
Primeira motorista da Viação Penha na Lapa, Íris Cristina Ritter transforma um sonho em símbolo de coragem e representatividade feminina nas estradas do Paraná. A Lapa sempre foi uma cidade de tradição e estrada. Mas, até recentemente, a cena era invariavelmente a mesma: motoristas homens comandando os ônibus que cruzam o Paraná. Isso começou a mudar quando Íris Cristina Ritter, com firmeza e serenidade no olhar, assumiu o volante de um ônibus da Viação Penha, tornando-se a primeira mulher a conduzir uma linha intermunicipal partindo da rodoviária da Lapa.A trajetória de Íris começou muito antes da Penha. “Em 2005, tirei minha primeira habilitação, nas categorias A e B. Meu pai trabalhava com van, e logo comecei a ajudá-lo. Foi ali que aprendi o valor da estrada, da responsabilidade e do cuidado com os passageiros”, conta. Aos poucos, o gosto por dirigir se transformou em vocação. Ela ampliou as categorias da CNH até chegar à E — que permite conduzir carretas — e passou a dar aulas como instrutora de trânsito. “Sempre gostei de ensinar, mas a paixão mesmo sempre foi dirigir.”Quando soube que a Viação Penha estava contratando motoristas, decidiu tentar. A empresa assumiU recentemente as linhas da Expresso Maringá, que por sua vez havia adquirido a antiga Empresa Lapeana, responsável pelo transporte intermunicipal da região até os anos 2000. “Mandei meu currículo, fiz os testes e fui muito bem recebida. Desde o início, percebi que a Penha valoriza quem tem vontade de crescer”, relembra.O início foi marcado por emoção e responsabilidade. “Meu primeiro trajeto oficial foi de Lapa até Araucária. Lembro que o coração batia forte, mas eu pensava: ‘agora é comigo’. Fiz tudo com calma, dentro do tempo certo, e quando terminei o percurso senti um orgulho enorme. Era um sonho realizado.”Íris descreve o ambiente de trabalho com admiração e gratidão. “Os motoristas mais experientes me ensinaram muita coisa. Nunca houve preconceito dentro da empresa, pelo contrário. Me mostraram os procedimentos, o cuidado com os passageiros, e me trataram como parte do grupo desde o primeiro dia.”Fora dos portões da garagem, porém, o olhar curioso de alguns passageiros ainda aparece. “Já aconteceu de eu abrir a porta da van ou do ônibus e alguém perguntar: ‘mas cadê o motorista?’. Eu sorrio e digo: ‘sou eu’. No começo eles se espantam, mas depois vem a admiração. Muitos até elogiam. A melhor resposta é mostrar segurança no que faço.”Essa confiança vem de anos de estrada e de uma herança familiar. “Meu pai e minha mãe sempre me incentivaram. Ele me mostrou o caminho certo, me ensinou os perigos e cuidados. Tudo com muito diálogo. Acho que é por isso que gosto tanto de conversar com os passageiros. A viagem fica mais leve quando há respeito e troca.”Entre as experiências mais marcantes está a descida da Serra do Mar, em um dia chuvoso. “Foi incrível. Eu já conhecia o trajeto de carro, mas no ônibus é diferente. É preciso atenção redobrada, controle, sensibilidade. É uma sensação indescritível conduzir um veículo daquele tamanho com segurança, sabendo que tantas pessoas confiam em você.”Hoje, Íris realiza trajetos como Lapa–Araucária, Curitiba–Guaratuba e, em períodos de temporada, as linhas para o litoral paranaense. “Cada viagem é única. A estrada ensina todo dia: paciência, empatia e prudência. Eu me vejo crescendo junto com cada rota.”Mais do que dirigir, ela sabe que carrega uma mensagem. “Ser a primeira mulher motorista da Penha na Lapa é motivo de muito orgulho. Meu pai sempre diz: ‘minha filha foi a primeira mulher a dirigir um ônibus aqui’. Isso me emociona. Quero que outras mulheres também acreditem que é possível.”E é essa a bandeira que ela carrega, firme, a cada curva. “Se você tem esse sonho, vá atrás. Faça o curso, tire a habilitação, aprenda, insista. Não é fácil, mas vale a pena. A estrada não é lugar de medo, é lugar de força.”Para a Viação Penha e para a Lapa, a presença de Íris representa mais que uma conquista individual. É um novo capítulo na história do transporte local — um capítulo que reafirma que o talento e a coragem não têm gênero.“Quando uma mulher pega o volante, não é só o ônibus que avança — é toda uma geração que segue junto.”

