A farra do “é de graça, eu pego”

Já reparou como a gente sempre encontra uma desculpa bonitinha pra fazer o que sabe que é errado? Uma carreta tomba na estrada, a carga espalha pelo asfalto e, em questão de minutos, vira festa. Cerveja, carne, fralda, galinha… é só escolher. E, como senha de entrada, vem a frase mágica: “Ah, isso não faz diferença pro dono”. Será?

Pensa bem: hoje é a Ambev, amanhã é o frigorífico, depois o mercadinho da esquina. Quando a gente decide que roubar é ok porque o dono é “rico demais pra sentir falta”, o problema não é o bolso do outro — é o nosso jeito de pensar. Cada garrafa levada é um pedacinho da regra sendo jogado fora.

E as redes sociais entram pra coroar a bagunça. O saque vira vídeo, o vídeo vira meme, o meme rende curtidas e comentários do tipo “gênio” ou “quem nunca?”. O que era pra ser motivo de vergonha acaba virando troféu. Quem estuda, abre negócio, paga imposto? Esses quase não aparecem no feed. Quando aparecem, ainda são tratados como bobos ou vilões.

Essa lógica é traiçoeira. Se é “normal” pegar cerveja na rodovia, por que não burlar fila, sonegar imposto, dar um jeitinho no atestado médico? O atalho parece pequeno, mas a conta vem gorda. Frete mais caro, seguro mais salgado, preço mais alto lá no mercado onde você vai comprar a tal cerveja — e nem adianta reclamar da inflação.

A gente finge que não percebe, mas cada “não faz diferença” vai corroendo a confiança coletiva. Fica mais difícil acreditar em lei, em contrato, em qualquer acordo. Quando todo mundo topa o jeitinho, a sensação de injustiça cresce. É o famoso “cada um por si” disfarçado de esperteza.

E não é papo de moralista, não. É só olhar pra história: sociedades que escolhem o atalho sempre tropeçam no próprio descuido. Ninguém quebra de repente; o tombo é lento, começa quando a gente para de achar errado o que é errado. Aí, quando a crise chega, parece que caiu do céu — mas foi construída, saquinho por saquinho de cerveja.

O mais irônico é que quem “ganha” na hora também perde depois. O seguro encarece, o frete aumenta, os preços sobem. Aquela cerveja “gratuita” volta pra sua conta em forma de imposto, gasolina, luz. Não existe brinde quando o assunto é prejuízo coletivo.

E é fácil apontar o dedo pra quem saqueia caminhão, mas a pergunta incômoda é outra: será que a gente também não cultiva essa esperteza no dia a dia? Na hora de furar a fila, de pedir aquele favor “por fora”, de achar que ser honesto é coisa de trouxa? O problema não tá só na estrada — tá na esquina, na mesa de bar, no clique do celular.

Talvez a conversa que falta seja essa: que tipo de país a gente quer construir? Um onde a malandragem é medalha ou um onde a honestidade ainda tem valor? Porque, no fim das contas, a escolha é nossa — mesmo quando a tentação vem em forma de latinha gelada.

Pode parecer papo chato, mas é simples: se a gente não der valor pro que é certo nas pequenas coisas, não tem lei, polícia ou política que dê conta do resto. Talvez seja hora de olhar pra isso com mais calma. E você, encara essa conversa?

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Aramis José Gorniski


Entre em contato com Aramis José Gorniski: aramizinho@gmail.com