
Yuri Moribe dedicou décadas ao cuidado de pacientes em situação de vulnerabilidade em Lapa. No Dia do Enfermeiro, colegas e familiares prestam homenagem a quem nunca soube cuidar pela metade
Tem gente que escolhe uma profissão. Tem gente que nasce para ela. Yuri Moribe, enfermeira aposentada que dedicou grande parte de sua carreira ao Hospital São Sebastião, em Lapa, parece ter sido do segundo tipo — daquelas pessoas que não conseguem desligar o cuidado quando saem do plantão, porque o cuidado, para ela, nunca foi só plantão.
Quem conviveu com Yuri dentro e fora do hospital conta mais ou menos a mesma história: uma mulher que colocava o outro sempre à frente. Em casa, fazia bolos, pé de moleque e doces para a família — ela mesma, diabética, sem poder provar nenhum. “A alegria dela era ver os outros felizes”, lembram os familiares. No trabalho, a lógica era a mesma.
À frente quando ninguém mais estava
A trajetória de Yuri no Hospital São Sebastião coincidiu com um período em que a estrutura de saúde disponível era bem diferente da de hoje. Não havia infectologista. A equipe multidisciplinar era reduzida. E o principal desafio era o tratamento da tuberculose — doença que, então como agora, atingia com força desproporcional as populações mais vulneráveis.
Foi nesse cenário que Yuri assumiu a linha de frente.
“Ela lutou muito sozinha”, recordam colegas que trabalharam ao seu lado. “Não existia uma equipe que desse esse apoio. Ela buscou, correu atrás, se atualizou. Se não fosse a Yuri, não sabemos como seria.”
Os pacientes de tuberculose que chegavam ao hospital eram, em sua maioria, pessoas em situação de rua, sem família por perto, sem rede de apoio. Yuri não se limitava à medicação. Corria atrás de familiares. Ia à secretaria. Falava com o diretor. Fazia o que fosse preciso para que cada paciente tivesse o melhor atendimento possível.
E quando faltava algo que o sistema não oferecia — afeto, celebração, presença —, ela trazia de casa.
“Quando era aniversário de algum paciente, ela fazia o bolo na casa dela e trazia com refrigerante”, contam as colegas. “Não foi só um tratamento medicamentoso. Foi um tratamento que envolveu todo o cuidado com o paciente.”
A mulher que animava o lugar por onde passava
Fora do hospital, Yuri era o tipo de pessoa cuja ausência se sente imediatamente. Animada, viajante, apaixonada por uma boa conversa, por cozinhar para quem amava, por ir ao sítio com a família. “Ela nunca parava quieta”, lembram os familiares. “Amava palestrar, estudar, aproveitar cada momento.”
Essa mesma energia ela levava para o trabalho. Colegas a descrevem como alguém que espalhava alegria pelos corredores do hospital — sempre com sorriso no rosto, sempre com uma palavra para animar a equipe nos dias mais pesados.
“Ela marcou a nossa equipe pela alegria, pelo sorriso, pela forma leve com que sempre tratou todo mundo aqui dentro”, dizem as colegas. “É assim que todos lembram dela: uma pessoa iluminada, acolhedora, inspiradora.”
O AVC e o amor que não precisa de palavras
Há alguns anos, um AVC mudou a rotina de Yuri e de todos ao seu redor. De forma súbita, a mulher que palestrava, viajava e cuidava de tantos precisou ser cuidada.
Para a família, foi um choque do qual, segundo os próprios familiares, “até hoje não dá para acreditar”. A rotina de casa precisou ser inteiramente adaptada. Mas o essencial — a presença de Yuri, seu afeto, sua alegria — permaneceu.
Hoje, ela não consegue se expressar com palavras. Mas sente. Compreende. E demonstra carinho de outras formas: ri das piadas e das brincadeiras de quem está ao redor, ama ir ao sítio, tomar café com a família, estar cercada de quem ama.
“Aprendemos a não questionar, e sim a agradecer por todas as coisas boas que ainda temos”, dizem os familiares.
O legado de quem cuidou sem alarde
Yuri Moribe era discreta quando o assunto era fazer o bem. Ajudou muita gente sem que nem os mais próximos soubessem — e provavelmente preferia assim.
Para as colegas que trabalharam ao seu lado, a essência da profissional que ela foi cabe em três palavras: doação, força e resiliência. “Por onde ela passou, ela deixou a essência dela. É muito lembrada porque realmente marcou.”
Para os familiares, ela foi — e continua sendo — motivo de orgulho. “Ela cuidou de muitas vidas, se doou para ajudar a todos. Sabemos que ajudou muita gente que nem nós conhecemos.”
Neste 12 de maio, Dia do Enfermeiro, as colegas que dividiram plantões com Yuri deixam um recado: “A importância dela é reconhecida por todos que tiveram o privilégio de trabalhar com ela. O carinho que todos temos jamais será esquecido.”
E um desejo, simples como ela sempre foi: que continue sendo essa pessoa alegre, forte e especial — espalhando energia positiva por onde passa.
Reportagem especial em homenagem ao Dia do Enfermeiro, 12 de maio.

