Frio na Lapa, tela ligada: o que fazer com as crianças nas férias de inverno

Psicopedagoga Carolina Prevedello, do Ludicando, dá dicas práticas para os pais driblarem o tédio e o excesso de telas nos dias sem aula

Os alunos da rede municipal da Lapa ficam sem aula de 11 a 26 de julho — dezesseis dias em que o frio da região limita o que toda criança mais precisa fazer nessa idade: gastar energia ao ar livre. Sem o parque, a piscina ou o pátio do verão, a alternativa que resta é dentro de casa — e é aí que a rotina da família muda de figura.

Para a psicopedagoga Carolina Prevedello, do espaço educacional Ludicando, o problema do inverno não é a falta do que fazer, mas a falta de estrutura. “O que gera dificuldade é ficar duas, três semanas sem nenhuma referência de rotina”, explica. Sem horários mínimos ou combinados claros, a criança não passa a se virar sozinha — pelo contrário: aumentam a irritabilidade, o tédio e a disputa por atenção dos pais, justamente no período em que pai e mãe, normalmente, continuam trabalhando.

A recomendação não é vigiar o relógio o dia inteiro, nem o oposto. “Soltar tudo é um erro, mas deixar engessado também é”, resume Carolina. Manter horários aproximados de sono e refeição já basta para dar à criança a previsibilidade de que ela precisa — o resto do dia pode (e deve) ter espaço livre para brincar, descansar ou simplesmente não fazer nada. Segundo a psicopedagoga, o ócio também tem valor: estimula a criatividade e a autonomia.

Sobre tela, Carolina evita o discurso de vilania. O que importa, segundo ela, é o equilíbrio: se a criança ainda brinca, se movimenta, conversa e dorme bem, um pouco mais de tela no inverno é natural. O problema aparece quando a tela ocupa o lugar de tudo o mais — e os sinais não demoram a aparecer: tédio mesmo com brinquedo ao lado, irritação por qualquer coisa, dificuldade para dormir, mau humor ao acordar. Dois ou três desses sinais juntos, alerta a psicopedagoga, “é sinal que ela precisa de mais estrutura. E não de mais liberdade.”

O que fazer, na prática

Carolina lista atividades de baixo custo, com o que já existe em qualquer casa:

  • Caça ao tesouro dentro de casa, com pistas adequadas à idade — estimula atenção e raciocínio.
  • Cabana de cobertores e almofadas, ou um espaço de leitura montado dentro de uma caixa grande.
  • “Chefe de cozinha”: preparar junto uma receita simples, como bolo, biscoito ou sanduíche.
  • Jogos de tabuleiro, cartas e circuitos de obstáculos montados com cadeiras, almofadas e garrafas — trabalham coordenação e equilíbrio.
  • Caixa da criatividade: papéis, embalagens e materiais recicláveis para construir brinquedos, personagens ou cidades inteiras de faz de conta.

Mesmo tarefas domésticas podem virar brincadeira sem virar ordem. “Se você fala ‘vai arrumar o quarto’, é uma ordem. Agora, se você fala ‘vamos ver em quanto tempo a gente consegue deixar tudo no lugar’, aí vira um desafio”, explica Carolina. Música, cronômetro e um título — “chefe da organização”, por exemplo — mudam o engajamento da criança sem mudar a tarefa.

Para quem tem quintal ou mora no interior, o frio lapeano também pode ser aproveitado a favor: geada, neblina e a luz diferente da manhã oferecem uma experiência que o verão não tem, segundo a psicopedagoga — desde que a criança esteja bem agasalhada.

A frase que Carolina deixaria para qualquer pai ou mãe nessas férias resume sua orientação: “Criança não precisa de entretenimento o tempo todo. Ela precisa de presença e de referência.”


Serviço

Pelo calendário da Secretaria de Educação da Lapa, o recesso letivo oficial dos alunos da rede municipal vai de 13 a 24 de julho, com 23 e 24 reservados a planejamento pedagógico. Somados os fins de semana que envolvem o período (sem aula de qualquer forma), as crianças ficam sem rotina escolar de 11 a 26 de julho, retornando às aulas na segunda-feira, dia 27.

O Ludicando mantém atendimento normal aos alunos que já frequentam o espaço durante o período, com ajuste no conteúdo escolar para um foco maior em atividades recreativas e oficinas. O espaço também segue disponível para festas, aniversários e eventos kids.

ENTREVISTA

“Criança não precisa de entretenimento o tempo todo”: Carolina Prevedello responde

A psicopedagoga e fundadora do espaço educacional Ludicando falou à Tribuna Regional sobre os desafios das férias de inverno e como os pais podem equilibrar descanso e estrutura em casa

Por que as férias de inverno são um desafio maior para os pais do que as de verão, principalmente numa região fria como a nossa?

As férias de inverno realmente costumam representar um desafio muito maior para as famílias, porque elas combinam três fatores: menos possibilidades de atividades ao ar livre, uma mudança na rotina do dia a dia e uma maior necessidade de mediação dos adultos. No verão, as crianças ficam fora de casa, vão para parques, clubes, piscinas, brincam no pátio ou no jardim — o clima favorece esse movimento, esse gasto de energia. Já no inverno, principalmente em regiões como a nossa, com baixas temperaturas e dias mais curtos, essas oportunidades ficam limitadas. Só que a criança continua precisando brincar, explorar, se movimentar. Aí é que aparecem os sinais de inquietação, de tédio, as brigas de irmãos, a maior procura pela atenção dos pais e o aumento de telas. Existe toda uma tensão que aparece mais rápido, e isso fora o fato de pai e mãe geralmente continuarem trabalhando. É uma combinação que requer muito planejamento.

O que costuma dar errado quando a criança fica livre em casa, sem nenhuma estrutura, por duas semanas?

Eu costumo dizer que o problema não é a criança ter tempo livre — isso é saudável e muito necessário. O que gera dificuldade, geralmente, é ficar duas ou três semanas sem nenhuma referência de rotina ou organização à qual a criança estava acostumada. Quando ela fica completamente livre, sem horários mínimos, sem combinados ou propostas de atividades, é comum observar irritabilidade e aumento do tédio. Muitos pais acreditam que ela vai se entreter sozinha o tempo todo, mas não — ela ainda precisa de um direcionamento para organizar o seu dia, e isso gera segurança quando existe previsibilidade. Não significa lotar a agenda das férias, mas manter alguns horários e combinados gera conforto na criança. As férias são um momento de descanso da escola, mas não um abandono da rotina.

Tela é vilã nas férias de inverno? Existe um limite que você recomenda?

Tela não é vilã. Eu, particularmente, não gosto de tratar a tela como um problema em si, mas sim quando ela passa a ocupar o lugar de todas as outras experiências que a criança precisa vivenciar. É muito mais importante observar a qualidade e ter equilíbrio: a criança faz uso da tela, mas tem tempo para brincar, se movimentar, conversar, ler, conviver com a família? Não está prejudicando o sono nem outras atividades? Eu costumo orientar que os pais estabeleçam combinados claros e adequados à idade da criança. Nas férias de inverno é natural um pouco mais de tela, devido ao clima, mas sem uso excessivo — senão fica perceptível a irritabilidade, a dificuldade de lidar com o tédio, alterações no sono e, no retorno às aulas, uma resistência para voltar à rotina.

Como transformar tarefas domésticas, como organizar o quarto ou ajudar na cozinha, em algo lúdico nas férias, sem parecer trabalho para a criança?

É tudo sobre como você apresenta para a criança. Se você fala “vai arrumar o quarto”, é uma ordem. Agora, se você fala “vamos ver em quanto tempo a gente consegue deixar tudo no lugar”, aí vira um desafio. Se você coloca uma música, faz uma gincana, dá um título para a criança — “chefe da cozinha”, “especialista em organização” — a tarefa continua sendo a mesma, mas o engajamento é completamente diferente. É importante lembrar que criança não foge do esforço, ela foge do chato.

Se um pai ou uma mãe pudesse levar só uma frase dessa conversa, qual seria?

Criança não precisa de entretenimento o tempo todo. Ela precisa de presença e de referência.

Carolina Prevedello, psicopedagoga e responsável pelo espaço educacional Ludicando, na Lapa