Zito Gaio nasceu de novo várias vezes — e agora completa cem anos

Vindo de Santa Catarina aos 10 anos, sobrevivente de uma sequência de acidentes que poderiam ter encerrado sua história bem antes, o lapeano ergueu com o irmão a antiga firma Irmãos Gaio e viu o comércio da cidade nascer diante dos próprios olhos

Tem gente que conta a vida em décadas. Zito Gaio conta em recomeços. Ao longo da conversa em família que deu origem a esta reportagem, ele voltou à mesma frase mais de uma vez, sempre com o mesmo misto de espanto e naturalidade: “nasci mais uma vez, né?” Não era força de expressão. Era um resumo, quase administrativo, de uma vida que insistiu em continuar depois de cada tombo.

Aos cem anos, lúcido e com memória que a própria família descreve como invejável, seu Zito é hoje um dos lapeanos mais antigos em atividade de lembrança — a testemunha viva de uma Lapa que ele viu sair da terra batida para o asfalto, do casario disperso para o comércio que hoje ocupa o centro da cidade.

De Santa Catarina para a Montalegre

Zito nasceu no município de Canoinhas, em Santa Catarina, mas foi registrado em Piraquara — uma manobra do próprio pai, que queria garantir que o filho servisse o Exército em Curitiba, e não em qualquer quartel do interior. A família vivia então na região entre Mafra, Canivete, Três Barras e Canoinhas, seguindo o trabalho itinerante do pai em serrarias, numa época em que a estrada de ferro, e não a rodovia, ditava para onde as famílias se mudavam.

Em 1936, aos 10 anos, a família chegou à Fazenda Monte Alegre, a cerca de 38 quilômetros da Lapa, onde o pai assumiu uma empreitada na serraria dos irmãos Vetri, da antiga JVET de Curitiba, em terras da família Pacheco. Foi ali que Zito cresceu e, aos 14 ou 15 anos, foi estudar em regime de internato dirigido por pastores — episódio que carrega uma das marcas mais duras de sua adolescência.

As primeiras vezes em que “nasceu de novo”

Nas férias do primeiro ano de internato, um passeio em cima de um caminhão terminou em acidente: a corrente que prendia a carga se rompeu e atingiu sua perna. Não fosse a perna, teria sido a cabeça. Ficou trinta dias internado, com a perna imobilizada sobre uma estrutura improvisada com algodão e peso de areia — não havia gesso naquela época. Pouco tempo depois, a Segunda Guerra Mundial encerrou o funcionamento da escola, dirigida por um pastor de origem alemã, num contexto em que famílias de descendência germânica em Santa Catarina enfrentavam forte perseguição.

De volta à Monte Alegre, Zito começou a trabalhar formalmente em 1942, aos 16 anos, como auxiliar de escritório na serraria — mesmo com pouca escolaridade formal. Como ele mesmo resume: “meu pai fez só até a quarta ou quinta série, mas ele tinha uma sabedoria.” O filho seguiu o exemplo: fazia as contas de cabeça mais rápido do que no papel, conferindo diariamente o romaneio de madeira que saía da serraria para os vagões de trem.

Foi na Monte Alegre, também, que conheceu Ivone — como ele, nascida em Canoinhas, filha de uma família que os pais de Zito já conheciam desde Santa Maria. Namoraram, brigaram, voltaram, e casaram-se em 28 de outubro de 1946, na Matriz de Santo Antônio da Lapa, celebrados pelo Monsenhor da época e fotografados por Glück, nome de referência na fotografia lapeana daquele tempo.

A firma que carrega o nome da família até hoje

O primeiro filho do casal, Rubinho, nasceu em agosto de 1947. Pouco depois, Ivone contraiu tifo — doença que, segundo a família, “matou barbaridade de gente” naquela época — enquanto estava grávida do segundo filho. Zito, convocado para o serviço militar, buscou e conseguiu dispensa médica para poder cuidar da esposa doente, num esforço que ele próprio descreve como decisivo.

Em 1949, já reinstalada em definitivo na Lapa, a família abriu a Irmãos Gaio, sociedade fundada por Zito com o irmão, registrada em janeiro daquele ano num barracão alugado que havia sido, antes, uma fábrica de doces. A firma cresceu ligada ao ciclo da madeira, com carregamento de vagões de trem que passavam nos fundos do barracão, e chegou a ocupar o terreno onde hoje funcionam farmácias e lojas no centro da cidade.

Décadas depois, um incêndio de causas nunca totalmente esclarecidas destruiu o barracão da firma, episódio que a família ainda hoje recorda com pesar — Zito perdeu praticamente tudo o que havia construído, incluindo a produção do filho Rubinho, que fabricava caixas para apicultura no mesmo espaço.

Os tombos que não pararam

A lista de “renascimentos” de Zito Gaio não terminou na juventude. Já adulto, uma tora de madeira roçou seu pescoço na própria fábrica — poucos centímetros de diferença teriam mudado tudo. Em outra ocasião, dirigindo sob forte chuva próximo ao antigo sanatório da Lapa, perdeu o controle do carro, que saiu da pista e foi parar num barranco; saiu sozinho pelo vidro traseiro estourado e caminhou até um hotel para pedir ajuda. Caiu ainda do telhado da fábrica, e mais recentemente, já em casa, tropeços em escadas e na horta viraram assunto de brincadeira em família — prova de que o bom humor sobreviveu junto com ele.

Uma vida ao lado da igreja

Ao lado de Ivone, Zito manteve ao longo de décadas envolvimento constante com o trabalho social da paróquia da Lapa, seguindo um caminho que já era do pai — que, aos sábados, ajudava a reformar casas simples ligadas ao trabalho vicentino. O casal participou do Movimento de Irmãos e de iniciativas de apoio a famílias necessitadas, num compromisso que a família descreve como parte central da identidade de ambos.

Ivone morreu em 19 de agosto — a data, segundo relatos da família, marcada por décadas de casamento e de trabalho conjunto ao lado do marido. Zito compara a perda da esposa à do irmão, com quem também viveu décadas — “não esquece nunca”, diz — e guarda ainda hoje as cinzas do irmão no próprio quarto.

O que resta, aos cem anos

Hoje, Zito vive acompanhado por uma filha, cercado por netos e bisnetos, numa Lapa que pouco lembra a cidade de terra batida que encontrou em 1936. Onde havia poucos terrenos ocupados, hoje é o centro comercial da cidade. Quando questionado sobre que mensagem deixaria para os mais jovens, não hesitou: “quem tem o interesse de vontade, interesse de trabalho, tem objetivo na vida.”

É a síntese de um século: uma vida que insistiu em recomeçar, tantas vezes quantas foram necessárias.


Reportagem especial produzida a partir de entrevista concedida por Zito Gaio e sua família à Tribuna Regional, por ocasião de seu centenário.