rotina, ele ensinava os ideais de respeito e amor à vida aos seus, transmitindo sempre uma alegria nata, que contagiava a todos os que o rodeavam.
Muitos que o visitavam pela primeira vez eram convidados a apreciar o espetáculo da passarada e ouvir as histórias das disputas entre as pompas-rolas e os sabiás pela comida e frutinhas disponíveis naquele jardim tão amado.
Esse homem nos deixou há exatos quatro anos, no dia 15 de janeiro de 2010. Sua alma se libertou de seu corpo debilitado dos últimos anos de vida. Hoje ele deve estar próximo aos seus amados pássaros, passeando junto aos seus idolatrados sabiás e cuidando dos seus amados filhos e netos.
Suas histórias jamais serão esquecidas, seus contos e palavras que eram ditas com tanto carinho moram para sempre nos corações daqueles que tiveram o privilégio de conhecê-lo e conviver com ele. Aqueles que aqui continuam e tiveram essa oportunidade, levam, cada um, um pedacinho daquele amor que ele tinha pela vida, pela natureza e, principalmente, por sua família, que incluía, além de esposa e filhos, inúmeros “filhos adotivos”, como ele dizia.
Onde quer que você esteja Aramis Gorniski, saiba que o seu legado vai durar muito tempo e está sendo passado com muito amor aos seus netos e amigos que ainda caminham por este lindo mundo onde estamos.
Cara… espero te encontrar em outro plano, receber um abraço sincero e ouvir aquela frase que até hoje marca a minha vida: “Como estão as coisas, seu bostinha?”.
Aramis José Reichert Gorniski, orgulhosamente conhecido como “Aramizinho”, em primeira mão chamado assim apenas por ser mais novo que o grande Aramis Gorniski, mas hoje com a certeza de que a grandeza de Aramis Gorniski jamais será superada. (Me sinto feliz em ser chamado Aramizinho)
Lapa, 15 de janeiro de 2014.

