Coluna Bate Papo Informal

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A gaiola tem nome

Chamam de humildade. É controle.

Existe uma operação política que funciona há décadas no Brasil e nunca foi processada por nenhum tribunal. Não é corrupção de dinheiro — é corrupção de vocabulário. Pega-se a resignação e chama de humildade. Pega-se a ausência de perspectiva e chama de simplicidade. Pega-se uma base eleitoral cativa e chama de povo. E o mais genial de tudo: convence-se o preso de que as grades são proteção.

Nas duas edições anteriores, discutimos como o Brasil construiu um sistema educacional que não emancipa — e como esse sistema produziu uma cultura em que fingir que se tem menos virou estratégia racional. Hoje o assunto é quem construiu isso, como mantém, e qual é o nome correto para o que fazem.

Ser pobre não é feio. Nunca foi. Pobreza como circunstância é resultado de um sistema injusto, de ausência de oportunidade, de escola que não ensina e de mercado que não absorve. Ninguém escolhe nascer sem recursos. Ninguém escolhe crescer sem modelo de ascensão, sem segurança, sem alguém próximo que tenha conseguido sair. Isso é estrutura — e estrutura tem responsável.

O problema não é a pobreza. É a narrativa que a transforma em identidade permanente e a identidade em virtude coletiva. É o discurso que diz, em palanque e em horário eleitoral, que quem tem menos é mais puro, mais autêntico, mais do povo. Que quem acumulou é suspeito. Que quem subiu se esqueceu de onde veio. Essa narrativa não liberta ninguém — ela confisca a imaginação do possível e entrega no lugar um orgulho de vitrine, barato de produzir e muito eficiente nas urnas.

Três personagens constroem e mantêm essa gaiola. O político que precisa do pobre dependente para existir — não do pobre emancipado, que pensa, questiona e troca de candidato. O intelectual que romantiza a simplicidade como pureza moral e trata ambição como traição de classe — produzindo a narrativa que o político usa sem precisar criar nada. E a mídia militante que repete que rico é inimigo e pobre é vítima eterna — nunca protagonista, nunca responsável, nunca capaz. Os três juntos fecham o ciclo. E os três lucram com a gaiola aberta.

O mais perverso desse arranjo é que ele se autodefende. Quem critica vira elitista. Quem questiona o benefício vira cruel. Quem diz que é possível mais vira ingênuo ou agente do capital. A gaiola foi construída com grades intelectuais tão eficientes quanto as econômicas — e qualquer tentativa de abri-la é apresentada como ataque ao pobre, nunca como defesa dele.

A verdade inconveniente é esta: nenhum dos três personagens quer pobreza zero. Querem pobreza administrada. Suficiente para gerar dependência, insuficiente para gerar revolta. O benefício não foi desenhado para ser uma escada — foi desenhado para ser um teto baixo, mas confortável o suficiente para que ninguém bata a cabeça com força.

A pergunta que encerra essa sequência é simples e desconfortável: se o sistema foi construído para manter as pessoas exatamente onde estão — e se quem o construiu continua sendo eleito por quem ele aprisiona — então o problema não é falta de política pública. É falta de um nome honesto para o que está sendo feito. Esse nome não é assistência. Não é proteção social. Não é cuidado com o povo.

É captura.

Aramis José Gorniski

Aramis José Gorniski


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