Setenta pessoas para serem atendidas durante a tarde + demora no atendimento = pacientes impacientes e registro de Termo Circunstanciado.
Falar em saúde pública no Brasil é, para muitos, sinônimo de dor de cabeça. Falta de vagas para atendimento, falta de leitos em hospitais, falta de estrutura, falta de médicos, falta de recursos… Estes são apenas alguns exemplos dos motivos de a população estar descontente com o sistema público.
Mas, infelizmente, muitos somente reconhecem a necessidade de mudanças e melhorias na saúde pública quando sentem na própria pele os problemas. Se você, leitor, ainda não passou por problemas na área, tente se colocar no lugar dos pais da seguinte história:
É sábado de tarde e você percebe que seu filho de dois anos de idade está febril e com dor de ouvido. Então, sabendo que casos de febre são indícios de que algo mais grave está ocorrendo, resolve levá-lo ao médico. No entanto, o atendimento no Posto de Saúde mais próximo de sua casa acontece somente de segunda a sexta-feira. Então, a solução é levar a criança até a Unidade de Pronto Atendimento, a UPA. Chegando ao local por volta das 13h você percebe que o lugar está lotado, com cerca de 70 pessoas aguardando atendimento. Alguns casos mais graves que de seu filho, outros, quem sabe, mais simples. Mas, de qualquer modo, outra solução não há senão esperar. Só que esta espera se arrasta pela tarde. Neste meio tempo você vê outras pessoas serem atendidas antes de seu filho. Já nervoso com a situação, com a espera e vendo seu filho com febre sem ser atendido, decide tomar uma atitude. Por volta das 17h, se dirige até a equipe médica para questionar o que está acontecendo e exigir atendimento a seu filho. Sua atitude, depois de tanta espera, com certeza não será a mais calma e pacífica e acaba sendo interpretada como ameaça pelos profissionais do local. A polícia militar é chamada para atender um caso de, em tese, desacato a funcionário público.
Momentos depois, por volta das 18h, finalmente seu filho recebe o devido atendimento médico. Em seguida, você, seu cônjuge e o médico do local são levados à Delegacia local para registrar o Termo Circunstanciado (TC). Com isso, as demais pessoas que aguardam na UPA (que já não são mais as 70 do início da história, mas ainda um número grande, talvez 20) passam a contar com atendimento de somente um médico.
Na Delegacia o TC, que seria registrado inicialmente como desacato a funcionário público, é registrado somente como perturbação do trabalho.
A atitude de um pai, já angustiado pela espera, que foi pedir informações e solicitar atendimento para seu filho, acabou fazendo com que os funcionários públicos do local, ao invés de tentar contornar a situação (através de diálogo, talvez com o auxílio de uma assistente social?), tomassem uma atitude mais drástica. O que acabou por prejudicar o atendimento, já lento, naquela tarde da UPA.
Esta história não foi inventada, ela ocorreu no sábado, 2 de agosto, na Lapa. O pai citado na história é Leandro Carlos, que estava com seu filho de dois anos, acompanhado da esposa Monalise.
O casal Leandro e Monalise entrou em contato com a redação da Tribuna no mesmo dia, logo após a polícia ser chamada à UPA. Chegando ao local, a equipe do jornal conversou com outras pessoas presentes, que aguardavam atendimento e, consequentemente, estavam sendo prejudicadas pelo fato de a polícia ter sido chamada e uma das médicas ter saído para ir à Delegacia. Uma delas era Evanilda J. V. Santos, que chegou à Unidade com seu filho de três anos às 17h, pois ele estava com quase 39ºC de febre. Às 18h30min ainda não havia sido atendido. Outra mãe presente, Miriam Terres dos Santos, chegou ao local com seu filho de 2 anos e 5 meses às 18h10, pois estava com um corte na cabeça, com pequeno sangramento. Às 18h40 ainda não havia passado pela triagem.
Superlotação na UPA – esclarecimentos
Pouco depois que a equipe da Tribuna chegou à UPA, a Pâmela, Diretora Geral de Saúde da Lapa, chegou ao local para conversar com os pacientes e explicar o que havia ocorrido naquela tarde e, também, responder aos questionamentos dos que ali aguardavam.
Segundo a Pâmela, naquela tarde, tanto a infraestrutura como a equipe da UPA estava completa. Mas, a demora no atendimento se deu por conta da necessidade de atendimento de vários casos de urgência e emergência (acidentes com traumas) que aconteceram no período. Ela explicou que todos os pacientes estavam passando pela triagem, momento em que ocorre a classificação de atendimento de acordo com o grau de risco. Ainda, segundo a Diretora, muitos casos que chegam à UPA são típicos de atendimento de Posto de Saúde, pelo médico da família.
A Diretora foi questionada sobre a quantidade de médicos atendendo na Unidade de Pronto Atendimento do final de semana, que vem apresentando-se pequena para a demanda em muitos momentos. Ela relatou a dificuldade na contratação de mais profissionais, mas afirmou que levará a sugestão adiante. Quanto à questão do atendimento nos Postos de Saúde, algumas pessoas reclamaram da falta de vagas para atendimento, pois quando chegam ao local já não há mais fichas. Outro pedido dos presentes é referente à necessidade de se disponibilizar um profissional de pediatria na UPA para que as crianças tenham atendimento adequado e não sejam prejudicadas em caso de ocorrências de casos mais graves.
QUESTIONAMENTOS
O problema que aconteceu no dia 2 de agosto na UPA da Lapa não é isolado. Em vários outros momentos chegou à redação da Tribuna reclamação quanto à demora para ser atendido na Unidade.
As reclamações mais constantes são em relação ao atendimento nos Postos de Saúde, que ocorre somente de segunda a sexta-feira, não têm profissionais especializados (como pediatras), e não possui vagas para atender toda a demanda, fazendo com que os pacientes tenham necessidade (mesmo em casos menos graves) de procurar a UPA.
Também há reclamações sobre não haver nenhuma segunda opção de atendimento à população nos finais de semana (já que os Postos estão fechados) a não ser a UPA, que também está localizada em local distante para muitos, fazendo com que tenham que desembolsar dinheiro para táxi, por exemplo.
Outro ponto relevante é a falta de uma farmácia da Prefeitura nas proximidades da UPA, para que os pacientes já possam sair do atendimento com a receita em mãos e com o remédio indicado.
DESACATO X PERTURBAÇÃO X RESPEITO
Há muitos problemas a serem resolvidos na questão da saúde pública municipal. Isso não ocorrerá em um dia ou em um mês. Mas, é preciso ao menos tentar minimizá-los.
Os profissionais de saúde já desenvolvem trabalho de qualidade, demonstrando conhecimento e competência no atendimento, atuando dentro das possibilidades de infraestrutura existentes e, muitas vezes, se esforçando para buscar meios mais adequados (não totalmente disponíveis) para atender os pacientes. Mas, há possibilidade de o poder público investir ainda mais na área para que situações como a relatada não voltem a ocorrer ou, ao menos, se tornem raras. Mais humanização, mais empatia por parte de toda a equipe que atende ao público, ouvindo e buscando fazer o melhor em seu local de trabalho. Afinal, quem trabalha no serviço público – servindo ao público, portanto – precisa estar capacitado para ouvir as pessoas e atende-las – a chamada eficiência no trabalho. Havia necessidade de chamar a polícia ao local?
Para que o desacato seja configurado é preciso ofender, humilhar, espezinhar, agredir o funcionário. A ação consiste em palavras, gritos, gestos, escritos. Exemplos de desacato são as ações de insultar ou estapear o funcionário; palavras de baixo calão; agressão física; mostrar arma com expressões de desafio; tentativas de agressão física; caçoar do funcionário; gesticulação ofensiva. Isso tudo realmente ocorreu na data dos fatos? Ou somente se estava diante de um pai, já nervoso e cansado de esperar pelo atendimento de seu filho doente?
Você, leitor, como agiria se estivesse no lugar dele? Estaria calmo, levemente irritado, nervoso? É preciso repensar, com urgência, a forma como se dá o atendimento na saúde pública. Não somente em relação à quantidade de médicos e infraestrutura, mas quanto à postura diante do cidadão justamente em momentos nos quais mais precisa de compreensão e bom atendimento.

