Aproveitando a ocasião de não estar mais precisando ler apenas textos históricos para trabalhar, me voltei aos livros de literatura e há alguns dias comecei a ler um livrinho bastante interessante, cujo título é “Migalhas de Olavo Bilac”, que traz frases e pensamentos do grande poeta e escritor.
Na página 34 tem um pensamento que me tocou profundamente em relação à questão da arte e cultura na Lapa. O texto diz o seguinte: “Tratar o progresso artístico antes do progresso material é qualquer coisa como usar perfume no lenço e não no banho… é qualquer coisa como ensopar o cabelo de óleo antes de o ter ensaboado!”
Não uso lenço perfumado nem óleo nos poucos cabelos que me restaram, mas fiquei a refletir sobre o comentário e vi muito sentido neste pensamento. Talvez se a Lapa vivesse a pujança de seus áureos tempos, provavelmente todas as palavras usadas para defender a causa da bandeira que levantei seriam desnecessárias, pois estaríamos vivendo uma grande efervescência cultural. A mesma efervescência que a cidade vivia na época de pujança.
Esta reflexão me causou desânimo e me deu a sensação de estar tentando cultivar no asfalto quando defendo o desenvolvimento artístico e cultural da cidade. De fato, a arte vem para suprir os desejos da alma e a alma só poderá ser suprida se o corpo for suprido primeiro. É difícil ir atrás de diversão quando questões de ordem material não estão devidamente resolvidas.
O homem precisou evoluir para se tornar um produtor e apreciador de arte e a arte ajudou o homem em sua evolução. Mas, para evoluir, foi preciso primeiro aprender a sobreviver. Portanto, mesmo que se viva uma vida árida, comer, se vestir, ter saúde, se abrigar, é mais importante do que ouvir uma boa música, apreciar uma bela pintura ou assistir a um bom filme ou a uma peça de teatro. É no progresso material (que deixa o corpo em paz e a alma receptiva) que a arte e a cultura prospera.
Atento a tudo isto, o palpiteiro de plantão aqui teve vontade de abandonar o posto e se recolher para cuidar da sua vida e ficar quieto até que, quem sabe, fosse descoberta uma mina de ouro ou petróleo nas terras da Lapa.
Mas, quem vive de arte não pode se recolher nem se acomodar. Tampouco ficar esperando por um milagre. E é neste momento de tempo fechado que chega o cobertor na medida do frio. O alento veio na semana passada, quando conheci uma parte do trabalho que meu amigo, o professor de música Luiz Nogueira, o Ganso, vem desenvolvendo na Escola de Música. Não tivemos tempo de conversamos mais detalhadamente sobre seu trabalho ali, mas foi possível ver que muita coisa foi feita e, se depender dele, continuará sendo feita. O grande alento vem também do fato de a Escola de Música ser uma entidade sob a responsabilidade da Prefeitura Municipal.
O Ganso é um extraordinário e competente músico. Já tive a oportunidade de assistir a uma apresentação de seu trabalho com jovens alunos tocando músicas tradicionais.
Então, recuperado o meu vigor palpiteiro, aí vai mais uma sugestão: que se faça um festival de músicas tradicionais, com o nosso mestre na coordenação. O que acham? (Se ele concordar, não há motivos para não o fazer).
Tomara que esta administração continue valorizando estes e outros talentos da cidade, pois enquanto o petróleo ou o ouro não são descobertos nas terras da Lapa, estas pepitas, uma por uma, poderão fazer a riqueza da cidade.
ACESSO LIVRE AO TURISTA
Impressionante como a Lapa consegue atrair turistas. Neste carnaval a cidade fervilhou de gente vinda de fora. Fico imaginando como seria bom para a economia da cidade se o acesso a ela fosse livre e se os 20 reais deixados na praça de pedágio viessem para o município. Quantos turistas a cidade recebe anualmente? Não sei, mas creio que não seja um número muito baixo. Seja qual for este número, multiplique-o por 20 e teremos o total do valor em reais que deixa de circular na cidade.
Além do prejuízo econômico, convidar o turista para vir aqui, mas lhe cobrar 20 reais, é como convidar alguém a ai ir à sua casa e obrigá-lo a pular a janela para entrar.

