
A igreja que nasceu e cresceu junto com a Lapa, são 256 anos de fé e tradição.
A Lapa é uma cidade marcada pela bravura de seus heróis, pela simplicidade e hospitalidade de seu povo e pela fé inabalável que atravessa gerações. No dia 13 de junho, além do aniversário da cidade, comemora-se também o nascimento de um dos seus maiores símbolos: a Igreja Matriz de Santo Antônio. Com 256 anos de existência, a Matriz não é apenas a construção mais antiga da Lapa, mas também o berço espiritual e histórico do município.
Fundada entre os anos de 1769 e 1784, em pleno ciclo do tropeirismo e sob influência da colonização portuguesa, a igreja foi dedicada a Santo Antônio de Lisboa, frade franciscano canonizado em 1232 e padroeiro da cidade. Sua construção inicial utilizou a técnica de taipa de pilão, muito comum na época, e, posteriormente, a partir de 1880, pedras extraídas dos paredões do atual Parque do Monge passaram a compor sua estrutura.
Com planta retangular, a Matriz é composta por nave, capela mortuária e sacristia. Seu telhado em duas águas e a torre sineira lateral recoberta por telhado em quatro águas marcam a arquitetura colonial. Tombada como Patrimônio Nacional pelo IPHAN em 1938, a igreja resiste ao tempo como marco sagrado e histórico.
Curiosidades que revelam o passado
A Matriz também é testemunha de episódios marcantes da história nacional. Durante o Cerco da Lapa, entre os anos de 1893 e 1894, o templo serviu como cemitério improvisado. Os corpos do General Ernesto Gomes Carneiro, do Coronel Cândido Dulcídio Pereira e do então tenente Amintas de Barros foram sepultados provisoriamente em seu interior. Diz a tradição oral que havia um poço dentro da igreja onde os soldados mortos eram depositados, prática que cessou apenas quando o Panteon dos Heróis foi construído.
Outro fato curioso e doloroso remonta ao período da escravidão. Os senhores de engenho frequentavam as missas levando seus escravizados, que, contudo, ficavam isolados, acorrentados e segregados durante as celebrações, uma sombra de um passado que ainda ecoa em muitas reflexões atuais.
Relíquias, arte sacra e fé popular
A Igreja Matriz de Santo Antônio abriga verdadeiras relíquias religiosas. Entre elas, destaca-se um fragmento ósseo do próprio Santo Antônio, guardado como joia rara. No final dos anos 1990, a igreja também recebeu outra preciosidade: as cordas vocais do santo, relíquia de primeiro grau, segundo a tradição católica.
Dentro da Matriz, é possível contemplar imagens sacras de profundo valor histórico, como a de Nossa Senhora das Dores, trazida de Portugal no final do século XIX, e a imagem do Cristo Morto, que permanece guardada durante o ano e é revelada aos fiéis durante as celebrações da Semana Santa.
A figura do Monsenhor Henrique Osvaldo Falarz também está entrelaçada à história da paróquia. Com quase cinco décadas de dedicação à comunidade lapeana, o sacerdote se destacou pelo trabalho social e espiritual, sendo lembrado até hoje pelo povo como um verdadeiro pastor dos humildes.
Infelizmente, a comunidade sofreu um grande abalo no fim dos anos 1980, quando a estátua original de Santo Antônio, feita com técnicas dos antigos santeiros e adornada em ouro foi roubada. A peça nunca foi recuperada, e o episódio permanece como uma ferida aberta na memória dos fiéis.
Fé que atravessa os séculos
Após mais de dois séculos e meio, a Matriz segue firme, acolhendo fiéis e visitantes, e renovando diariamente a fé do povo lapeano. Santo Antônio continua sendo não só padroeiro, mas símbolo de proteção, devoção e resistência de uma cidade que aprendeu a construir sua história com fé, coragem e união.
Celebrar os 256 anos da Igreja Matriz é, acima de tudo, reconhecer que a alma da Lapa também vive entre as paredes desse templo sagrado, onde a fé moldou a história e continua guiando os passos de toda uma comunidade.


