
Um paraibano que construiu uma empresa na Lapa e um tenente do Exército em Tucuruí revelam os dois Brasis que coexistem sem se ver
Era noite na Lapa e Jefferson não tinha onde dormir.
Havia chegado da capital com uma mochila, um sócio e a promessa de que aquela cidade daria certo para o negócio de segurança que os dois tentavam emplacar. A promessa era de um ex-delegado — homem de palavra, que o havia trazido pessoalmente, mostrado os bairros, explicado onde era seguro e onde era complicado. Jefferson ouviu tudo com atenção e fez o contrário: começou exatamente pelos lugares mais complicados.
Naquela primeira fase, trabalhava a noite inteira na Lapa, fazia a ronda, e ao amanhecer voltava para Curitiba. Cada noite era uma moto diferente — do vizinho, de um amigo que emprestava a sua quando não estava usando. Sem dinheiro para pagar, Jefferson pedia crédito: “No mês que vem eu acerto.”
Teve noite que nem moto havia. Teve dia que não havia comida.
“Passei um sofrimento que não desejo nem para o pior inimigo meu”, disse ele, trinta e poucos anos depois, sentado na empresa que construiu do zero na cidade onde um dia dormiu na rua.
Jefferson tem 48 anos, nasceu em Marisópolis, no interior da Paraíba, e mora na Lapa há treze anos. É diretor, gestor financeiro, instalador e faxineiro da própria empresa de segurança patrimonial e eletrônica. “Sou funcionário também”, brincou, com o riso fácil de quem já passou do ponto em que precisa impressionar alguém.
A vassoura e o puxa-saco
Saiu da Paraíba adolescente, logo depois de perder o pai. Não havia tempo para aproveitar a juventude — havia necessidade de tomar um rumo. O tio, que trabalhava numa fábrica de Bombril em Curitiba, estendeu a mão.
Na fábrica, olhava para os colegas que já estavam lá há anos e notava algo que o incomodava. Quando a produção parava, cada um ficava no seu posto. Tranquilos. O serviço era aquele e não havia mais o que fazer.
Jefferson não conseguia ficar parado.
Pegava uma vassoura e varria. Juntava lixo. Num período em que a fábrica praticamente parou, ele catou uma enxada e foi carpir mato no pátio. Pintou o meio-fio do estacionamento. Limpou a guarita. Lavou o que havia para lavar.
“Levei nome de puxa-saco não foi uma, nem duas, nem dez vezes — foi várias”, lembrou ele, sem amargura, mas também sem disfarce.
A explicação não é moral — é de contexto. O nordestino que chega ao Sul não tem rede de proteção. Não tem família por perto, não tem histórico, não tem crédito acumulado. O trabalho não é só meio de vida — é prova de existência. É o único documento que ninguém pode confiscar. E é por isso que se defende como se defende — com vassoura, com enxada, com moto emprestada de vizinho.
“A gente se aplica no trabalho com muita dedicação, com medo de perder o emprego”, disse ele, descrevendo não uma virtude, mas uma necessidade.
O paradoxo da usina
A quatro mil quilômetros daqui, o 1º Tenente Osni Nascimento Ferreira chegou a Tucuruí em novembro de 2025 esperando encontrar uma cidade-dormitório perdida na mata. O que encontrou foi uma cidade polo, com orla renovada, comércio aquecido e um bairro planejado — a Vila Permanente — que, nas suas palavras, “parece cidade de interior paulista: ruas largas, arborizada, silenciosa.”
Osni é Gestor Financeiro do 23º Esquadrão de Cavalaria de Selva — o Esquadrão Lanceiros da Selva —, cuja missão é proteger a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, quarta maior do mundo. Diferente da cavalaria blindada tradicional, o esquadrão atua com inteligência, reconhecimento e vigilância: são, nas palavras do próprio Osni, “os olhos e ouvidos da tropa na mata.” É um homem treinado para observar o ambiente. O que ele viu em Tucuruí merece atenção.
O espetáculo existe. Do vertedouro da usina, botos nadam logo abaixo da barragem. A saída de barco do centro leva em minutos a praias de água doce na Ilha do Sol. A infraestrutura que a usina trouxe — asfalto, royalties, empregos técnicos — transformou Tucuruí em referência regional.
Mas o outro lado também existe.
A construção da usina, nos anos 1980, deslocou mais de 32 mil pessoas — pescadores, ribeirinhos, comunidades inteiras que perderam o sustento quando o lago se formou. Os empregos foram embora com a obra, deixando vagas técnicas preenchidas por gente de fora. Hoje, bairros periféricos carecem de saneamento básico. Milhares de famílias aguardam indenizações na Justiça. Tucuruí gera energia para o Brasil e tem uma das contas de luz mais caras do Pará.
“A riqueza da usina contrasta com a pobreza de quem vive ao lado dela”, resumiu Osni.
Logo que chegou, uma atendente de hotel lhe contou sobre a dificuldade de comerciantes locais em contratar mão de obra. A explicação que circulava: muitas famílias dependiam de programas sociais, o que afetava, na percepção do empresariado, a disposição para o emprego formal. Osni registrou sem precipitar conclusões.
Saiu para a rua e encontrou outra cena: motociclistas circulando sem capacete, sem fiscalização à vista. Em cinco meses percorrendo a cidade, não viu uma única blitz — nem em dia de semana, nem em fim de semana. O dado não surpreende: Tucuruí figurou entre as cidades com maior índice de acidentes de trânsito do Pará no período, segundo registros regionais.
O capacete ausente e o mercado de trabalho frouxo contavam a mesma história por caminhos diferentes: uma população que aprendeu, ao longo de gerações, a negociar com o Estado em vez de cobrar dele. Que sobrevive no imediato — o prato de comida de hoje, a moto de amanhã — sem a segurança estrutural que permitiria planejar além do mês.
Não é preguiça. É o que décadas de ausência de Estado produzem quando a única presença institucional consistente é a que distribui benefícios.
Essa lógica tem raiz histórica. O Norte do país foi colonizado sobre uma miscigenação específica — indígena, africana e europeia — que gerou uma cultura de subsistência adaptada a ambientes de escassez. O Sul, colonizado majoritariamente por imigrantes europeus que vieram sem rede de proteção e precisaram produzir para sobreviver, desenvolveu outra relação com o trabalho e com o futuro. Não há mérito nem culpa nisso — há história. Mas a história tem consequências políticas mensuráveis no presente.
“A Paraíba é um estado muito dependente da política”, disse Jefferson, do outro lado do país, sem saber das observações de Osni. “O pessoal mais antigo visa muito política. Não é à toa que as maiores discussões são para lá.”
Dois homens, dois pontos do mapa, um diagnóstico compartilhado: não é burrice. É estrutura. Quando a base econômica não sustenta, o assistencialismo preenche o vazio — e junto com ele vem a fidelidade política que tanto surpreende quem chega de fora.
O nordestino que encontra outro nordestino
Quando Jefferson chegou à Lapa sem dinheiro e sem teto, quem apareceu foi o Siso — um cearense que fazia segurança no posto ao lado do batalhão. Os dois se encontraram e foi como se estivessem em casa.
“O nordestino, quando se encontra com outro, é o mesmo que está em casa”, disse Jefferson.
Siso deu suporte. Uma prima de consideração cedeu espaço na casa dela. A solidariedade que o sistema não oferecia, as pessoas ofereceram. É também Brasil — o que não aparece nos índices nem nas análises políticas sobre por que o Nordeste vota como vota.
Jefferson hoje tem empresa, cartela de clientes e reputação construída tijolo por tijolo em uma cidade que um dia o viu dormir na rua. Durante anos andou de porta em porta com as placas de sinalização debaixo do braço, oferecendo serviço, construindo o que não se herda e não se compra. O sócio desistiu no caminho. Jefferson tocou o barco sozinho.
“Nunca herdei nada de ninguém. Nunca furei o olho de nenhum concorrente. Nunca cheguei em cliente de ninguém”, disse ele.
Teve humilhação, teve preconceito, teve desânimo. Cada um deles “servia como um degrau pra pisar em cima e subir mais na vida.”
Seus filhos nasceram na Lapa. São lapeanos. E não sabem que um dia o pai dormiu na rua da cidade deles.
O paradoxo de Tucuruí ainda existe. A estrutura que prende gerações numa relação de troca com o Estado ainda existe. Mas Jefferson também existe — e a frase que ele usa para explicar o Brasil diz mais do que parece:
“O Sul você vem para trabalhar e conquistar. O Nordeste é para passear e descontrair.”
Não é elogio nem depreciação. É o diagnóstico de quem viveu os dois lados e entendeu que a diferença não está nas pessoas — está no que cada lugar oferece, ou deixa de oferecer, para que as pessoas sejam quem poderiam ser. Jefferson encontrou o Sul. O Sul o encontrou de volta. E a Lapa ganhou dois lapeanos que não sabem de nada disso.
TAMBÉM ELE
Wagner Santos de Mello não escolheu o Sul. O Sul o escolheu.
Engenheiro eletricista de 48 anos, natural de Fortaleza, Wagner foi mobilizado pela empresa onde trabalha para gerenciar as obras da PCH de Porto Amazonas. Está na região há dois anos e meio — e carrega na bagagem o que quem parte quase nunca menciona: “Deixamos família, amigos, nossa casa e a qualidade de vida de quem vive e ama o mar.”
O que mais o surpreendeu por aqui foi o espírito empreendedor das mulheres de Porto Amazonas. Chegou a ganhar de presente um livro escrito sobre elas.
Sobre a diferença entre as regiões, foi direto: o serviço público no Sul é melhor. E sobre quando vai voltar para o Ceará, não disse. Quem ama o mar sempre volta — a questão é quando o mar deixa.



