Da Lapa para a elite mundial da genética forense

Perita criminal formada no Paraná publica estudo pioneiro na principal revista internacional da área e propõe novos marcadores de DNA para identificação humana no Brasil

Natural de Cornélio Procópiom mas lapeana desde os dois anos de idade, Luciellen d’Avila Giacomel Kobachuk, doutora em Genoma Humano e perita criminal da Polícia Científica do Paraná, teve artigo publicado na Forensic Science International Genetics, considerada a principal revista científica internacional na área da genética forense. O estudo apresenta a validação inédita, no Brasil, de novos marcadores genéticos capazes de ampliar a precisão na identificação de pessoas por meio do DNA.

Natural da Lapa (PR), onde cursou o ensino fundamental e médio, Luciellen construiu sua base acadêmica na cidade antes de buscar formação em instituições de referência. Graduou-se em Farmácia e Bioquímica pela Universidade Federal do Paraná e desenvolveu doutorado na Universidade de São Paulo (USP), em parceria com a Polícia Científica do Paraná.

O artigo foi submetido em outubro do ano passado, passou por rigorosa revisão internacional e foi aceito em janeiro deste ano.

O que a pesquisa faz — e por que importa

Atualmente, a identificação genética utiliza marcadores considerados padrão mundial. Eles funcionam como “códigos” que diferenciam uma pessoa da outra a partir do DNA. Na maioria dos casos, esses métodos são extremamente eficientes.

O problema surge quando o material genético está degradado — por exposição ao calor, umidade ou carbonização — ou quando há mistura de DNA de mais de uma pessoa. Essa situação é comum, por exemplo, em crimes de violência sexual, nos quais podem existir vestígios da vítima e de um ou mais agressores.

Nesses cenários, os exames tradicionais podem se tornar inconclusivos.

A pesquisa de Luciellen estudou pequenas regiões do DNA chamadas microhaplotipos. De forma simplificada, são marcadores que funcionam como “impressões digitais genéticas” alternativas, com potencial de oferecer resultados mais claros justamente nas situações mais complexas.

O estudo analisou dados de sequenciamento completo do genoma de 1.165 pessoas do Estado de São Paulo — número considerado elevado em pesquisas científicas. A escolha foi estratégica: a população brasileira é altamente miscigenada, e era necessário testar se esses novos marcadores realmente funcionariam em um contexto genético diverso.

Os resultados indicaram alto poder de diferenciação entre indivíduos e bom desempenho em análises de parentesco e mistura de perfis.

Aplicação prática na segurança pública

Luciellen atua há 17 anos na genética forense, trabalhando na análise de vestígios relacionados a homicídios, estupros, identificação de cadáveres em avançado estado de decomposição e casos de pessoas desaparecidas.

A pesquisa não permanece restrita ao meio acadêmico. A Polícia Científica do Paraná já adquiriu tecnologia compatível com essa nova metodologia e iniciou os passos para implementação progressiva do sistema nos casos em que os exames tradicionais não oferecem resposta conclusiva.

O avanço pode representar maior precisão na elucidação de crimes e na identificação de vítimas e desaparecidos.

Rigor, recusa e superação

A publicação na principal revista da área não foi automática. Uma versão anterior da pesquisa havia sido recusada por critérios metodológicos mais exigentes. A partir disso, a pesquisadora ampliou os dados, refinou análises e aprofundou a metodologia.

O artigo passou por avaliação de revisores internacionais, que solicitaram ajustes técnicos antes da aprovação final.

“Foram quatro anos e meio de trabalho. As revisões foram rigorosas, mas melhoraram o estudo. Quando veio a aceitação, foi a confirmação de que a meta tinha sido alcançada”, relata.

Resultados parciais já haviam sido apresentados em congressos internacionais, ampliando o diálogo científico do Brasil com pesquisadores estrangeiros.

Brasil ainda avança na área

Enquanto países da Europa, América do Norte e Ásia já desenvolvem estudos com microhaplotipos há alguns anos, a produção na América Latina ainda é limitada. No Brasil, não havia validação desses marcadores em população urbana.

O trabalho liderado por Luciellen inaugura essa etapa e abre caminho para novos estudos em outras regiões do país.

Da formação local ao impacto global

Luciellen iniciou sua trajetória escolar na Lapa antes de ingressar no ensino superior e na carreira pericial. A consolidação profissional veio com dedicação contínua à pesquisa e à qualificação técnica.

No próximo dia 3 de março, ao celebrar mais um aniversário, soma à trajetória pessoal uma conquista científica de projeção internacional.

A publicação na principal revista da genética forense mundial não encerra um ciclo. Representa, ao contrário, um novo ponto de partida: ampliar a aplicação prática da pesquisa e fortalecer a inserção do Brasil em um campo científico estratégico para a segurança pública.

Mais do que reconhecimento acadêmico, o estudo reforça um princípio essencial: ciência aplicada, quando bem desenvolvida, transforma conhecimento em justiça.

Luciele D’Avilla Giacomel Kobachuk, perita criminal da Polícia Científica do Paraná, teve estudo pioneiro publicado na principal revista internacional da genética forense, reforçando o protagonismo brasileiro na identificação por DNA.
 

 
 
A publicação na revista Forensic Science International Genetics, onde o estudo liderado por Luciele valida, pela primeira vez no Brasil, novos marcadores de DNA aplicados à identificação humana em genética forense.
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