Retratos que o tempo desenhou: Lapa e Contenda entre o campo e o futuro

Populações que envelhecem, migram e se reinventam — o Paraná visto pelos olhos de dois municípios vizinhos e centenários.

Lapa: do império ao asfalto, a travessia de um século

Em 1890, quando o Brasil ainda engatinhava na República, a Lapa já somava cerca de 15 mil habitantes, divididos entre brancos, pretos, caboclos e mestiços — uma radiografia racial e social de um país em transição. O dado mais revelador não é o número em si, mas o mosaico que ele compõe: mais de 3 mil homens brancos solteiros, quase mil caboclos e mais de 400 pretos casados. Era uma cidade que refletia a complexidade do pós-escravidão, ainda marcada pela hierarquia racial e pelo peso do campo.

Nos anos 1950, o retrato muda de tom. A população urbana da Lapa mal passava de cinco mil pessoas, enquanto o campo abrigava mais de 26 mil. O Brasil rural ainda ditava o ritmo da vida, e a cidade era, essencialmente, uma extensão da lavoura. Homens e mulheres se dividiam quase de forma equilibrada — sinal de uma comunidade enraizada, sem grandes fluxos migratórios naquele período.

Mas a virada começou nas décadas seguintes. O censo de 1980 mostra o início da inversão de forças: o campo ainda dominava, mas já começava a esvaziar. Na Lapa, quase 27 mil pessoas viviam na zona rural, contra pouco mais de 10 mil em áreas urbanas. A juventude — majoritária nas faixas de 0 a 19 anos — concentrava-se no interior, enquanto a cidade crescia lentamente, com mais adultos jovens migrando em busca de trabalho e estudo.

O salto chega em 2022, quando a Lapa contabiliza 45 mil habitantes e uma mudança estrutural profunda: o rural, que um dia foi quase tudo, hoje abriga 17,5 mil pessoas — menos da metade da população total. O campo perdeu espaço, mas não relevância. É nele que ainda se preserva o vínculo histórico e cultural, enquanto o urbano consolidou o novo centro econômico e social.

Racialmente, a Lapa manteve o tom majoritário branco (29,5 mil pessoas), mas viu crescer a presença parda, que já representa quase 14 mil habitantes — uma transformação silenciosa que reflete tanto miscigenação quanto reconfiguração de identidade. Pretos e indígenas aparecem em menor número, mas com presença simbólica cada vez mais reconhecida em políticas e censos.

A pirâmide etária revela outro fenômeno: o envelhecimento. Em 1980, o topo da pirâmide era estreito — poucos passavam dos 70 anos. Hoje, há mais de 500 mulheres e quase 400 homens acima dos 80. O avanço da longevidade e a queda da natalidade estão transformando a Lapa em uma cidade que precisa repensar seu futuro: mais aposentadorias, menos crianças nas escolas e um mercado de trabalho que envelhece junto com seus moradores.

O que antes era êxodo rural virou, em parte, êxodo geracional. Os jovens crescem, estudam e partem — muitos rumo a Curitiba. Fica a sensação de que a Lapa se expandiu, mas perdeu vitalidade populacional no campo, trocando o som do arado pelo ronco dos caminhões e o brilho das telas.

Contenda: a cidade que cresceu devagar, mas aprendeu a equilibrar

Contenda é um retrato diferente da mesma história. Em 1960, o município somava pouco mais de 8 mil habitantes, quase todos ligados à agricultura. As décadas seguintes mantiveram esse perfil, com o censo de 1980 ainda mostrando predominância rural. Mas ali, o equilíbrio entre campo e cidade chegou mais cedo — e com menos rupturas.

A Contenda de 1980 mostrava um campo forte, com famílias numerosas e juventude rural expressiva, mas uma zona urbana já consolidada. Quatro décadas depois, em 2022, a cidade chegou a 19 mil habitantes, com 6,7 mil ainda vivendo no campo — proporção que indica resistência à urbanização desenfreada. Em um Estado onde o asfalto engoliu roças e a indústria deslocou trabalhadores, Contenda manteve um pé firme na terra.

A estrutura etária revela uma população madura, mas não envelhecida demais. A base da pirâmide ainda tem força: mais de 2 mil crianças e adolescentes entre 0 e 14 anos, sinal de renovação demográfica. Ao mesmo tempo, cresce o número de idosos — mais de 600 com mais de 70 anos —, o que exige atenção às políticas de saúde e bem-estar.

Na composição racial, o retrato é parecido com o da Lapa, mas com proporções diferentes: quase 14 mil brancos, 5 mil pardos e uma pequena presença de pretos e indígenas. A transição racial em Contenda parece mais lenta, talvez pelo isolamento rural e pelo menor fluxo migratório. Ainda assim, há sinais de mudança na autodeclaração, impulsionados pela visibilidade das pautas identitárias nas últimas décadas.

Um dado curioso é a manutenção do equilíbrio de gênero. Em praticamente todas as faixas etárias, homens e mulheres aparecem em proporções semelhantes, o que contrasta com cidades onde o êxodo feminino é maior. Isso sugere uma dinâmica social mais estável, onde o trabalho local e os laços familiares ainda seguram as novas gerações.

Entre o ontem e o amanhã

Lapa e Contenda são, em essência, espelhos de tempos diferentes. A primeira, com raízes imperiais e uma história de glórias militares, aprendeu a se reinventar na era da urbanização. A segunda, mais discreta, soube crescer sem se afastar da terra. Em ambas, os dados mostram algo além de estatísticas: mostram o ritmo humano da transformação.

Se o século XX foi o da migração do campo para a cidade, o XXI será o da busca por equilíbrio — entre o urbano e o rural, o jovem e o idoso, o passado e o futuro.
E talvez o dado mais revelador de todos seja este: por trás de cada número, há uma história de permanência. Porque, seja na Lapa dos tropeiros ou na Contenda das colheitas, o tempo pode mudar tudo — menos o pertencimento.

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