
Entre o pinhão sapecado, o quentão de vinho e a japona que vira uniforme oficial, o frio no Sul é menos clima e mais ritual
Tem gente que mede o inverno pelo termômetro. O sulista mede pela panela de pressão.
Quando a temperatura despenca, muda a cidade inteira — o jeito de comer, de vestir, de ocupar a calçada ao meio-dia. O frio aqui não é só estação: é roteiro repetido, ano após ano, com pequenas variações de elenco.
O kit sobrevivência
No topo da lista está o pinhão. Assado na chapa do fogão a lenha ou sapecado direto na fogueira, coberto pelas próprias grimpas da araucária, é o ritual que sintetiza o inverno no imaginário regional. Acompanha, claro, o quentão — mas o de verdade, feito com vinho tinto, canela, cravo e gengibre, sem cachaça, que isso é coisa de outra região.
Nos dias mais gelados, a sopa assume o posto de prato principal: de pinhão, de escarola com bacon, ou qualquer caldo grosso que justifique o pão na mesa. O café colonial — schmier, nata, cuca, queijo colonial, salame — também tem seu consumo dobrado quando o frio aperta, e o fondue, original ou “fake”, vira desculpa para reunir amigos em casa.
O comportamento muda com a temperatura
Há também o que o frio faz com a rotina. Quem tem fogão a lenha em casa transforma a cozinha no único cômodo realmente habitável — é ali que a família se concentra, é ali que tudo acontece. Na rua, surge o que se poderia chamar de uniforme de inverno: a japona, preta ou azul-marinho, que de repente está em todo mundo ao mesmo tempo.
E tem a cena clássica: a cadeira virada para o sol do meio-dia, o corpo parado ali, absorvendo o pouco calor que o dia oferece. Funciona como aquecimento solar à moda antiga.
Por trás do conforto, uma batalha mais silenciosa: a umidade. Parede suando, roupa que não seca no varal em menos de três dias — quem é do Sul conhece o problema e sabe que desumidificador e secadora não são luxo, são ferramenta de sobrevivência doméstica.
O chimarrão, claro, segue inabalável — só que mais quente. A água da garrafa térmica sobe de temperatura para compensar o vento ou a geada, e o mate roda o dia inteiro, mais para esquentar as mãos do que para qualquer outra coisa.
Festa, mesmo com frio
O inverno também é tempo de subir a serra — Gramado, Canela, Urubici, São Joaquim — na esperança de neve ou, na falta dela, ao menos um carro congelado de manhã para a foto. E é tempo de festival: feira do pinhão, festa de inverno, vinho barato e música ao vivo sob casaco pesado.
Na própria Lapa e no interior, as festas juninas de escola seguem firmes nesse calendário — quermesse, dança das crianças, fogueira, tudo isso ainda reúne gente como há décadas.
Uma árvore, uma história mais antiga que o frio
O pinhão que hoje vira petisco de inverno tem uma origem que antecede em muito a colonização europeia do Sul. A araucária — pinheiro-do-paraná — é espécie de origem pré-histórica, e sua semente teve papel central na vida dos povos originários da região, entre eles os Kaingang e os Xokleng. Verifique isso: a documentação histórica sobre técnicas indígenas específicas de conservação do pinhão é menos uniforme do que se costuma repetir, e vale apurar com fonte antropológica antes de afirmar como fato fechado em texto definitivo.
Segundo o que se registra sobre o período, o pinhão caía justamente entre abril e julho, quando outras fontes de alimento escasseavam, e havia técnicas de conservação — como submergir cestos da semente em riachos de água corrente — capazes de preservá-lo por até um ano. A própria técnica de assar o pinhão sob suas grimpas, hoje tão comum nas cozinhas da região, é atribuída a essa origem.
Mais tarde, entre os séculos XVIII e XIX, foi a vez dos tropeiros incorporarem o pinhão à dieta de viagem: alimento calórico, fácil de carregar e resistente ao tempo, perfeito para semanas de estrada sob frio constante. Quando os imigrantes europeus — italianos, alemães, poloneses, ucranianos — chegaram ao Sul a partir do século XIX, encontraram a araucária já presente na paisagem e adaptaram a semente às próprias tradições: nasceram dali o nhoque e o risoto de pinhão, de influência italiana, e os pratos de pinhão com carnes defumadas, de influência eslava e alemã.
A árvore que deu origem a tudo isso quase não sobreviveu ao século XX: o ciclo da madeira reduziu a cobertura original de araucária a menos de 2%. Hoje, paradoxalmente, é o próprio valor comercial do pinhão que dá ao proprietário rural um motivo econômico para manter a árvore em pé — a tradição gastronômica funcionando, sem planejar, como instrumento de preservação.
No fim, é isso: o frio chega, a panela vai ao fogo, e ninguém para para pensar que está repetindo um gesto que começou muito antes da própria ideia de Sul existir.
