Silvio Matos, ator querido por gerações de brasileiros, nos deixou na última semana. Pouco antes de partir, gravou um vídeo que circulou amplamente pelas redes. Suas palavras são ásperas, provocadoras — e por isso merecem registro além das telas do celular.
O texto que ele reproduziu traça um retrato incômodo da polarização que tomou conta do país. É uma caricatura — e toda caricatura exagera os traços para que a essência apareça com clareza. Não existe direita monolítica nem esquerda uniforme. Mas existe um padrão de comportamento que muita gente nota e poucos têm coragem de nomear: a diferença entre quem vive suas convicções e quem quer impô-las aos outros.
“Quando um sujeito de direita não gosta de armas, ele simplesmente não as compra. Quando um sujeito de esquerda não gosta de armas, ele quer proibi-las. Quando um sujeito de direita é vegetariano, ele apenas não come carne. Quando um sujeito de esquerda é vegetariano, ele quer fazer campanha contra os produtos à base de proteína animal.”
“Quando um sujeito de direita é homossexual, vive tranquilamente a sua vida, sem alarde. Quando um sujeito de esquerda é homossexual, faz um auê danado e inventa que está sofrendo homofobia. Quando um sujeito de direita é ateu, simplesmente não vai à igreja. Quando um sujeito de esquerda é ateu, quer que nenhuma alusão a Deus seja feita em nenhuma esfera pública.”
“Quando a economia vai mal, o sujeito de direita diz que é preciso arregaçar as mangas e trabalhar mais. O sujeito de esquerda aponta os patrões como responsáveis por tudo — e para o país. Para concluir: quando um sujeito de direita assiste a esse vídeo, dá risada e o compartilha. Quando um sujeito de esquerda assiste ao mesmo vídeo, insulta quem enviou e rotula de fascista, nazista, genocida — de tudo.”
Silvio Matos se foi deste mundo. Suas palavras, não.
O problema não é ter convicções — é querer destruir quem pensa diferente. O exagero do texto não está no diagnóstico, está na dose. O comportamento que ele descreve existe. Só não é exclusividade de ninguém. A história nos ensina que nenhum lado tem o monopólio da razão — ideias boas e ruins já vieram dos dois lados, em doses generosas.
Por isso, três lições que valem para qualquer trincheira. Escute antes de responder — não para concordar, mas para entender. Separe a ideia da pessoa: combater um argumento é legítimo, destruir quem o defende é covardia intelectual. E lembre: resistência não é prova de erro — convicção real se constrói com paciência e coerência, não com pressão ou cancelamento.
Uma sociedade que não sabe mais divergir civilizadamente está mais próxima do colapso do que imagina. Democracia não é unanimidade — é a capacidade de viver junto mesmo sendo diferente. Silvio Matos entendeu isso. E teve a coragem de dizer.


