O retrato completo: o que cinco semanas de dados revelam sobre a economia da Lapa

Série inédita mapeou os pilares da renda municipal, as fragilidades estruturais e as perguntas que a cidade precisará responder nos próximos anos

Durante cinco edições consecutivas, a A Tribuna Regional mergulhou nos números que descrevem a economia da Lapa com uma profundidade que raramente aparece no jornalismo regional. Fontes primárias, documentos oficiais, entrevistas com empresários, servidores, produtores rurais e gestores públicos formaram um mosaico que vai muito além do que normalmente se discute sobre a cidade. Este é o fechamento da série — não uma conclusão definitiva, mas um convite à reflexão sobre o que os dados revelam e o que ainda precisa ser construído.

O que a série revelou: os quatro pilares

A primeira descoberta da série foi estrutural: a renda que circula na Lapa tem endereços bem definidos. Três pilares sustentam a economia formal do município — a folha de pagamento da Prefeitura, a massa salarial da JBS/Seara e os programas de transferência federal. Juntos, injetam cerca de R$ 15,1 milhões mensais na cidade.

A segunda descoberta surpreendeu: a previdência é o pilar invisível. O Instituto de Previdência dos Servidores Municipais — o Lapa Prev — paga, segundo dados oficiais do portal de transparência, R$ 3,12 milhões mensais para 744 aposentados e pensionistas. Somados o INSS federal e o Paranaprevidência estadual, a renda previdenciária que circula na cidade chega a aproximadamente R$ 34,7 milhões mensais — mais do que o dobro dos três pilares visíveis somados.

FonteInjeção mensal estimada
INSS + Paranaprevidência + Lapa Prev~R$ 34,7 milhões
Prefeitura (com encargos)~R$ 8,5 milhões
JBS/Seara~R$ 5,1 milhões
Bolsa FamíliaR$ 1,54 milhão
Total rastreável~R$ 49,8 milhões/mês

A terceira descoberta foi fiscal: para cada real que a Lapa arrecada de ISS por conta própria, ela recebe três reais de ICMS repassados pelo Estado — gerados pelo agronegócio e pela indústria local, mas tributados e redistribuídos por Curitiba. Em 2025, o ICMS respondeu por 45,1% das três principais fontes de receita municipal, contra 14,67% do ISS. O secretário de Fazenda, Marcos Castilho, confirmou: uma crise no setor avícola comprometeria cerca de um terço da arrecadação.

A quarta descoberta veio do campo: o produtor integrado que alimenta a cadeia avícola bilionária fica com aproximadamente 2,5% do resultado bruto de cada lote — entre R$ 12 mil e R$ 14 mil a cada 60 dias, em aviários novos. A maior parte dos insumos vem de fora. A assistência técnica para equipamentos não está disponível na cidade. No inverno, a margem pode ser negativa. “Já teve ano de eu tirar um lote e ficar no vermelho”, relatou um produtor integrado com mais de 30 anos de atividade, em entrevista sob anonimato.

O paradoxo central

Os dados desta série apontam para uma contradição que não pode ser ignorada.

A Lapa tem Valor Adicionado Fiscal de R$ 3,1 bilhões em 2024 — um dos maiores da região sul do Paraná. O PIB per capita é de R$ 58.831 anuais, acima da média estadual. A cidade produz frango para o mundo, soja para exportação, maçã reconhecida regionalmente.

E ao mesmo tempo: 37% da população está inscrita no Cadastro Único de programas sociais. Mais de 2.400 famílias vivem com menos de R$ 218 por pessoa ao mês. O salário médio no setor agropecuário — base de toda a cadeia — é de R$ 2.547. Cinquenta e um por cento dos trabalhadores formais têm apenas o ensino médio como escolaridade máxima.

A riqueza existe. O problema é o caminho que ela percorre — e onde ela para.

Giovane Ribas, da Agropecuária Legendária, descreveu com precisão o que os dados confirmam: entre 35% e 40% do movimento de sua loja se concentra nos dias seguintes ao pagamento dos aposentados. É a renda previdenciária — não a riqueza gerada pelo agro — que sustenta o varejo do dia a dia. Quando o banco fecha ou o calendário atrasa, o caixa sente.

As fragilidades que os dados expõem

A série identificou três vulnerabilidades estruturais que merecem atenção pública independente de quem governa a cidade.

A primeira é a concentração setorial. Dois setores — indústria e produção primária — respondem por quase 79% do Valor Adicionado Fiscal municipal. Um único empregador privado concentra mais de 1.600 empregos diretos. A economia local é eficiente, mas pouco diversificada. Uma crise no setor avícola — por embargo sanitário, variação de commodity ou decisão estratégica corporativa — teria impacto imediato e severo sobre emprego, renda e arrecadação.

A segunda é a dependência de transferências externas. Sessenta e quatro por cento da receita corrente da Lapa vem de repasses da União e do Estado — FPM e ICMS principalmente. A arrecadação própria via ISS, imposto que a cidade controla diretamente, representa apenas 15%. Isso significa que boa parte do orçamento municipal depende de decisões tomadas em Brasília e Curitiba, não em Lapa.

Esse cenário vai se transformar. A Reforma Tributária, com a entrada do IBS e do CBS a partir de 2027, redesenha completamente esse tabuleiro. O secretário Marcos Castilho foi claro: “A partir de 2033, vai cair muito em cima do município. Estamos muito voltados a aprender, porque não vai ser simples.” O município que hoje depende de transferências precisará construir, nos próximos anos, capacidade própria de fiscalização e arrecadação num sistema tributário radicalmente mais complexo.

A terceira fragilidade é demográfica. A Lapa envelhece. Pelo Censo de 2022, 17,2% da população tem 60 anos ou mais — proporção que mais que dobrou desde 2000. Nos dados eleitorais de 2024, 35,6% do eleitorado tem 60 anos ou mais. Essa população demanda mais do sistema de saúde, depende mais da renda previdenciária e tem menor capacidade de adaptação às mudanças tecnológicas que transformam o mercado de trabalho. As matrículas no EJA — o programa de educação para adultos que não completaram os estudos — caíram 73% entre 2021 e 2025, de 507 para 138. Menos gente está usando o único caminho formal de retorno à escolaridade disponível na cidade.

A agenda que os dados sugerem

Esta série não foi produzida para apontar culpados. Os problemas estruturais da economia lapeana têm décadas de formação e não são responsabilidade de nenhuma gestão específica. São o resultado de escolhas históricas, de dinâmicas nacionais e de características geográficas e produtivas que antecedem qualquer prefeito ou secretário.

Mas os dados desta série sugerem uma agenda de perguntas que a cidade — gestores, empresários, lideranças comunitárias, candidatos e cidadãos — precisará enfrentar:

Como diversificar a base econômica para reduzir a dependência de um único setor e de um único empregador privado de grande porte?

Como ampliar a arrecadação própria via ISS — atraindo empresas de serviço, escritórios, tecnologia — para reduzir a vulnerabilidade aos repasses externos?

Como preparar o município para a Reforma Tributária sem perder arrecadação na transição?

Como qualificar a mão de obra local para que o trabalhador lapeano consiga acessar os melhores postos da cadeia produtiva que ele mesmo sustenta?

Como garantir que uma população que envelhece rapidamente tenha acesso adequado à saúde e aos serviços públicos?

Nenhuma dessas perguntas tem resposta simples. Mas todas elas têm uma precondição: é necessário conhecer os números. É necessário olhar para o que os dados realmente mostram, sem filtros políticos e sem o conforto de narrativas que celebram a riqueza sem examinar sua distribuição.

O que esta série foi

Ao longo de cinco edições, a A Tribuna Regional publicou dados primários obtidos diretamente de portais oficiais, relatórios do Tribunal de Contas do Estado, documentos da Secretaria de Fazenda, entrevistas com empresários locais e produtores rurais. Nenhum número foi inventado. Nenhuma fonte foi forçada a dizer o que não quis dizer.

O Valor Adicionado Fiscal de R$ 3,1 bilhões é real. Os R$ 1,54 milhão mensais do Bolsa Família são reais. A margem de 2,5% do produtor integrado é real. O crescimento de 273% nas aberturas de conta no Sicoob após o fechamento dos grandes bancos é real. A série ICMS versus ISS ao longo de três anos é real.

A Lapa é uma cidade que produz muito. Que tem história, que tem gente capaz, que tem solo fértil e uma cadeia produtiva que poucos municípios do interior paranaense podem ostentar. Os desafios que os dados revelam não são motivo de vergonha — são ponto de partida para uma conversa que a cidade merece ter.

A série Raio-X da Economia da Lapa foi produzida pela A Tribuna Regional ao longo de cinco edições. Fontes utilizadas: Relatório de Gestão Fiscal (RGF) e RREO — Tribunal de Contas do Estado do Paraná; Ofício 071/2026 — Secretaria Municipal de Assistência Social; Portal de Transparência Municipal — Instituto de Previdência dos Servidores Municipais da Lapa (Lapa Prev); Dados de ISS, ICMS e FPM — Secretaria Municipal de Fazenda (Marcos Castilho); IPARDES — Caderno Estatístico Municipal; IBGE — Censo Demográfico 2022 e PIB Municipal; SEFA/PR — Valor Adicionado Fiscal 2024; MTE/RAIS 2024; BACEN — Dados bancários; Entrevistas com Giovane Ribas (Agropecuária Legendária), André Linhares Meira (Sicoob Credicanoinhas) e produtor integrado (identidade preservada a pedido).

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