Fé, arte e amizade erguem os tapetes de Corpus Christi nas ruas da Lapa

De artista plástico a grupo de amigos e família da Vila do Príncipe, voluntários de perfis distintos convergem de madrugada para uma das tradições mais antigas da cidade

Às quatro da manhã, Geraldo do Valle já está trabalhando. Enquanto a cidade dorme, ele encaixa as últimas placas de madeirite no calçamento, ajusta cores, acerta os contornos que passou dias preparando em casa. Está no Corpus Christi da Lapa há décadas — começou aos 14 anos, quando o pai presidia um clube próximo ao percurso da procissão e cada prédio tinha de confeccionar seu tapete. Nunca parou.

A procissão deste ano percorrerá o trecho do Santuário de São Benedito até a Rua XV de Novembro, em direção à Matriz de Santo Antônio, com estações de oração ao longo do caminho. Para que isso aconteça, dezenas de grupos e famílias assumem seus espaços nas ruas — planejando, tingindo serragem, perdendo o sono e, segundo quem participa, não querendo de outra forma.

Arte como reverência

O processo de Geraldo começa uma semana antes, com o tingimento da serragem. Quatro dias antes da procissão, ele já trabalha as placas em casa, na horizontal — ajoelhado no chão, diz, “já não dá mais”. Leva as peças prontas ao local, encaixa e faz os reparos finais. Trabalha com um auxiliar, que serve principalmente para alcançar as bacias de serragem. Depois, ainda coordena outros três ou quatro tapetes de grupos vizinhos, orientando cores e desenhos.

Para ele, o que separa um tapete bonito de um tapete que emociona está na serragem bem tingida, nas cores que chamam atenção — e sobretudo no volume, na diferença entre uma superfície chapada e uma que usa sombra e luz para criar profundidade. “Para mim, é uma reverência a Cristo. Vou lá agradecer, mostrar minha arte em prol da religiosidade”, diz.

A serragem usada pelos grupos vem, em grande parte, do Neito Ribas — fornecedor que abastece os voluntários há anos.

A família que atravessa a cidade

Leila Silveira mora na Vila do Príncipe há 30 anos. Começou a ajudar nos tapetes ainda menina, pelos 13 ou 14 anos, dentro do grupo de jovens da Capela de Santa Terezinha. Com o tempo, trouxe os pais, depois o Thiago — hoje marido —, que há quase 20 anos coordena o desenho e as cores do tapete da família. A filha Letícia e as amigas já têm responsabilidade própria: o corredor. Elas mesmas escolhem o desenho e executam. Fazem isso há três anos.

A mobilização da madrugada tem um ritual: chimarrão, café, conversa, risadas. A hora de início varia conforme o ano — às vezes seis da manhã, em outros quatro, com frio. As técnicas foram melhorando, o trabalho ficou mais ágil. Mas o motivo de sair de casa não mudou. “A gente lembra sempre de pedir, mas agradecer às vezes esquece. Então é uma forma de agradecer a Deus por tudo de bom que aconteceu na nossa vida”, resume Leila. A Capela de Santa Terezinha mobiliza voluntários para quatro tapetes.

O padre Elves Alano, pároco da Paróquia de Santo Antônio da Lapa, reconhece esse padrão como algo que define a tradição. Muitas famílias têm ligação histórica com a festa há gerações — e não é coincidência. A própria paróquia, fundada em 1769, deu origem à formação do município. Junho, para a Lapa, carrega um valor que vai além do religioso. “É histórico e identitário para o povo lapeano”, afirma o padre.

Para ele, o que acontece nas ruas durante a madrugada de Corpus Christi não é apenas logística voluntária. É o momento em que a fé se torna visível e coletiva: pessoas de origens e motivações distintas trabalhando juntas, rezando, conversando, partilhando alimento. “É a fé transformada em comunhão”, define.

O grupo que veio do carnaval

O KZF nasceu em fevereiro de 2002 para o Carnaval. Dois anos depois, os mesmos amigos que se reuniam próximo à Floricultura Dal viram os tapetes sendo confeccionados ao lado e decidiram pegar um espaço. Fizeram por alguns anos, deram uma pausa, e há cinco ou seis anos estão de volta sem interrupção. Este ano ocupam a rampa do Santuário de São Benedito, ponto de partida da procissão.

Marco Antonio, à frente do grupo este ano ao lado de Miriam, diz que a motivação é simples: velhos amigos unidos para fazer algo pelo bem. O que surpreende, segundo ele, é o entusiasmo das crianças. “As nossas crianças são sangue nos olhos, ansiosas, querem fazer, ajudam a pintar a serragem e amanhecem cedo já montando”, conta.

Da rua para a vida paroquial

O padre Elves Alano, pároco da Paróquia de Santo Antônio da Lapa — fundada em 1769, origem histórica do próprio município —, descreve o Corpus Christi como o momento em que a fé se torna visível nas ruas. A tradição dos tapetes envolve famílias inteiras, atravessa gerações e representa não apenas devoção, mas convivência: durante a madrugada de confecção, pessoas trabalham juntas, rezam, conversam e partilham.

Para quem quiser participar pela primeira vez, o caminho começa pela aproximação — comparecer à Missa, conhecer as pastorais e grupos da paróquia e se apresentar como voluntário. A procissão de Corpus Christi acontece no dia 19 de junho.

LEGENDAS

Foto 1 Leila Aparecida Silveira participa dos tapetes de Corpus Christi desde os 13 anos. Hoje, leva a filha Letícia e as amigas, que já assumem o próprio corredor — escolhem o desenho e executam.

Foto 2 Geraldo do Valle em um dos tapetes de Corpus Christi que assina na Lapa. Artista plástico de formação, ele começa a preparação quatro dias antes, trabalha as placas em casa e chega ao local às quatro da manhã.

Foto 3 Marco Antonio Rosa e o filho Gabriel em frente ao Santuário de São Benedito, de onde parte o percurso dos tapetes até a Matriz de Santo Antônio — trecho que o grupo KCF ocupa este ano.

Segue uma versão reduzida para rede social, mantendo a essência da reportagem e com menos de 2.000 caracteres:

Fé, arte e amizade erguem os tapetes de Corpus Christi nas ruas da Lapa

Enquanto a cidade ainda dorme, dezenas de voluntários já estão nas ruas preparando uma das tradições mais marcantes da Lapa: os tapetes de Corpus Christi. Entre artistas, famílias, grupos de amigos e membros de comunidades religiosas, a madrugada se transforma em um grande mutirão de fé e dedicação.

Há décadas participando da confecção dos tapetes, o artista plástico Geraldo do Valle começa os preparativos dias antes da procissão. Para ele, cada detalhe, das cores ao relevo dos desenhos, é uma forma de homenagear Cristo e colocar sua arte a serviço da religiosidade.

A tradição também une gerações. Moradora da Vila do Príncipe, Leila Silveira participa desde a adolescência e hoje divide a experiência com o marido, a filha e amigos da comunidade. Entre chimarrão, café e conversas durante a madrugada, o grupo mantém viva uma prática que, segundo ela, é uma forma de agradecer pelas bênçãos recebidas.

Outro exemplo é o grupo KZF, formado por amigos que começaram juntos no Carnaval e, há anos, ajudam a construir os tapetes. O entusiasmo das crianças é um dos destaques da equipe, que vê na atividade uma oportunidade de convivência e serviço à comunidade.

Segundo o padre Elves Alano, pároco da Paróquia Santo Antônio da Lapa, a tradição vai além da ornamentação das ruas. Ela representa a identidade do povo lapeano e transforma a fé em comunhão, reunindo pessoas de diferentes histórias em torno de um mesmo propósito.

A procissão de Corpus Christi será realizada no dia 04 de junho, saindo do Santuário São Benedito em direção à Matriz de Santo Antônio, percorrendo um caminho marcado pela fé, pela arte e pelo trabalho voluntário de quem mantém viva essa tradição centenária.

Geraldo do Valle em um dos tapetes de Corpus Christi que assina na Lapa. Artista plástico de formação, ele começa a preparação quatro dias antes, trabalha as placas em casa e chega ao local às quatro da manhã.
Leila Aparecida Silveira participa dos tapetes de Corpus Christi desde os 13 anos. Hoje, leva a filha Letícia e as amigas, que já assumem o próprio corredor — escolhem o desenho e executam.
Marco Antonio Rosa e o filho Gabriel em frente ao Santuário de São Benedito, de onde parte o percurso dos tapetes até a Matriz de Santo Antônio — trecho que o grupo KCF ocupa este ano.
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