Revolução Federalista e o Cerco da Lapa: como compreender estes episódios?

Após 120 anos deste passado recente, ainda não há respostas definitivas para o questionamento. O que envolve hoje o Cerco da Lapa e seus heróis? No rol dos historiadores apresentados neste texto, vemos que as visões sobre o mesmo fato são diferentes, bem como seus posicionamentos e fontes utilizadas no sentido de fundamentar suas versões.

 

O episódio da Revolução Federalista entrou para os anais da história brasileira e, depois de 120 anos, ainda não temos as respostas que ajudariam a compreender melhor esse passado recente, quando um turbilhão político com situações pontuais de mando, poder e demonstração de força e crueldade, arregimentaram paixões locais ora se contrapondo ou não ao governo central exercido pelo presidente Floriano Peixoto, “O marechal de Ferro”.

Pelo mando bateram-se forças opostas no Rio Grande do Sul, “ponto nevrálgico da República” como afirmou Laurentino Gomes, quando grupos ligados a Julio de Castilhos e Silveira Martins conduziram compatriotas a uma guerra civil sem proporções, atingindo de roldão as cidades localizadas nos estados sulinos, em uma campanha encarniçada promovida por ambos os lados contendores.

Neste campo de luta, representando o poder central, estava Floriano Peixoto, sucessor do Marechal Deodoro da Fonseca que, muito doente, resolvera abandonar o governo. O novo presidente, desobedecendo toda a ordem constituída, com radicalismo e nacionalismo exacerbados, conduziu o país a momentos de grande tensão e violentos episódios no início da República, governando o país sob o tacão da força e do estado de sítio.

No Rio de Janeiro, o governo encontrara dificuldades financeiras, conflitos internos entre as autoridades republicanas, a que se somou a Marinha que, na oportunidade, aproveitando o conflito no sul, ameaçava de bombardeio a capital da República. Em projeto audacioso, Custódio de Mello provocou a revolta da Armada e tentou juntar-se às forças vindas do sul chefiadas por Gumercindo Saraiva. Navios mercantes, transformados em barcos de guerra, ao chegarem ao Porto de Paranaguá, não encontraram resistência. O general Pego Junior, comandante do Distrito Militar em Paranaguá, abandonou a cidade diante da ameaça da Marinha e transferiu a defesa para a cidade de Morretes. Em 20 de janeiro, Custódio de Mello entrou em Curitiba, que é abandonada pelo governo estadual e tropas legalistas.

 

NA RETAGUARDA, A LAPA

Com a queda de Tijucas do Sul e Curitiba já ocupada, na retaguarda federalista estava a Lapa, guarnecida pelo coronel Gomes Carneiro que, desde novembro de 1893, já estava no comando organizando a tropa fiel a Floriano Peixoto. No final de dezembro já eram avistadas as vanguardas federalistas. A 15 de janeiro de 1894, no caminho para Rio Negro, com a presença dos grupos vindos do sul, iniciam-se as hostilidades. A 17 de janeiro, as forças federalistas sitiam a cidade da Lapa, impedindo a comunicação por via férrea, estradas de rodagem e telégrafo. Os bombardeios diários minavam não apenas a resistência, mas também a população civil. A morte de Gomes Carneiro e outros oficiais em 9 de fevereiro redunda na capitulação da cidade.

As forças federalistas vencedoras no Paraná seguiram rumo a São Paulo, mas não conseguiram passar de Castro e Jaguariaíva, pois as notícias de última hora apontavam a presença maciça de forças legalistas. Diante do desentendimento entre os lideres federalistas, estes recuam para o sul em retirada.

 

O PERÍODO DE CAOS

Reorganizadas as forças florianistas em Itararé, o general Everton Quadros assume o comando em Curitiba, e inicia-se uma época de grande repressão contra os políticos maragatos, considerados monarquistas, e todos aqueles que tivessem demonstrado simpatia pela causa da tropa de ocupação da cidade. Este é o período de caos para os cidadãos, quando ocorreram a degola e os fuzilamentos, que o historiador Rocha Pombo chamou de “legalidade triunfante”. Marcou profundamente a história paranaense a morte do Barão do Serro Azul, no quilômetro 65 da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá, e de mais cinco pessoas, além de outros considerados culpados em Curitiba e Paranaguá. 

 

PARA A HISTÓRIA

Percebe-se então, no rol dos pesquisadores, o desejo de elucidar os fatos concernentes à Revolução Federalista e ao Cerco da Lapa no Paraná. Nesta busca destacam-se os escritos de Romário Martins, Ruy Wachowicz, David Carneiro, Brasil Pinheiro Machado, Gilson Queluz, Nestor Vitor, Valfrido Piloto e Rocha Pombo, dentre outros renomados pesquisadores.

Cabe, neste momento, um olhar sobre os estudos de Rocha Pombo, historiador paranaense que vivenciou os acontecimentos, assim como Leôncio Correia. Ambos  estiveram uma parte de suas vidas residindo em Curitiba. De toda a produção literária do primeiro, ressalta-se seu depoimento em “Para a História, notas sobre a Revolução Federalista”, quando antevia as discussões ainda tão atuais sobre o assunto. Segundo a crítica literária, não se trata de um estudo histórico, mas de um relato.

De que trata este trabalho? Vendo de perto os acontecimentos, soube o autor manter-se distante em seus escritos “no calor dos acontecimentos” como buscam os historiadores? Sabemos que os relatos contidos na obra não chegaram por completo a nossos tempos, como avaliam os pesquisadores do tema, dentre os quais Valfrido Piloto. Há noticias de que o livro manuscrito foi entregue a Leôncio Correia pelo próprio Rocha Pombo, para que viabilizasse a sua publicação no Rio de Janeiro.

No imbróglio que envolve a obra, segundo Valfrido Piloto, parte dela desapareceu; o que sabemos sobre os acontecimentos vistos por Rocha Pombo, estão contidos apenas nas duas partes finais escritas, faltando a primeira, ainda com ressalvas de versões imparciais. Teria ocorrido apropriação indébita do restante, e o mais grave, partes censuradas (cortadas) talvez pelos personagens retratados no dossiê de Rocha Pombo, portanto, aos pósteros restou  uma obra mutilada. 

Como escritor, Rocha Pombo não era bem visto por algumas autoridades, em função da objetividade de seus escritos, nem em alguns círculos da sociedade. Durante muitos anos sofreu o ostracismo da comunidade, das autoridades do Estado, e não obteve o apoio necessário para a divulgação de suas obras. 

Mas a quem interessa a obra de Rocha Pombo na análise que este efetuou sobre a Revolução Federalista? Como testemunha ocular, acompanhou os trágicos acontecimentos. Mas, segundo o próprio autor, o distanciamento dos acontecimentos seria algo providencial para não retratar o horror da “legalidade triunfante”. Foi amigo do Barão do Serro Azul e não teve tempo ou não pôde recuperar outros dados. Homem de saúde frágil diante de uma imprensa que não era livre, concluiu sem livro somente em 1898.

Segundo Valfrido Piloto, que pertenceu ao Instituto  Histórico e Geográfico do Paraná, há escassez de estudos mais aprofundados sobre a Revolução Federalista; passados mais de 70 anos desta declaração, estamos ainda na contra corrente em busca de novas revelações sobre as ocorrências da revolução no Paraná em 1894 e o Cerco da Lapa, cujo momento não está esclarecido. Neste aspecto, estudos mais profundos da obra de Rocha Pombo poderiam mostrar outras evidências.   

 

HEROIS DA LAPA

Mas, o que envolve hoje o Cerco da Lapa e seus heróis? No rol dos historiadores apresentados neste texto, vemos que as visões sobre o mesmo fato são diferentes, bem como seus posicionamentos e fontes utilizadas no sentido de fundamentar suas versões.

Como se formou o arquétipo “Heróis da Lapa”, em que momento da nossa história? Segundo as pesquisas, o reforço veio dos próprios analistas da Revolução Federalista ao enaltecerem os personagens das forças legais na defesa da cidade. Leva-se em conta também o imaginário político das autoridades locais em diversas fases da história da cidade no construto identitário do seu povo. Em 1994, por ocasião do centenário da Revolução, a cartilha histórica encomendada a Iara Scandelari Milczewiski veio reforçar os laços de identidade entre a população, os heróis e a Revolução Federalista.

Foi oportuno para a reflexão neste artigo o suplemento de The New York Times, de 3 de fevereiro de 2014, mencionado pela Gazeta do Povo sob o titulo “Guerras sem fim”. A reportagem tenta mostrar a necessidade do culto ao herói como uma tendência de mitificar o mundo a sua volta.

Recentemente ocorreu no Japão que o soldado Hiroo Onada foi encontrado nas selvas Filipinas em 1979. Repatriado, relutou em deixar sua missão; para este homem, a 2ª Guerra Mundial não terminara. Foi homenageado como herói no Japão. Algo parecido ocorreu na Itália, quando duas cidades reivindicaram para si os maiores sofrimentos no desembarque dos aliados em Anzio  e Nettuno em 1943, ao passo que a historiografia e os fatos relatam somente a favor de Anzio.

Nos E.U.A, a guerra civil entre norte e sul, terminada em 1865, vê na monumentalística a ser erigida nos campos de guerra o choque de interesses entre Filhos dos Veteranos da União e Filhos dos Veteranos Confederados, a fim de chamar para si as honras das batalhas, na corrida aos monumentos onde estes já estão presentes. Esperamos que a Lapa consiga passar ao largo desta cisão que um dia marcou tanto a cidade, vencidos os argumentos frágeis, podemos refletir: nesta história não há vencidos nem vencedores.

 

Carmen Lúcia Rigoni é professora, Doutora em História Cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), pós-doc. FGV-RJ-2013 e membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTBR) e Instituto Histórico e Geográfico do Paraná (IHGPR) – Especial para A Tribuna Regional, em 4 de fevereiro de 2014.

 

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