A Lapa produz R$ 3,1 bilhões — mas o imposto maior vai para Curitiba

Secretário de Fazenda confirma: agronegócio e indústria sustentam dois terços da arrecadação municipal, e uma eventual crise no setor avícola comprometeria quase um terço da receita

Para cada real que a Prefeitura da Lapa arrecada de ISS — o imposto cobrado sobre serviços prestados na cidade —, ela recebe três reais de ICMS repassados pelo governo do Paraná. A proporção se manteve ao longo dos últimos três anos e revela uma característica estrutural da economia lapeana: o município produz muito, mas depende do que vem de fora para funcionar.

Os dados foram obtidos diretamente da Secretaria Municipal de Fazenda e confirmados pelos relatórios oficiais de execução orçamentária publicados pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná.

Os números que o secretário trouxe

O secretário municipal de Fazenda, Marcos Castilho, disponibilizou à A Tribuna Regional a série histórica das três principais fontes de receita do município — ICMS, FPM e ISS — comparando os primeiros quadrimestres de 2024, 2025 e 2026 com os totais anuais correspondentes.

Os números confirmam uma dependência crescente dos repasses externos. Em 2024, o ICMS representou 44,09% do total arrecadado entre as três fontes, contra 12,9% do ISS. Em 2025, o ISS avançou para 14,67% — reflexo de crescimento de 13,5% em relação ao ano anterior —, mas o ICMS manteve participação de 45,1%. Nos primeiros quatro meses de 2026, o ISS projeta arrecadação anual de cerca de R$ 26 milhões, enquanto o ICMS já acumula R$ 25 milhões apenas no primeiro terço do ano.

Tributo2024 (anual)2025 (anual)2026 (4 meses)
ICMSR$ 65,7 miR$ 67,1 miR$ 25,0 mi
FPMR$ 64,1 miR$ 59,9 miR$ 21,0 mi
ISSR$ 19,2 miR$ 21,8 miR$ 8,7 mi

“O IPTU também compõe a receita, mas ele não tem caráter mensal — concentra-se em maio e junho”, explicou Castilho ao contextualizar os dados.

O que sustenta o ICMS — e o risco que vem junto

O ICMS não é arrecadado diretamente pela Prefeitura. Ele é gerado pelas atividades econômicas do município, recolhido pelo Estado e redistribuído aos municípios conforme um índice de participação. E esse índice revela a estrutura real da economia lapeana.

Segundo dados da Secretaria de Fazenda, confirmados pelo Valor Adicionado Fiscal (VAF) publicado pela SEFA/IPARDES, a participação do município no rateio do ICMS estadual está assim distribuída: indústria com 44,86%, produção primária e agropecuária com 34,13%, e comércio com 21,01%. O VAF total do município em 2024 chegou a R$ 3,1 bilhões.

A concentração nesses dois setores — indústria e agro — cria uma dependência que o próprio secretário reconhece sem rodeios. Questionado sobre o impacto de uma eventual crise no setor avícola — que alimenta a principal planta industrial da cidade, a unidade da JBS/Seara —, Castilho foi direto: “Uma queda desse setor representa praticamente um terço da arrecadação. Ela influencia em praticamente um terço da participação no índice de repasse.”

Em valores concretos, um terço da cota-parte do ICMS de 2025 equivale a cerca de R$ 22,9 milhões anuais — quase R$ 1,9 milhão por mês que deixariam de entrar nos cofres municipais.

O dinheiro que chega já tem destino

Parte relevante do que a Prefeitura recebe em transferências não está disponível para gastos livres. Tanto o ICMS quanto o FPM têm vinculações constitucionais obrigatórias: 20% para o FUNDEB, 15% para saúde e 5% para educação — totalizando 40% comprometidos antes de qualquer decisão de gestão. O ISS, por sua vez, tem 25% vinculado à educação.

O Relatório Resumido de Execução Orçamentária do segundo bimestre de 2026 mostra que as transferências correntes representaram 64,1% da receita corrente realizada no período. A receita tributária própria — impostos e taxas arrecadados diretamente pelo município — ficou em 15%.

O banco que fechou e o dinheiro que circula diferente

Esse fluxo de recursos que entra na cidade — seja pelo ICMS, pelo FPM ou pelo Bolsa Família — precisa de estrutura financeira para circular. E a Lapa perdeu parte dessa estrutura nos últimos anos.

Dados do Banco Central compilados pelo IPARDES mostram que o número de agências bancárias no município caiu de cinco para quatro entre 2024 e 2025 (Itaú fechou as portas e Bradesco está no caminho). Os postos de atendimento cooperativo (PAC), por sua vez, permaneceram estáveis em seis unidades — reflexo da expansão das cooperativas financeiras no espaço deixado pelos bancos.

André Linhares Meira, gerente do Sicoob Credicanoinhas na unidade da Lapa, confirmou o movimento: “Observamos um aumento de 273% em aberturas de contas em relação ao mesmo período do ano passado.” O perfil de quem migrou é diversificado, mas com predominância de aposentados, empresas e produtores rurais. “O principal fator de migração tem sido a busca por proximidade, atendimento e relacionamento”, afirmou.

A questão do acesso físico ao dinheiro tem implicação direta na economia local. Giovane Ribas, da Agropecuária Legendária, já havia apontado na edição anterior o impacto nos hábitos de consumo: o aposentado que prefere sacar em espécie perde parte da mobilidade financeira quando a agência fecha. André Meira reconhece a tensão, mas avalia que o avanço digital tem compensado parcialmente o efeito: “Instituições locais como cooperativas acabam desempenhando papel importante na manutenção da atividade econômica.”

A reforma que muda o jogo — e que já está na mesa

O horizonte fiscal da Lapa tem outra variável em movimento: a Reforma Tributária. O secretário Marcos Castilho dedicou parte da conversa ao tema, que ocupa boa parte da agenda da Secretaria de Fazenda.

Com a entrada do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e do CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) prevista para 2027, os municípios assumirão responsabilidades de fiscalização que hoje são exercidas pela Receita Federal e pelas secretarias estaduais. “A partir de 2033 vai cair muito em cima do município”, disse Castilho. “Estamos muito voltados a aprender, a entender como vai funcionar, porque não vai ser uma coisa simples.”

Para o contribuinte e o empresário lapeano, a mensagem é de atenção. “O empresário, o contador — vai mudar bastante”, alertou o secretário. “Não vai ser simples como parece.”

A reforma não altera imediatamente a equação ISS versus ICMS, mas redesenha o tabuleiro sobre o qual essa equação é jogada. O município que hoje depende de 64% de transferências para funcionar precisará, nos próximos anos, desenvolver músculo próprio de fiscalização e arrecadação — em um sistema tributário mais complexo do que o atual.

A pergunta que fica, e que as próximas edições desta série vão explorar, é direta: se a Lapa gera R$ 3,1 bilhões em valor adicionado por ano, por que sua capacidade de arrecadar por conta própria ainda é tão estreita — e o que isso significa para quem vive e trabalha aqui?

Dados de ISS, ICMS e FPM fornecidos pela Secretaria Municipal de Fazenda — Marcos Castilho (abril/2026). Relatório Resumido de Execução Orçamentária (RREO) — 2º Bimestre 2026, Tribunal de Contas do Estado do Paraná. Valor Adicionado Fiscal (VAF) — SEFA/IPARDES, 2024. Dados de agências bancárias — BACEN/IPARDES. Entrevista com André Linhares Meira, Sicoob Credicanoinhas, concedida à A Tribuna Regional em abril de 2026.

Marcos Castilho, secretário municipal de Fazenda: “Uma queda no setor avícola representa praticamente um terço da arrecadação.” Para o gestor, a Reforma Tributária é a principal preocupação do momento — e exigirá do município um esforço inédito de fiscalização a partir de 2027.
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