Entre a sirene e o silêncio

Socorristas da base do SAMU na Lapa relatam o cotidiano de decisões que separam minutos de vida e morte e explicam como funciona a regulação do atendimento na microrregião. Diretor da UPA destaca a importância da integração entre os serviços.

O caminhoneiro estava sentado à beira da rodovia, encostado na própria carreta. A fala era arrastada, os movimentos lentos demais para quem dizia ter tomado “apenas um remédio para dor de cabeça”. Ao se aproximar, o técnico de enfermagem Jaime Bueno Camargo percebeu que algo não fechava. O frasco mostrado não era só de analgésico. Havia ali também clonazepam — e em quantidade muito superior à indicada. A respiração começava a ficar comprometida.

A equipe seguia em deslocamento para outra cidade com um paciente na ambulância. Ainda assim, não havia escolha: era preciso agir. Jaime avaliou rapidamente os sinais, acionou apoio pela regulação e orientou os procedimentos necessários até que outra viatura assumisse o atendimento. “Ele podia evoluir para uma parada respiratória. Não dava para ignorar”, relata.

Ao lado do condutor-socorrista Matheus Portes Ferreira, Jaime integra a equipe da viatura “Bravo 44”, base do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) instalada na Lapa e responsável também por ocorrências em Araucária e Contenda. São dois profissionais por plantão, uma ambulância e uma responsabilidade que começa muito antes da porta do hospital.

“Se nós falharmos, o médico vai falhar lá”, resume Jaime.

A frase não é retórica. No atendimento pré-hospitalar, são eles que fazem a primeira leitura da cena: observam a dinâmica do acidente, identificam hemorragias ocultas, controlam vias aéreas, avaliam nível de consciência pela escala de Glasgow. Cada informação repassada à central de regulação médica influencia a decisão sobre hospital de destino e necessidade de suporte avançado.

O silêncio dentro da ambulância

Matheus lembra da primeira ocorrência como condutor-socorrista: um infarto. “Quando a gente recebe como código máximo, a adrenalina sobe. Você sabe que cada minuto conta”, diz. O deslocamento é rápido, mas dentro da ambulância o tempo parece ganhar outro ritmo — concentrado, técnico, silencioso.

O relaxamento só vem depois. “Quando entregamos o paciente e a equipe assume, o corpo sente. Parece que toda a tensão chega de uma vez”, descreve.

Casos envolvendo crianças são os que mais marcam. Jaime recorda o atendimento a uma criança gravemente ferida após ataque de um cão. O deslocamento até unidade de maior complexidade foi feito em código de urgência. Dentro da ambulância, era preciso manter a vítima acordada, monitorar sinais vitais e, ao mesmo tempo, sustentar emocionalmente os pais.

“A mãe começou a passar mal no trajeto. Você precisa cuidar da criança e dar segurança para quem está junto. Todo mundo olha para você esperando estabilidade”, afirma.

Quando a porta do hospital se fecha e a equipe médica assume, o sentimento é de alívio físico. “Parece que tiram um peso das costas”, resume Jaime.

Decidir sem sinal

A rotina na Lapa inclui desafios adicionais. Em áreas rurais, o sinal de celular simplesmente desaparece. Sem comunicação imediata com a central, a decisão é tomada no local. “Nesses momentos, a responsabilidade é direta. Não dá para esperar”, explica Matheus.

A avaliação precisa ser segura. Controlar uma hemorragia, estabilizar uma fratura, decidir o hospital de destino — tudo sob pressão e, muitas vezes, à noite, em locais de difícil acesso.

Ainda assim, parte da população desconhece como o sistema funciona.

Como funciona o atendimento

As chamadas feitas ao 192 são direcionadas a uma central de regulação médica, responsável por avaliar a gravidade e designar a viatura disponível. A ambulância da Lapa pode estar em Curitiba, Campo Largo ou outro município da microrregião quando uma nova ocorrência é aberta.

“O SAMU não é exclusivo da Lapa. Atendemos a microrregião”, explica Matheus.

Também há confusão entre as atribuições do SAMU, do Corpo de Bombeiros e das ambulâncias municipais. O SAMU atende tanto casos clínicos — como infartos, crises convulsivas e dores intensas — quanto traumas. O Corpo de Bombeiros atua, por exemplo, em situações que exigem desencarceramento de vítimas presas às ferragens. Ambulâncias municipais realizam, em regra, transportes eletivos ou de menor complexidade.

A integração entre os serviços é essencial para garantir resposta adequada.

A visão da UPA

Presente na entrevista, o Diretor Técnico de enfermagem UPA e SAMU, Dhouglas Stanisk Magalhães, destaca que o trabalho começa na rua, mas repercute diretamente dentro da unidade.

“O que chega até a UPA já vem com avaliação técnica, sinais vitais monitorados e informações detalhadas. Essa comunicação é fundamental para dar continuidade ao atendimento”, afirma.

Segundo ele, quando o atendimento pré-hospitalar é bem executado, a equipe da unidade ganha tempo e segurança para definir condutas.

Estrutura enxuta, qualificação constante

A base opera com uma viatura básica por plantão, composta por condutor-socorrista e técnico de enfermagem. Ao todo, são cinco condutores e seis profissionais com registro no Conselho Regional de Enfermagem (COREN), vários deles em processo de formação superior na área.

Cursos de atualização e capacitações são buscados por iniciativa própria. “A experiência conta, mas a atualização faz diferença na hora crítica”, observa Jaime.

Plantões extensos, deslocamentos intermunicipais, decisões em minutos. Quando a sirene corta o silêncio, é sinal de que alguém precisa. Quando ela se cala, o trabalho não termina — apenas dá lugar à próxima ocorrência.

Entre o ruído da urgência e o silêncio que volta depois, são profissionais como Jaime Bueno Camargo e Matheus Portes Ferreira que sustentam a linha de frente. Não há espetáculo. Há responsabilidade. E, sobretudo, a consciência de que, nos primeiros minutos, o cuidado começa ali — na rua, na estrada, antes mesmo da porta do hospital se abrir.

QUADRO EXPLICATIVO

Como acionar corretamente os serviços de emergência na Lapa

Em caso de urgência ou emergência, ligue diretamente para:

SAMU – 192

Para situações clínicas e de saúde, como:

  • Dor no peito ou suspeita de infarto
  • Falta de ar intensa
  • Suspeita de AVC (boca torta, fala enrolada, perda de força)
  • Convulsões ou perda de consciência
  • Trabalho de parto
  • Intoxicações e tentativas de suicídio

SIATE / Corpo de Bombeiros – 193

Para situações de trauma, acidentes e riscos ambientais, como:

  • Acidentes de trânsito
  • Quedas e fraturas
  • Ferimentos por arma branca ou arma de fogo
  • Queimaduras
  • Afogamentos
  • Incêndios
  • Vítimas presas em ferragens

Informação essencial

As ligações não são atendidas diretamente na Lapa.
Tanto o 192 quanto o 193 caem em uma Central de Regulação externa, responsável por avaliar a gravidade da ocorrência e encaminhar a equipe adequada.

Por isso, ao ligar, informe com clareza:

  • O que aconteceu
  • Quantas vítimas há no local
  • Estado das vítimas
  • Endereço completo e ponto de referência

Somente após essa triagem a ocorrência é repassada às equipes da região.

Estrutura disponível no município

  • 01 Ambulância Bravo – Unidade de Suporte Básico (SAMU)
  • 01 Ambulância do SIATE
  • Ambulâncias municipais Tipo A (transporte eletivo, sem risco imediato de vida)

Ambulância Tipo A (branca): quando solicitar?

Destinada exclusivamente ao transporte de pacientes estáveis, sem risco iminente de morte.

Atendem pelos fones: (41) 3547.5021 e 3547.8043

Indicada para:

  • Alta hospitalar com necessidade de maca
  • Exames e consultas agendadas
  • Transferências entre unidades com quadro estável
  • Tratamentos contínuos (hemodiálise, fisioterapia)

Não substitui o SAMU nem o SIATE em casos de emergência.

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