Coluna Bate Papo Informal

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A figurinha que revela tudo

Da pequena esperteza cotidiana ao diagnóstico que nenhuma CPI investiga

Você já entrou num supermercado e viu uma garrafa de Coca-Cola com o rótulo rasgado, retorcido, como se alguém tivesse arrancado com pressa? Provavelmente vai ver — se ainda não viu. Por trás daquele rótulo destruído há uma história pequena que explica muita coisa grande sobre o Brasil.

Um vídeo do criador de conteúdo Papai Financeiro, que viralizou nas últimas semanas, trouxe o caso à tona. A Coca-Cola fez uma promoção com a Panini escondendo figurinhas da Copa do Mundo nos rótulos de suas garrafas. A mecânica era simples: compre, veja se ganhou, participe. O que começou a acontecer em supermercados de todo o país foi diferente. Adultos — pais, mães, gente com décadas de vida — passaram a rasgar os rótulos nas próprias prateleiras, retirar a figurinha e deixar a garrafa mutilada de volta à gôndola. Sem pagar. Sem pensar duas vezes.

O fenômeno já obrigou o varejo a reagir. Redes como Carrefour, Assaí, Sonda e Oxxo registraram dezenas de garrafas sem rótulo ou com sinais de violação, e a solução encontrada por parte dos estabelecimentos foi tão simples quanto sintomática: passar fita adesiva transparente sobre os rótulos para impedir que fossem arrancados antes da compra. Um supermercado chegou a prender cada embalagem com múltiplas voltas de fita, como quem tranca um cofre. A Coca-Cola, em nota, reforçou que a retirada de rótulos sem a compra do produto está em desacordo com o regulamento da promoção — mas o regulamento não é o que está em jogo aqui.

O prejuízo financeiro existe — e os mercados já começaram a cobrar mais caro para compensar. Mas esse não é o ponto mais pesado da história. O ponto pesado é o que o gesto revela. Há registro de mãe sendo flagrada abrindo rótulo com o filho pequeno do lado, ensinando, na prática, que desonestidade depende da chance de ser pego. Que levar vantagem é esperteza. Que ética é opcional quando ninguém está olhando.

A gente gosta de situar a corrupção num endereço nobre: Brasília, os ministérios, os desvios bilionários, os esquemas que enchem CPIs. Mais confortável assim — o mal está longe, em outro mundo, praticado por outra gente. Mas a corrupção não nasce nos gabinetes. Ela aprende a andar nos corredores do supermercado, em casa, em qualquer lugar onde um adulto decide que é só uma figurinha, é só dessa vez, ninguém vai ver, não tem problema.

Tem um paradoxo curioso em tudo isso. A mesma sociedade que enche a boca para reclamar de político desonesto, de imposto alto e de serviço público ruim romantiza a pequena esperteza no cotidiano. “Jeitinho” virou quase um elogio. “Esperto” é quem não perde uma. “Honesto” é quem não teve oportunidade. O caráter virou variável dependente da situação — não uma constante pessoal.

Isso não é exclusividade de grande cidade. Acontece em municípios como o nosso, em escalas distintas: a nota fiscal que não é pedida, o acerto informal que nunca aparece em papel, o “favor” que fecha uma porta para quem deveria estar do outro lado do balcão. A lógica é a mesma em qualquer lugar: o erro deixa de ser errado quando é pequeno — ou quando a chance de punição é baixa.

Conforme canta o Capital Inicial em “Quatro Vezes Você”, o caráter se revela no que fazemos quando ninguém vê. Caráter não aparece nas grandes decisões da vida. Aparece quando ninguém está olhando. Quando a câmera está longe, quando o caixa está distante, quando a figurinha está ali e a garrafa não precisa ser paga. É justamente nesse momento — banal, sem plateia e sem consequência aparente — que a cultura de um povo se mostra com mais clareza do que em qualquer discurso ou manchete.

O mercado vai colocar aviso nas prateleiras. A empresa vai mudar a embalagem. Os preços vão subir um pouco para cobrir o prejuízo — e cada um de nós vai pagar por isso, incluindo quem nunca rasgou rótulo nenhum. É assim que funciona: a conta da desonestidade coletiva chega para todo mundo. A pergunta que fica, incômoda e sem resposta fácil, é esta: quem rouba figurinha hoje e reclama do Brasil amanhã — o que exatamente espera que mude?

Aramis José Gorniski

Aramis José Gorniski


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