Tem uma coisa que aprendi em quase quarenta anos de jornalismo aqui na Lapa: a maioria dos problemas que a gente enfrenta não vem de má-fé. Vem de distância. Vem de alguém que assinou um papel, carimbou um ofício, publicou uma resolução — e foi jantar em casa sem nunca ter pisado no lugar que a decisão vai afetar.
Maria Eduarda tinha 21 anos e estudava Educação Física. No sábado de manhã, antes de saltar de uma ponte em Limeira, no interior de São Paulo, ela postou uma foto e escreveu: “Quem foi o doido que deixou eu vir pular de uma ponte???”. Irônica, corajosa, animada. Três horas depois, caiu 40 metros sem corda de segurança. Os rapazes com camiseta de “Entre Cordas” — que não eram empresa formal, não tinham protocolo, não tinham nada — simplesmente esqueceram de conectar o equipamento. Como quem esquece a chave em casa. Mas chave não mata ninguém.
O que torna esse caso diferente de um acidente banal é o que veio antes. Em 2024, um ciclista morreu no mesmo lugar. Logo depois, o Ministério competente emitiu aviso formal: bloqueie, sinalize, retire o público de lá. O aviso foi emitido, recebido, arquivado — e a ponte seguiu aberta. Alguém em Brasília fez a parte dele no papel. Alguém em Limeira não fez a parte dele na prática. E Maria Eduarda pagou por isso com a vida. Não por acaso. Por omissão documentada.
Eu poderia ficar em Limeira. Mas não preciso ir tão longe.
No aniversário de 257 anos da Lapa, no dia 13 de junho, a festa na Praça General Carneiro ficou menor do que deveria — e não foi por falta de vontade de quem organizou. O IPHAN, com sede onde a decisão não tem consequência pessoal para quem decide, proibiu a montagem das tendas que cobrem a rua lateral da Igreja Matriz de Santo Antônio. O argumento: as tendas atrapalhariam a visão do monumento histórico. As tendas, diga-se, são temporárias. A empresa responsável já havia desenvolvido uma técnica própria de fixação que não danifica as calçadas de pedra — retira alguns paralelepípedos para afixar os tirantes, e depois de retirada a estrutura, cada pedra volta ao lugar sem nenhum prejuízo. Documentado, comprovado, apresentado.
Não adiantou. A decisão veio de Brasília (ou Curitiba), e quem estava lá não ia estar aqui na noite fria de junho com criança pequena no colo procurando onde se abrigar. As famílias que dependeriam da cobertura para ficar, não ficaram. As barracas de alimentação, espremidas em tendas menores que cobriam apenas a rua, deixaram um corredor de quatro metros para o público circular. Quem tentou comprar alguma coisa para comer, desistiu no aperto. O tombamento existe para valorizar a cidade — e naquela noite, engessou a festa da própria cidade que deveria valorizar.
Tenho uma queixa mais antiga com o IPHAN, mas vou poupar os detalhes. Quem já tentou realizar qualquer evento nos 14 quarteirões históricos da Lapa sabe o que é receber uma lista de exigências de quem nunca andou nessas ruas.
Mas o caso que mais me incomoda, porque é o mais concreto e o mais caro — literalmente — é a Ponte do Rio da Várzea. Uma ponte de ferro, mão única, mais de setenta anos. O governo decidiu reformar. Coisa boa, reforma é necessária. Contratou uma empresa. A empresa começou em 2023. Desde então, a ponte já foi fechada para reparos emergenciais umas dez vezes. Dez vezes. Cada vez que fecha, quem depende dela para trabalhar, para levar filho ao médico, para abastecer comércio, faz mais de 40 quilômetros extras por estrada de chão. Quem assinou o contrato com essa empresa não faz esses 40 quilômetros. O DER, responsável pela obra, manda respostas para o jornal que eu classifico delicadamente como “marotas” — ou seja, não respondem nada, não comprometem nada, não explicam nada. Porque quem responde por ofício também não dirige por estrada de chão.
O padrão é sempre o mesmo, e eu precisei de três exemplos — um de Limeira, dois daqui — para mostrar o que já devia ser óbvio: não é incompetência isolada. É um sistema que funciona assim. Quem tem poder de decidir não mora com a consequência da decisão. O Ministério que emite aviso sobre ponte perigosa está em Brasília. O IPHAN que proíbe tenda temporária está em longe daqui. O DER que contrata empresa ruim está em Curitiba. A Maria Eduarda estava em Limeira. As famílias estavam aqui. A estrada de chão está aqui.
Não tenho ilusão de que este texto vai mudar isso. Braço de jornal regional não chega ao centro do poder — eu sei disso melhor do que ninguém. Mas tem uma coisa que este espaço pode fazer, e que eu me recuso a deixar de fazer: nomear. Nomear o padrão, nomear o mecanismo, nomear a distância que separa quem decide de quem vive a decisão. Porque quando isso vira rotina aceitável — quando a gente para de nomear e começa só a engolir — aí sim, o problema fica definitivo.
