A Verdade está desempregada

Você já percebeu como a verdade anda desempregada? Cada dia alguém inventa uma nova, veste com convicção, posta nas redes e chama de “opinião”. Parece que o mundo virou um grande concurso de versões — e ninguém mais quer saber o que é real, apenas o que é conveniente.

Lá atrás, na Idade Média, um tal de Guilherme de Ockham disse que não existiam coisas como “beleza” ou “bondade” em si, só nomes que a gente usa. A intenção era filosófica, mas o efeito colateral foi devastador: abriu-se a porta do relativismo moderno, esse terreno escorregadio onde tudo é questão de ponto de vista.

E aqui estamos, séculos depois, transformando debates sérios em batalhas de ego. A política virou torcida, a fé virou espetáculo, a ciência precisa se justificar diante de memes. A verdade — aquela senhora antiga e teimosa — foi aposentada à força. Em seu lugar, instalou-se o “eu acho”, com crachá de autoridade.

O problema é que o “eu acho” não paga conta, não constrói ponte, não resolve fome. Governos se montam e se desfazem com base em narrativas, não em fatos. E o cidadão comum, perdido entre versões, passa a desconfiar de tudo: da imprensa, da Justiça, do vizinho. É o colapso da confiança — e sem confiança, não há sociedade que se sustente.

A cada eleição, o roteiro se repete: candidatos prometem “a sua verdade”, eleitores escolhem “a que mais combina com a sua”. E quando a realidade aparece, dura, concreta, vem a frustração. Porque a verdade não negocia. Ela só espera.

Talvez o mais perigoso dessa era de verdades sob demanda seja o cansaço moral. A sensação de que nada é certo, nada é errado, nada vale a pena discutir. É o caos disfarçado de liberdade: cada um define o que é o mundo, e o mundo, por sua vez, deixa de existir como ponto comum.

Mas não se engane — viver sem um norte é o oposto de ser livre. Liberdade sem verdade é vertigem. É como dirigir sem horizonte: parece aventura, mas termina em colisão.

Talvez seja hora de reabilitar a verdade, essa velha senhora cansada de ser chamada de careta. Não pra impor dogmas, mas pra lembrar que sem um chão firme, nenhuma convivência é possível. Afinal, viver em sociedade exige, antes de tudo, combinar o que é o “sim” e o que é o “não”. E você, de qual verdade tem fugido ultimamente?

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Aramis José Gorniski


Entre em contato com Aramis José Gorniski: aramizinho@gmail.com