
Entre o medo do início, a formação que o padre exige e a fé que não esmorece nem diante da perda recente do marido, Antônia Schmaleski conta o que é carregar Jesus nas mãos há quase cinco décadas
“Corpo de Cristo.” “Amém.”
Essa troca de poucas palavras se repete na vida de Antônia Schmaleski há quase cinco décadas. Em frente a ela, a cada celebração, passam rostos que ela reconhece de memória — gente que vê toda semana, no mesmo horário, no mesmo banco.
Antônia é Ministra da Eucaristia. O termo, apesar de consagrado pelo uso popular, não é tecnicamente correto — e essa é uma história que vale contar à parte (leia o box ao final). Para os fiéis da Lapa, ela é simplesmente a senhora que distribui a comunhão há tanto tempo que ninguém mais lembra um tempo em que ela não estivesse lá.
Ela é parte de um ecossistema maior de voluntariado que sustenta a paróquia. Segundo o padre Elves Alano, pároco da Paróquia de Santo Antônio da Lapa, a estrutura inclui catequistas, equipes de liturgia e música, acolhida, Pastoral do Batismo, Pastoral Familiar, grupos de jovens, movimentos marianos e o Apostolado da Oração — este último, justamente, o primeiro grupo que recebeu Antônia e o marido quando chegaram à cidade, em 1976.
O padre reconhece que esse engajamento vem encolhendo. Ritmo de vida mais acelerado, menos tempo disponível e uma cultura mais individualista afastam parte das novas gerações do trabalho voluntário. Ainda assim, afirma, a paróquia continua de pé graças a quem permanece comprometido — e poucos exemplos ilustram esse compromisso tão bem quanto uma trajetória de quase cinco décadas sem pausa.
Uma vocação nascida da timidez
Antônia nasceu no Paiquerê, interior do Paraná, e morou lá até os 17 anos. Casou-se com Paulo e, juntos, foram para Curitiba, onde se aproximaram da Legião de Maria e passaram a fazer trabalho missionário no Pinheirinho — ele evangelizando os homens, ela as mulheres, em um bairro que então ainda nem tinha se formado como cidade.
Em março de 1976, o casal se mudou para a Lapa. Foram recebidos de imediato pelo Apostolado da Oração, na época do Monsenhor Henrique, e nunca mais deixaram a evangelização de lado — mesmo com açougue, mercado e depósito de cereais para administrar, e filhos pequenos para criar.
O convite para o ministério veio quando a Capela Santa Terezinha começava a se estruturar. O Padre Jair indicou quatro nomes para o serviço, entre eles o de Antônia. Ela quase recusou antes mesmo de começar: tinha tanto medo da responsabilidade que decidiu nem comparecer à celebração em que os ministros seriam escolhidos. “Eu pensei: eu não tô preparada para carregar Jesus nas minhas mãos”, relembra.
Foi escolhida assim mesmo. O padre a chamou na paróquia e perguntou, brincando: “Antônia, você não sabe dizer ‘Corpo de Cristo’?” Ela respondeu, também brincando: “Mas é só isso?” Ele confirmou: “Só!” Foi o suficiente para vencer a hesitação.
O dia em que perdeu o medo
A formação não eliminou o medo de imediato. Antônia conta que evitava ao máximo conduzir uma celebração sozinha, preferindo apenas auxiliar outros ministros mais experientes. Isso mudou de forma abrupta num domingo em que o ministro escalado simplesmente não apareceu — e não havia sacristão para resolver o problema.
Empurrada para a função sem aviso, ela só conseguiu se ajoelhar e dizer, em silêncio: “Jesus, é eu e Você. Vamos lá, me ajude.” Daquele dia em diante, afirma, nunca mais sentiu medo de celebrar — e passou a ser convidada para conduzir celebrações em diversas capelas da região.
Décadas depois, descreve o momento de elevar a hóstia como o ápice do serviço: “É quando eu pego Jesus nas minhas mãos. Eu sinto aquela presença viva, que Ele tá me dando força, me ensinando.”
O que diz o pároco
Para o padre Elves Alano, pároco da Paróquia de Santo Antônio da Lapa, casos como o de Antônia ilustram o que ele chama de discernimento pastoral: o ministério exige formação litúrgica e doutrinal, mas também maturidade que só a prática constrói. Critérios como vida sacramental, testemunho pessoal e equilíbrio humano fazem parte da avaliação de quem assume a função — e nem sempre o momento é o ideal para todos que se candidatam.
A trajetória de Antônia confirma essa lógica por outro caminho: foi escolhida antes de se sentir pronta, e a preparação formal que recebeu funcionou como base — mas foi a urgência do imprevisto, no dia em que precisou substituir um colega ausente, que de fato consolidou sua vocação.
A rotina que sustenta a fé
A formação inicial não terminou no dia em que Antônia recebeu o mandato. O padre Elves descreve a exigência de formação litúrgica, doutrinal e pastoral contínua para quem exerce ministério — encontros periódicos de espiritualidade e capacitação fazem parte da rotina de quem serve.
Antônia traduz essa exigência em hábito semanal. Antes de cada celebração que vai conduzir, separa o folheto da liturgia com antecedência e reserva um momento diário para se concentrar no que vai dizer aos fiéis. “Você tem que ter todo aquele cuidado para não ofender, porque as pessoas saem de lá alimentadas da palavra de Deus”, explica. Para ela, a palavra de Jesus precisa ser o centro da semana de quem ouve — e, por isso, da própria preparação de quem fala.
Servir também tem preço a pagar
Nem tudo no ministério é gratificação constante. Antônia foi sincera ao falar sobre os limites que o tempo impôs: parou de celebrar exéquias — as encomendas de corpos antes do sepultamento — depois de perder pessoas muito próximas, incluindo uma irmã que morreu dentro de sua própria cozinha.
“Aquilo ali chama muita atenção, a família, a própria pessoa que está ali falecida. É uma coisa que toca muito”, explica. Ainda celebra quando solicitada, mas reconhece que o desgaste emocional mudou a forma como encara esse tipo específico de serviço.
O relato expõe um lado do ministério raramente mencionado nas falas institucionais: o custo humano de décadas de proximidade com a dor de outras famílias.
Catequese sem hora marcada
Um episódio que Antônia guarda com carinho mostra outra face do trabalho: a catequese informal, que acontece fora da missa e sem aviso prévio. Um jovem da comunidade chegou perguntando como o Papa João Paulo II havia conseguido perdoar quem o atacara em um atentado. Antônia respondeu com uma pergunta de volta — quantas vezes a Bíblia manda perdoar, uma vez ou setenta vezes sete? — e usou a resposta para explicar, ali mesmo, o sentido do perdão cristão.
“Tem gente que diz que perdoou, mas quando vê a pessoa, sente raiva. Se perdoou de coração, não vai sentir nada”, resume.
Décadas reconhecendo rostos
A frequência do serviço criou vínculos que ultrapassam a liturgia. Antônia serve há cerca de 12 ou 13 anos na celebração das 14h30 de quarta-feira, depois de ter passado por diferentes horários da novena ao longo dos anos. “A gente conhece cada rostinho que vai lá comungar”, diz.
Questionada sobre o que o ministério mudou em sua forma de ver a vida, é direta: “Muita coisa que a gente olhava de um jeito, depois do ministério a gente vai olhar de outro e vai entender de outra forma.” Décadas de proximidade com a comunidade, afirma, ensinam um pouco a cada dia — e o aprendizado não para.
Mesmo depois de tanto tempo, há um momento da liturgia que continua emocionando como no início: a exposição do Santíssimo. “Quando você coloca Jesus no altar e ajoelha para adorar, esse momento é muito forte na vida da gente”, descreve.
Para quem pensa em começar agora, mas ainda hesita, seu conselho é direto: “Quem for chamado, não tenha medo de dizer o seu sim. É maravilhoso trabalhar na comunidade. A gente tem um laço de amizade muito grande.”
Uma despedida recente
Antônia completou um mês de viuvez. Paulo, seu marido por 59 anos, também era ministro — aceitou o convite depois de recusar duas vezes, alegando falta de tempo entre o trabalho e os negócios da família, até que um terceiro convite, já com o Padre Emerson na paróquia, o convenceu: “Eu vou arrumar esse tempo porque Jesus tá me chamando.”
Paulo seguiu no ministério até 2024, quando dificuldades de locomoção o impediram de continuar. Antônia chegou a considerar parar também, mas decidiu seguir. No funeral do marido, o próprio padre fez um pedido direto: que ela não abandonasse o serviço.
“Eu vou continuar até o dia que Jesus me dizer: chega, agora você não pode”, afirma. Sobre celebrar novamente em breve, é honesta: sabe que vai chorar, porque vai lembrar de estar sempre ao lado de Paulo. Por isso, prefere esperar um pouco antes de retomar — mas garante que vai voltar.
Da primeira celebração que o marido conduziu, sozinho com ela na capela, guarda uma lembrança que resume os 59 anos de caminhada conjunta: “Ele celebrou com aquele Jesus no rosto e as pessoas vieram abraçá-lo depois, dizer que foi muito bom. Isso me deixou muito feliz.”
Na próxima quarta-feira, às 14h30, Antônia volta a repetir o gesto que aprendeu a fazer sem medo há quase cinco décadas. Vai erguer a hóstia, olhar para quem se aproxima e dizer as mesmas duas palavras de sempre. Quem responder “Amém” provavelmente nem imagina o tanto de história — e de fé testada pela vida — que sustenta aquele instante tão breve.
Ministro ou Extraordinário? O termo que todo mundo usa errado
No dia a dia, é comum ouvir “ministro da Eucaristia” para descrever quem distribui a comunhão durante a missa. Tecnicamente, porém, esse título pertence apenas a padres, bispos e diáconos — os únicos com poder de consagrar o pão e o vinho, e por isso chamados de ministros ordinários da Eucaristia.
Os leigos que ajudam a distribuir a comunhão são, oficialmente, Ministros Extraordinários da Sagrada Comunhão (MESC). O termo “extraordinário” não tem relação com mérito ou destaque — indica que a atuação leiga é excepcional, reservada para quando há grande número de fiéis na missa ou quando é necessário levar a comunhão a doentes e idosos que não podem comparecer à igreja.
Antônia usa o termo técnico com naturalidade ao lembrar do dia em que assumiu o mandato. Já o uso popular, mais simples, segue sendo o preferido no vocabulário cotidiano da paróquia — e dificilmente vai mudar tão cedo.

