
As Aventuras de Naná, recém-lançado pela atriz, professora e escritora, apresenta às crianças a história do Cerco da Lapa e do Theatro São João por meio da ludicidade, da imaginação e do afeto pela memória local.
A história da Lapa, marcada por um dos episódios mais decisivos da consolidação da República no Brasil, acaba de ganhar uma nova forma de chegar às mãos — e à imaginação — das crianças. A atriz, professora, diretora artística e escritora Nádia Burda lançou o livro As Aventuras de Naná, ilustrado por Andrew Portella, obra que traduz o Cerco da Lapa e a importância do Theatro São João em linguagem acessível, sensível e lúdica.
A semente do livro foi plantada ainda em 2009, quando Nádia foi convidada a falar sobre o Cerco da Lapa para alunos da Escola Pedro Fávaro Cavalim. A tentativa inicial, com vídeos institucionais, durou pouco: em cerca de 30 segundos, a atenção das crianças se perdeu. Foi ali que ela entendeu que a história precisava ser contada de outro jeito. Ao transformar a sala de aula em cenário, dividir os alunos em maragatos e pica-paus e convidá-los a “fazer” a história enquanto ela narrava, a aprendizagem aconteceu. Nos desenhos produzidos depois, surgiram o general Carneiro, o governador Saraiva, canhões e cenas de batalha, prova de que o conteúdo havia sido compreendido de forma profunda e criativa.
A experiência revelou não apenas a eficácia da ludicidade, mas também uma lacuna: não havia material infantil sobre o Cerco da Lapa. Incentivada por uma pedagoga, Nádia escreveu a história, que por anos permaneceu guardada. As Aventuras de Naná nasce dessa vivência e da própria memória afetiva da autora, construída a partir da infância na Lapa, do amor da mãe, Beti Burda, pela cidade, e da influência marcante de Sérgio Leone, figura central da cultura local, que ajudou a despertar gerações para o valor do patrimônio histórico.
O desafio maior, segundo a autora, foi tratar de uma guerra sem perder a delicadeza exigida pelo público infantil. Conceitos complexos como República, consolidação política e conflito armado precisaram ser transformados em narrativa compreensível, sem esvaziar o significado histórico. O resultado é uma história que ensina sem didatizar em excesso, convidando a criança a aprender brincando — e sentindo pertencimento.
Segundo a autora, Andrew Portella não entrou no projeto por acaso. “Ele foi meu aluno aqui em casa, quando eu ainda tinha ateliê, isso há cerca de 15 ou 16 anos. Mesmo tão jovem, já chamava muita atenção pelo talento. Naquela época, eu disse a ele: ‘Andrew, eu escrevi um livro e você vai ilustrar’. Ele respondeu com a simplicidade de sempre: ‘Tá bom, professora’. O tempo passou, o livro saiu do papel, e foi ele quem deu vida às imagens. Bastou eu explicar como imaginava o universo da história e o estilo desejado. Não fiz nenhuma correção. Ele ilustrou exatamente como eu sonhei — e isso, para mim, é impressionante”.
Mais do que um livro, Nádia vê a obra como um chamado aos adultos. Em um tempo de telas constantes e conteúdos rasos, ela espera que pais e responsáveis retomem o hábito de colocar livros nas mãos das crianças, conversar sobre as histórias e estimular a curiosidade sobre a própria origem. Para a autora, o celular não educa, e o distanciamento da história local empobrece a formação das novas gerações.
O lançamento de As Aventuras de Naná também marca uma fase especialmente produtiva da escritora. Além do infantil recém-publicado, Nádia finaliza um romance, escreve outro livro para crianças com elementos sobrenaturais, trabalha na consolidação de um livro de poesias já publicado em e-book e planeja reunir seus contos em uma obra única, sempre mantendo o olhar artístico atento e inquieto.
Ao transformar um episódio histórico em brincadeira séria — daquelas que ficam na memória —, Nádia Burda reafirma que preservar a história não é apenas contar o passado, mas reinventar as formas de apresentá-lo. E, nesse caso, começar pela infância talvez seja o gesto mais revolucionário de todos.


