Luiz Eduardo – O Decano do Rádio na Lapa

Comunicação 

Com meio século de microfone e histórias, Luiz Eduardo Kuss Marins é o mais antigo locutor em atividade na região — símbolo da paixão e da resistência de quem fez do rádio um modo de viver.

Em um mês em que a Rádio Legendária comemora seus 75 anos e o Brasil celebra o Dia do Radialista, no dia 7 de novembro, a Lapa presta também sua homenagem a um nome que se confunde com a própria história da radiodifusão local: Luiz Eduardo Kuss Marins, o decano do rádio regional. Há mais de cinquenta anos diante do microfone, ele é memória viva, voz marcante e testemunha de uma era em que a comunicação era feita de fios, discos e emoção.

Luiz Eduardo ingressou no rádio em 6 de janeiro de 1973, quando foi admitido na Rádio Legendária. Antes disso, já se aventurava nos alto-falantes comunitários, no tradicional “Serviço de Alto Falante Cruzeiro do Sul”, que animava festas e eventos da cidade. Foi ali, entre cabos e improvisos, que nasceu o encanto pelo som que unia as pessoas — e a vocação que jamais se calaria.

Nos anos 1970, a Lapa vivia intensamente o rádio. Luiz recorda-se do tempo em que a Legendária funcionava no Theatro São João, e das madrugadas em que era preciso “puxar linha física” — fios estendidos pela cidade para transmitir jogos e desfiles ao vivo. “Era tudo na base do improviso e da vontade”, relembra. “A gente carregava fio, subia em poste, fazia de tudo para colocar o som no ar.”

O radialista foi testemunha das grandes transformações técnicas e culturais do setor. Viu o tempo dos discos de vinil e das fitas de rolo dar lugar à era digital. “Antigamente, a gente tinha que correr pela discoteca inteira pra achar a música pedida. Hoje é só clicar. Ficou mais fácil, mas perdeu um pouco do sabor”, comenta com nostalgia. Para ele, a tecnologia trouxe agilidade, mas a magia do rádio antigo estava “na respiração de quem falava e de quem ouvia”.

Luiz Eduardo não se limitou à locução: foi operador de som, produtor, vendedor e técnico, numa época em que o rádio era, como ele diz, “pau pra toda obra”. Também exerceu mandatos públicos — foi vereador e secretário da Câmara —, experiências que reforçaram sua visão sobre o poder social da comunicação. “A rádio sempre foi uma ponte entre a comunidade e a solução dos problemas”, afirma.

Em 1998, foi um dos idealizadores do projeto que originaria a Rádio Comunitária Lapeana FM, criada oficialmente em 2008. Desde então, segue como diretor e locutor, mantendo vivo o espírito participativo e comunitário do rádio de outrora. “A rádio pequena tem que ser próxima do povo, mas sem perder a qualidade”, explica. “É ouvir o ouvinte pelo zap e atender na hora. Essa é a nova forma de proximidade.”

Além do microfone, Luiz também carrega o título de maestro e músico. Desde 1976, atua na formação de grupos e bandas locais. “A música e o rádio sempre caminharam juntos na minha vida”, diz. Foi ele quem ajudou a remontar a Banda Municipal da Lapa, nos anos 1990, ensinando jovens músicos e levando adiante o ritmo que aprendeu com o mestre Cito.

Perguntado sobre a nova geração de comunicadores, ele é generoso, mas firme: “Temos bons comunicadores, mas falta um pouco da emoção do rádio AM. Aquela entrega da voz, o improviso, o suor do estúdio. Hoje é tudo muito certo — e o rádio também precisa de alma.”

Quando fala dos tempos da Legendária, os olhos brilham. Ele se lembra da mudança de sede da emissora, feita em apenas duas horas, “carregando tudo nas costas”, e das longas transmissões nas festas do Clube da Amizade. “A gente saía de casa de madrugada e voltava quando o sol já dormia. Mas valia cada minuto. Era o rádio que unia a cidade.”

Depois de tantas décadas de trabalho, o que o motiva a continuar? Ele responde sem hesitar: “É o contato com o público. O prazer de conversar, de levar alegria e companhia. O rádio é uma cachaça — quem prova, não larga mais.” E sorri, com o ar sereno de quem sabe que fez história sem precisar dizer muito.

Para encerrar, ele escolhe uma canção que resume seu sentimento: “Rubens Colombo Lima”, de Mano Lima, uma homenagem do artista ao próprio pai. “Essa música representa o que eu vivi — respeito, gratidão e amor pela estrada que percorri.”

E recita em voz baixa o trecho que guarda no coração:

“Foi simples, foi homem bom,
deixou no campo seu nome e a saudade no chão.
O tempo passa, o vento leva,
mas o legado de quem planta voz, nunca se apaga.”

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