
Se nada for feito, podemos nos tornar a nação mais obesa do mundo.
Em 15 anos devemos ser o país com maior prevalência de obesidade.
O endocrinologista carioca Walmir Coutinho, 55 anos, acaba de assumir a presidência da Federação Mundial de Obesidade, instituição que congrega 30 mil especialistas, de 53 países, empenhados no combate à obesidade, doença tratada como epidemia pela comunidade científica. Ele fica no cargo até 2016. Na semana passada, Coutinho dedicou atenção à análise de dois novos dados divulgados a respeito da evolução e da consequência da obesidade no Brasil. Na segunda-feira 28, uma pesquisa feita pelo Estadão Dados com base em informações do Datasus (sistema de registro de informações oriundas do Sistema Único de Saúde, o SUS) revelou que o número de mortes em razão do excesso de peso triplicou no País entre 2001 e 2011. Na quarta-feira 30, o Ministério da Saúde apresentou os resultados de um levantamento mostrando que, pela primeira vez em oito anos, o percentual de excesso de peso e de obesidade no País se manteve estável. De acordo com o governo, 50,8% dos brasileiros estão acima do peso, sendo 17,5% deles obesos.
Para Coutinho, os dados dão uma dimensão do problema. O primeiro, sobre a mortalidade, está inclusive subdimensionado. E o segundo, embora positivo, esconde algo sério: o crescimento da epidemia entre os mais pobres. Por isso, na opinião do endocrinologista, o desafio contra a obesidade é tão grande que exige o envolvimento de governos e sociedade. Ele defende a criação de impostos sobre as comidas gordurosas e que o dinheiro seja usado para subsidiar os alimentos saudáveis, iniciativa adotada recentemente no México.
Comentário endocrinologista Coutinho:
“Ninguém morre de obesidade. Morre-se porque a obesidade levou a diabetes, ao infarto, ao acidente vascular cerebral, etc. Ela está associada inclusive a doenças como o câncer de mama. O México acabou de ultrapassar os EUA em prevalência. Nos EUA e na Europa começa a haver estabilização. O maior desafio é que, quando você olha para países como Brasil, México, Peru e Chile, vê que a população que mais engorda é a de renda mais baixa, porque está mais desprotegida, sem muito acesso aos alimentos saudáveis. A pesquisa tem um lado bom porque vem acompanhada de indicadores de melhora de comportamento do brasileiro, como aumento de consumo de alimentos saudáveis e de atividades físicas.
Se há o entendimento de que a obesidade é um problema de saúde, por que o SUS dá assistência somente quando o indivíduo está gravíssimo e precisa de cirurgia? É preciso que se dê acesso aos medicamentos também. Acho que estamos no caminho para que o Brasil seja o recordista. Poucas ações efetivas estão sendo tomadas. Se continuarmos nesse ritmo e nada for feito, podemos nos tornar a nação mais obesa do mundo. Em 15 anos devemos ser o país com maior prevalência de obesidade.
Dietas como do carboidrato ou da proteína não funciona. E fórmulas mirabolantes para emagrecer muitas vezes contêm substâncias perigosas, colocando mais em risco a saúde da pessoa do que a própria obesidade. Além disso, esse tipo de estratégia leva o indivíduo a ganhar cada vez mais peso. Quem emagrece de forma errada vai ter mais tendência a engordar depois que terminar o regime. O emagrecimento rápido sem exercícios físicos leva à perda de músculos também. E, perdendo músculos, o indivíduo terá diminuição do metabolismo basal. Consequentemente, terá uma tendência maior a engordar. É o efeito rebote ou ioiô. Podemos comparar com o desafio enfrentado hoje para controlar o aquecimento global. O problema chegou a um ponto tal que só será possível resolvê-lo com o envolvimento da sociedade como um todo, incluindo aí os governos de cada país e a comunidade científica.
Fonte: Revista ISTOÉ
