
Integrado há mais de 30 anos, avicultor lapeano revela que sobram entre 2,5% e 5% do resultado bruto do lote — e que no inverno já ficou no vermelho.
A cadeia produtiva da avicultura de corte na Lapa movimenta centenas de milhões de reais por ano. No campo, porém, quem sustenta essa cadeia na ponta — o produtor integrado que cria os frangos, aquece os barracões e cuida do lote a cada 60 dias — fica com uma fatia que surpreende por ser pequena.
“Numa granja que me dá um resultado de R$ 100 mil, me sobraria R$ 5 mil mais o valor da mão de obra — de R$ 7 a 9 mil por lote”, relatou um produtor integrado com mais de 30 anos de atividade na região, ouvido pela A Tribuna Regional sob anonimato a pedido próprio. O motivo do pedido é direto: “Tenho minhas dívidas a pagar e é daqui que tiro meu sustento. Não tô falando nada que não seja correto, mas é melhor não cutucar onça com a vara curta.”
A margem descrita — aproximadamente 2,5% do resultado bruto do lote, acrescida da remuneração pela mão de obra própria — é específica de aviários novos, que recebem um incentivo financeiro da integradora para viabilizar a construção. Em estruturas mais antigas, sem esse apoio, a equação é ainda mais apertada.
Como funciona o contrato
O modelo de integração com a JBS/Seara funciona assim: a empresa fornece os pintinhos, a ração, os medicamentos, os desinfetantes e o suporte técnico veterinário. O produtor entra com a terra, o barracão, a mão de obra e o investimento na infraestrutura. O contrato é por tempo indeterminado e pode ser rescindido por qualquer das partes.
O pagamento ao produtor é calculado a partir de um conjunto de indicadores: o percentual de partilha (7,9% do quilo de carne entregue no abatedouro, no caso do frango pesado), a conversão alimentar, o índice de condenas no abatedouro, a qualidade do calo de pata — item valorizado pelo mercado chinês, grande comprador de pé de frango — e um checklist de infraestrutura da granja que avalia biosseguridade, equipamentos e sustentabilidade.
“O contrato premia mais a parte integradora do que o produtor. Ele estipula mais responsabilidades do produtor do que a visão da própria responsabilidade da integradora”, avaliou a fonte.
Para viabilizar a construção de novos aviários, a JBS entra como corresponsável no financiamento bancário — o que permite ao produtor empenhorar apenas 30% do valor investido, contra 130% em financiamentos convencionais. Na prática, a empresa assume posição de garantidora junto ao banco, o que lhe confere peso contratual sobre o projeto desde o início.
O que fica na Lapa — e o que vai embora
A pergunta central desta série — quanto do que é produzido na Lapa de fato circula na Lapa — tem uma resposta incômoda quando o assunto é a avicultura integrada.
Todos os insumos que o frango consome — ração, medicamentos, desinfetantes, cloro, pastilha de pH da água — são fornecidos exclusivamente pela integradora. O produtor não pode comprar nada por fora. O uso de produto não homologado pela empresa é motivo de rescisão imediata do contrato.
A assistência técnica para manutenção dos equipamentos do aviário — painéis, motores, sistemas elétricos — também não está disponível na cidade. “Aqui na Lapa, de assistência técnica, só faço a compra de itens básicos e enrolamento de motor. Empresas que prestem assistência para painéis e equipamentos não tem. Tem que buscar nos municípios vizinhos”, disse o produtor.
Os dois maiores itens do custo de produção — energia elétrica e lenha ou cavaco para aquecimento — juntos representam cerca de 60% do custo total, e boa parte desse gasto também sai do município.
“Do custo de produção, diria que quase 60% vai para fora. O que sobra para mim como produtor, esse praticamente 100% fica na economia local”, resumiu a fonte.
Em números concretos: se o produtor retém entre R$ 12 mil e R$ 14 mil por lote — somando margem e mão de obra —, isso equivale a uma renda mensal de R$ 6 mil a R$ 7 mil, que ele gasta integralmente na cidade. É esse dinheiro, multiplicado pelas centenas de produtores integrados da região, que circula no comércio local. O restante — o grosso do faturamento da cadeia — segue para fora.
O inverno que não paga
Há uma sazonalidade que os dados agregados não capturam. No inverno, o custo de aquecimento dos pintinhos sobe significativamente, comprimindo ainda mais a margem do produtor.
“No inverno, se pudesse não produzir, eu não produziria. Quase sempre sobra nada. Já teve ano de eu tirar um lote e ficar no vermelho — porque não me sobrou nada, ou tirei um custo de produção mais alto do que o resultado”, relatou.
É o mesmo produto, o mesmo contrato, o mesmo esforço. Mas a variação climática, que eleva o consumo de energia e lenha para manter a temperatura adequada nos barracões, transforma lotes de inverno em operações de margem negativa para o produtor — enquanto o frango entregue ao abatedouro mantém seu valor de mercado independente da estação.
A queixa que une os produtores
Se há um ponto de convergência entre os avicultores integrados da região, segundo a fonte, é o sistema de condenas no abatedouro. O produtor é descontado por defeitos identificados no momento do abate — problemas sanitários, qualidade do calo de pata, entre outros — mas não tem acesso a uma amostragem independente que confirme os percentuais cobrados.
“A gente faz um levantamento aqui na granja com o técnico da empresa, para estimar o percentual de calo de pata que vai dar. Esses percentuais quase nunca batem. A principal queixa de nós produtores são as condenas. No meu ponto de vista, ela não deveria ser descontada — deveria ser premiado por produzir um frango de qualidade, não descontado”, disse.
A ausência de amostragem independente significa que o produtor aceita o resultado informado pelo abatedouro — que pertence à mesma empresa integradora — sem possibilidade de contestação técnica efetiva.
A cadeia que sustenta — e o que ela deixa
A fonte entrevistada não ignora o peso econômico da integração para a região. Reconhece que a cadeia gera transporte, mão de obra no abatedouro, logística e serviços. Mas faz uma distinção que a série de reportagens desta edição busca documentar: o que a integração movimenta é diferente do que ela deixa.
“Se você olhar o que movimenta uma integração — transporte de pintinho, ração, frete até o abatedouro, mão de obra lá — isso tudo está dentro do portfólio que a empresa precisa ter. De mim, praticamente 100% do que sobra do lote fica na economia local. Mas dentro do custo de produção, fica bem pouco no mercado local.”
A família deste produtor está na atividade desde 1992. Ele assumiu em 2010 e não pretende sair — ao menos enquanto a conta fechar. “É um trabalho gostoso de se fazer. Um dos princípios é você gostar de criar frango. O outro é você ter uma dívida de frango — daí você trabalha mesmo não gostando.”
O produtor integrado ouvido por esta reportagem solicitou anonimato por manter contrato ativo com a integradora. A identidade e a localização da propriedade são de conhecimento da redação.

