Duas mulheres que lideram negócios e inspiram a Lapa

No Dia Internacional da Mulher, histórias de Fernanda Gonçalves e Walkiria Kowalski mostram como sensibilidade, perseverança e visão empreendedora ajudam a transformar empresas em espaços de confiança, trabalho e comunidade.

Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, a Tribuna Regional apresenta duas histórias que ajudam a compreender, na prática, como a liderança feminina se manifesta no cotidiano do empreendedorismo. À frente da loja Helena Bonfart e da presidência do Conselho da Mulher Executiva da Associação Comercial, Fernanda Gonçalves construiu sua trajetória valorizando a formação de redes de apoio entre mulheres. Já Walkiria Kowalski, proprietária da Agropecuária Rações Campeão, transformou um negócio em um espaço onde clientes, funcionários e famílias se sentem acolhidos. Duas histórias diferentes, unidas por algo em comum: a forma humana e sensível de conduzir pessoas e negócios.

Uma loja que virou ponto de encontro

Quando Walkiria Kowalski fala da sua empresa, ela não se refere apenas a números, estoque ou vendas. O que mais a orgulha é algo menos visível nas planilhas: a relação construída com quem entra na loja.

Ao longo dos anos, a Agropecuária Rações Campeão deixou de ser apenas um ponto comercial para se tornar um espaço familiar na rotina de muitos clientes. Aos sábados, por exemplo, é comum ver pais passando com os filhos depois da feira ou do mercado. As crianças observam os peixes, os passarinhos e os animais da loja, enquanto os adultos conversam ou simplesmente passam para dar um “oi”.

Essa atmosfera não surgiu por acaso. Walkiria percebeu cedo que o comércio também é feito de experiência e acolhimento.

“Aprendi que as pessoas não vêm só para comprar. Elas vêm porque gostam do ambiente, porque se sentem bem aqui”, conta.

Essa percepção moldou o modo como ela conduz o negócio. Mais do que vender produtos, o objetivo passou a ser criar um ambiente agradável, onde o cliente se sente à vontade — quase como se estivesse em casa.

É um olhar que revela uma característica frequentemente associada à liderança feminina: atenção aos detalhes e à forma como as pessoas se sentem.

As decisões difíceis que ninguém vê

Se a relação com os clientes traz satisfação, o caminho até a estabilidade do negócio exigiu momentos de grande tensão.

Walkiria recorda um período especialmente delicado, quando a empresa enfrentou dificuldades financeiras severas. Dívidas acumuladas, fornecedores pressionando e uma equipe desmotivada criaram um cenário que poderia ter levado ao encerramento das atividades.

Assumir a condução de uma empresa nessa situação exigiu mais do que conhecimento técnico.

Foi necessário renegociar dívidas, reorganizar a gestão interna, recuperar a confiança da equipe e reestruturar a relação com fornecedores. Em alguns momentos, a sensação era de estar sozinha diante de um problema grande demais.

Ainda assim, havia uma prioridade que nunca saiu do horizonte: os funcionários.

“Você pode estar apertado financeiramente, mas não pode deixar de pagar quem trabalha com você. Eles dependem daquele salário para sustentar suas famílias.”

Essa responsabilidade, segundo ela, foi uma das principais razões para continuar lutando.

Ao longo do tempo, a empresa conseguiu reorganizar as contas e recuperar estabilidade. Hoje, com quase duas décadas de atividade, a loja segue em transformação, ampliando sua atuação no setor pet e fortalecendo a relação com clientes e parceiros.

A palavra que Walkiria usa para resumir a própria trajetória é direta: determinação.

Do balcão à liderança coletiva

Se a história de Walkiria se construiu no interior de um negócio familiar, a trajetória de Fernanda Gonçalves mostra outro tipo de liderança: aquela que conecta pessoas e cria oportunidades coletivas.

Nascida e criada na Lapa, ela começou a trabalhar muito cedo. Ainda criança, acompanhava a mãe na venda de produtos como semi-joias e roupas. O contato com o comércio despertou cedo o gosto pelas vendas e pelo relacionamento com clientes.

Aos 15 anos, recebeu o convite que mudaria sua trajetória: trabalhar na loja Helena Bonfart. Ali começou uma relação profissional e afetiva que se estenderia por muitos anos.

Depois de experiências em outras áreas — incluindo uma longa trajetória como gerente no setor de cosméticos — surgiu, em 2018, a oportunidade de adquirir o negócio onde havia iniciado a carreira.

A decisão não foi simples.

Durante um período, Fernanda dividiu o tempo entre o emprego e a nova empresa. Foi apenas com a chegada da pandemia que ela decidiu dedicar-se integralmente à loja.

Hoje, a Helena Bonfart é mais do que um empreendimento: tornou-se um espaço onde ela expressa sua paixão por trabalhar com mulheres, autoestima e desenvolvimento pessoal.

Construindo redes de apoio

A aproximação com a Associação Comercial ocorreu de forma natural, inicialmente por meio de cursos e capacitações. Aos poucos, Fernanda passou a integrar a diretoria da entidade e, posteriormente, assumiu a presidência do Conselho da Mulher Executiva.

O trabalho é voluntário, mas exige dedicação constante.

Entre eventos, cursos e encontros, o objetivo é criar um ambiente onde mulheres possam trocar experiências, desenvolver habilidades e fortalecer seus negócios.

Um dos projetos mais marcantes foi um curso de formação para empreendedoras, realizado com mulheres da própria cidade.

A ideia era simples, mas poderosa: compartilhar conhecimento real, vivido no dia a dia das empresas.

“A gente quis mostrar que aqui na Lapa existem mulheres com muita experiência e que elas podem ensinar outras mulheres”, explica.

Além da capacitação, o conselho também estimula parcerias entre empresárias, algo que já começa a aparecer no comércio local.

Parcerias entre lojas de moda, estética, floriculturas e outros setores têm se tornado mais comuns, criando uma rede de colaboração que beneficia não apenas as empreendedoras, mas toda a economia da cidade.

Liderança com firmeza e sensibilidade

Apesar de trajetórias diferentes, Fernanda Gonçalves e Walkiria Kowalski demonstram uma característica comum: a liderança baseada na combinação entre firmeza e cuidado com as pessoas.

Fernanda acredita que a gestão feminina costuma ter essa dupla dimensão.

A busca por resultados existe, mas acompanhada de uma atenção maior ao capital humano das empresas. “Uma empresa pode ter produtos excelentes, mas se não tiver uma equipe engajada, nada funciona”, afirma.

Walkiria também percebe essa diferença no cotidiano da gestão. Para ela, a capacidade de observar detalhes, perceber o clima da equipe e entender as necessidades das pessoas ajuda a construir relações mais duradouras dentro da empresa.

Isso não significa ausência de firmeza. Ao longo da carreira, ela precisou lidar com situações de machismo e até agressividade no ambiente de negócios. Nessas horas, aprendeu que sensibilidade não exclui autoridade. Quando necessário, foi firme.

O peso invisível da liderança

Um ponto que aparece nas duas histórias é algo pouco discutido fora do ambiente empresarial: a solidão de quem precisa tomar decisões.

Administrar uma empresa envolve lidar simultaneamente com pessoas, finanças, legislação, mercado e expectativas.

Nem sempre há com quem dividir esse peso. “Só quem é empresário entende o quanto é complexo administrar um negócio”, observa Walkiria.

Fernanda também reconhece que empreender exige coragem para enfrentar incertezas constantes.

Mas, apesar das dificuldades, ambas acreditam que o trabalho tem um sentido que vai além do próprio negócio.

O significado do 8 de março

Para as duas empreendedoras, o Dia Internacional da Mulher não é apenas uma celebração.

Walkiria vê a data como um momento de reflexão sobre as conquistas femininas e também sobre desafios que ainda persistem, como a desigualdade e a violência contra mulheres.

Fernanda prefere enxergar o dia como uma pausa necessária em meio à rotina acelerada. Um momento para que cada mulher reconheça a própria força e tudo aquilo que consegue sustentar diariamente — família, trabalho, sonhos e responsabilidades.

Em tempos em que se discute cada vez mais o papel das mulheres na economia e na sociedade, histórias como as de Walkiria Kowalski e Fernanda Gonçalves mostram que essa transformação muitas vezes acontece de forma silenciosa, no cotidiano das empresas.

Entre negociações difíceis, balcões de loja, decisões administrativas e encontros entre empreendedoras, elas ajudam a construir algo que vai além do lucro: relações de confiança.

E, em uma cidade como a Lapa, onde comércio e comunidade caminham juntos, esse talvez seja o maior legado de uma liderança construída com sensibilidade, responsabilidade e presença diária.

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