
Natural do Conjunto Primavera, religioso passou sete anos na Colômbia e fez os votos perpétuos há pouco mais de um ano — no sábado, 15 de agosto, foi ordenado no Santuário de São Benedito, com transmissão ao vivo para Espanha, Colômbia e mais quatro países
Tem gente que sai da Lapa e nunca mais volta a subir os degraus do Santuário de São Benedito a não ser como visitante, num domingo qualquer de missa. Luan Daniel Maier de Lima voltou para se deitar no chão dele.
O momento da prostração
No sábado, 15 de agosto, o menino que foi coroinha naquele mesmo templo por anos, que ali recebeu o batismo, a primeira comunhão e a crisma, deitou-se de bruços diante do altar para o rito da prostração — o momento em que a Igreja invoca sobre o candidato a intercessão de todos os santos que vieram antes dele. Foi o instante em que Luan se tornou padre. E foi, segundo ele mesmo contou, o instante em que mais pensou em gente: nos santos invocados um a um, e em cada pessoa que lhe pediu, nas semanas anteriores, “quando eu estiver prostrado, pense em mim”. “É uma oportunidade para que realmente estejamos, a Igreja Triunfante com a Igreja Peregrina, a Igreja da Terra, unidos”, explicou.
A escolha do santuário não foi protocolo, foi retorno. “Alapa é a cidade onde eu nasci, a cidade onde eu cresci, até eu entrar no seminário no ano de 2015”, contou o padre. “Foi ali no santuário que eu recebi todos os meus sacramentos.” Ordenar-se ali era fechar um círculo que começou muito antes da batina.
Dez anos de formação, sete deles na Colômbia
Esse círculo levou o padre Luan para bem longe da Lapa antes de trazê-lo de volta. Em janeiro de 2015, recém-formado no Colégio Agrícola, ele entrou no Seminário Padre Manyanet, em Curitiba, e começou uma formação que duraria uma década. Ajudou na Paróquia Santa Maria Goretti, trabalhou com a Legião de Maria, com catequese, com coroinhas — os mesmos papéis que um dia tinha exercido do outro lado do altar, quando criança, na Lapa.
Depois, em 2018, veio a Colômbia: primeiro Medellín, para o noviciado canônico, entre a paróquia local e o Colégio Padre Manyanet, dando aula de religião para crianças pequenas. Em 2019, mudou-se para Chía, perto de Bogotá, onde passou três anos estudando teologia e lecionando filosofia, ética e religião para adolescentes do ensino médio. Em 2023, foi para Zapatoca, onde trabalhou mais dois anos como professor de religião e coordenador de pastoral no Colégio Sagrado Coração de Jesus.
Sete anos colombianos que, longe de afastá-lo da vocação, a aprofundaram. “Eu acho que é por meio da educação que nós podemos acercar-nos de uma maneira muito mais profunda às famílias”, disse o padre, recuperando uma frase que aprendeu com o próprio fundador da Congregação dos Filhos da Sagrada Família, Jesus, Maria e José — São José Manyanet, que fundou a ordem em 1864 na cidade de Tremp, na Espanha, começando exatamente por um colégio. “O coração das crianças é como a cera de uma vela que ainda está mole, e no qual podemos carimbar, podemos formá-la de acordo com aquilo que nós desejamos”, repetiu Luan. “E nós desejamos, claro, formar corações para Jesus.”
Um mundo assistindo pela tela
Foi por isso, também, que a ordenação não ficou restrita à Lapa. A cerimônia foi transmitida ao vivo para Espanha — onde fica a casa geral da Congregação e onde o padre tem irmãos religiosos — e para a Colômbia, onde deixou amizades de sete anos. Pela tela, chegaram ainda espectadores da Venezuela, da Itália e de outros pontos da África. Um mundo inteiro assistindo, ao mesmo tempo, um filho da Lapa se tornar padre no santuário onde foi batizado.
A raiz que nunca saiu do Conjunto Primavera
Mas o coração da história, para quem esteve na igreja, ficou mesmo no Conjunto Primavera. É lá que o padre Luan cresceu, e é lá que, aos 12 anos, muito antes do seminário, reuniu vizinhos para rezar o terço uma vez por semana. “Depois que eu entrei para o seminário em 2015, eles continuaram com esta oração do Santo Terço que vai até os dias de hoje”, contou, quase sem esconder o orgulho. Quase vinte anos depois, o grupo segue vivo, hoje abrigado pela Comunidade Missionária Nossa Senhora de Guadalupe, que também assumiu missas semanais no bairro.
“O Conjunto Primavera foi o bairro no qual eu cresci, foi lá onde eu construí toda a minha infância, onde eu construí toda a minha adolescência”, resumiu. Fora dali, disse sem rodeios, não tem vínculo com nenhum outro bairro da cidade — “toda a minha vida foi no Conjunto Primavera”.
Um ônibus vindo de Cambé
A prova de que essa raiz também criou frutos em outro lugar chegou na forma de ônibus. Da Paróquia Nossa Senhora dos Migrantes, em Cambé, região de Londrina — onde o padre Luan atua desde que fez os votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência, em janeiro de 2025 —, saiu uma excursão com 60 pessoas para acompanhar a ordenação, além de famílias que viajaram por conta própria. Depois de sete anos formando vínculos no exterior, o padre formou, em pouco mais de um ano, vínculos fortes o bastante para encher um ônibus rumo à Lapa.
O que vem agora
É para Cambé que ele volta, sem data prevista para nova mudança — “me coloco à disposição, claro, a Congregação, a Igreja, mas ainda não existe nenhuma projeção concreta”. O que segue fixo, disse, é o compasso que herdou de Manyanet: “ser família para as famílias”. “É na família onde se constroem os maiores vínculos, onde se desenvolvem as maiores características da nossa personalidade e do nosso caráter”, refletiu o padre Luan. “E muitas vezes também nas famílias que surgem dificuldades, traumas. Mas nós não somos aquilo que as pessoas pensam que devemos ser, e sim aquilo que nós vamos fazendo e construindo com a nossa vida diariamente.”
No fim, é a mesma frase que resume o próprio caminho dele — do coroinha que ajudava na missa ao padre que agora celebra. E que, no dia 16 de agosto, voltou a se deitar no chão do Santuário de São Benedito, desta vez para se levantar diferente.
