Para quem está acompanhando esta coluna – tanto aqui neste pequeno grande quanto no facebook (pagina associada ao meu perfil) – sabe que já falei sobre comércio, indústria, agricultura e turismo na Lapa. Em todas estas atividades pouca coisa de efetivo podemos esperar de nossa prefeitura, a não ser, quando muito, que a prefeitura cumpra sua obrigação. Mas faltou falar de algo que pode ser muito bem aplicado
Quando morava em Teresina descobri uma loja de sucos naturais num local super escondido da cidade. Vendiam polpa concentrada de cerca de 10 frutas, a preços muito competitivos (
O cidadão era um apaixonado por siriguela, uma frutinha local, que o povo lá come como nós comemos araçá aqui. Adquiriu um sítio no interior de Teresina, e como adorava a fruta, encheu a propriedade com elas. Depois de alguns anos elas começaram a produzir – muito mais do que ele vencia comer. Coincidentemente, também foi um período de “aperto” financeiro que ele teve.
Tentou todas as formas de ganhar dinheiro para sair do apuro, e não conseguia. Daí um amigo, em um boteco (olha só onde a idéia surgiu), sugeriu que fizesse e vendesse polpa de siriguela. Ele experimentou, e deu certo. Começou a vender, saiu do apuro (apesar de não ficar rico), e quando soube que tinha vizinho levando o produto dele para revender em outros estados, decidiu se profissionalizar.
Criou então uma cozinha industrial, e começou a testar a produção de polpa de outras frutas – maracujá, acerola, cajá, caju, goiaba, tamarindo… e assim por diante. Quando o primeiro restaurante fechou contrato de fornecimento com ele, decidiu criar empresa e procurar algum ponto na cidade para venda.
Quando eu o conheci, cerca de 8 anos depois dele ter feito o primeiro suco, ele fornecia para algumas cozinhas industriais e restaurantes, e vendia também no varejo. Eu pessoalmente trouxe os sucos dele até para a Lapa, para minha família experimentar.
Nisto eu vi o poder da agroindústria. Uma fábrica de sucos passou a comprar boa parte da produção de frutas de toda a região, transformando e agregando valor ao produto ali mesmo. Não só isso: incrementou toda uma rede de prestação de serviços que já existia, e ainda criou um produto para ser comercializado fora do município.
Parece pouco? Pequenos agricultores tiveram novas opções de produção e geração de renda, alguns empregos diretos foram criados na agroindústria, as empresas de alimentação deixaram de comprar um produto de outras regiões e com isso mantiveram o dinheiro circulando mais tempo no próprio município, e finalmente, se a cidade tivesse algum apelo turístico, teria um excelente produto a ser vendido para turistas.
Na Lapa temos uma infinidade de pequenas propriedades rurais que poderiam iniciar trabalhos de agroindústria. O suco foi exemplo… e continuando no exemplo, porque não produzir suco de araçá e guavirova, duas frutinhas tão comuns por aqui?
Eu penso no potencial da Lapa para ter uma variedade enorme de produtos, e as vezes o que percebo é que o que falta para as pessoas são idéias novas (a sugestão do boteco), trazer para cá possibilidades de produção mesmo. Nisto a prefeitura poderia ajudar, enviando uma pessoa (apenas uma ou duas, não precisa mandar comitiva de 300) para feiras e convenções de agroindústrias para conhecer, fotografar e catalogar os produtos que existem.
Essa pessoa organizaria um “álbum” com suas fotos, e com a ajuda da EMATER, Sindicato Rural e do SENAR poderiam ser realizados cursos de treinamento para a produção destes produtos. Sei que isso já até é feito, mais talvez não na escala que deveríamos.
Aos poucos teríamos mais produtores rurais industrializando sua produção e colocando-a disponível no comércio da cidade, aumentando a integração das duas atividades. Os poucos turistas que temos hoje aos poucos conheceriam, apreciariam e divulgariam esta produção, trazendo novas pessoas e criando novos atrativos para a Lapa.
O mais interessante disto tudo é que temos uma Prefeita que veio da EMATER e labutou muitos anos pela agricultura familiar – ou seja, entende muito bem do que estou falando – então em teoria, temos não só a faca e o queijo nas mãos, temos ainda a fome… Esse é o meu Ponto de Vista.
Dartagnan Gorniski é cidadão lapeano e proprietário da Flora Monte Claro. De vez em quando aceita ser o “palpiteiro de plantão”.

