No portão do colégio, um guardião de histórias

Há 34 anos no Colégio São José, Antônio dos Santos Cardoso, o Bigode, acompanha gerações e prova que educar também é acolher.

As aulas mal começaram e, enquanto mochilas novas cruzam o portão do Colégio São José, em Lapa, um rosto já conhecido segue firme no mesmo posto de sempre. Antônio dos Santos Cardoso, 68 anos, há 34 dedicados à escola, é o responsável pela entrada e saída dos alunos. Mais do que controlar horários, ele construiu uma trajetória marcada por afeto, conselhos e memórias que atravessam gerações.

Antônio começou a trabalhar ainda na roça, colhendo batatinhas. Mudou-se para a cidade no início dos anos 1990 e, em 1992, iniciou sua jornada no colégio. O apelido nasceu ali mesmo, em meio a uma brincadeira durante um período de mudanças internas na escola — e nunca mais saiu. O “Bigode” virou identidade.

Desde então, viu o ensino mudar, acompanhou transições administrativas, recebeu alunos do antigo Colégio General Carneiro e testemunhou a transformação da própria educação. “Antes levavam mais a sério”, observa, ao comparar gerações. Para ele, a chegada dos celulares em sala alterou comportamentos e exigiu novas regras. Ainda assim, acredita que conversa continua sendo o melhor instrumento.

Não se aposentou, embora já pudesse. “Eu gosto do trabalho”, resume. A frase parece simples, mas carrega a dimensão de quem poderia estar em casa e escolhe permanecer. Para ele, servir é mais do que função; é propósito.

Ao longo de mais de três décadas, Bigode viu crianças tornarem-se adultos, alguns hoje professores, policiais, profissionais estabelecidos na cidade e fora dela. Reconhece ex-alunos pelo jeito de andar, pelo olhar, pelo sorriso que não mudou desde a infância. E guarda histórias que não cabem em relatórios — algumas, ele prefere manter em sigilo, protegendo alunos e famílias.

Entre os episódios mais marcantes, recorda-se de uma estudante que enfrentava sérios problemas familiares e pensava em abandonar os estudos. Foi no portão, em uma conversa simples, que ele insistiu para que ela continuasse. Anos depois, formada, voltou à escola para ministrar palestra e agradecer. “Se não fosse aquela conversa, eu teria desistido”, disse ela, segundo ele relembra com emoção contida.

Há também o cotidiano menos visível: as desculpas criativas pelos atrasos, as pequenas infrações resolvidas com diálogo, o papel de conselheiro improvisado. “Às vezes tem que ser mais psicólogo do que funcionário”, admite. Oficialmente, sua função é controlar entradas e saídas. Na prática, é o primeiro adulto que muitos alunos encontram ao chegar e o último ao sair.

No primeiro dia de aula, enquanto pais registram fotos e alunos exibem ansiedade, ele observa algo que poucos percebem: o “gás” dos novatos, a curiosidade, o brilho nos olhos de quem ainda quer descobrir cada canto da escola. Para ele, esse entusiasmo inicial é um lembrete anual de que a educação começa também na porta.

Bigode completa 68 anos em março. São 34 deles dedicados ao colégio. Tempo suficiente para que a instituição e sua história pessoal se confundam. “A gente é meio doente pelo que faz”, brinca, referindo-se ao apego ao trabalho. Mas o exagero é apenas aparente. O que há, de fato, é pertencimento.

Com o ano letivo recomeçando, o movimento no portão volta a ganhar ritmo. Novos alunos chegam, outros se despedem. Entre abraços e orientações, Bigode permanece no mesmo lugar — não por falta de opção, mas por escolha. Em tempos de rotatividade e relações superficiais, sua permanência lembra que escolas são feitas de prédios e currículos, mas também de pessoas que sustentam a memória afetiva de uma comunidade. E há funções que, embora não estejam nos livros pedagógicos, são decisivas para que cada história tenha um começo seguro — logo ali, na entrada.

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