Com a chegada da festa de aniversário da cidade, não tem como não lembrar da juventude — mais precisamente dos tempos de quase-adolescente, lá se vão umas quatro décadas.
Era uma fase da vida em que as únicas preocupações eram ir à escola, cumprir umas tarefas em casa e, no resto do tempo, brincar. Por essa época do ano, era comum juntar nossa ‘gangue’ de pré-adolescentes para invadir terrenos alheios e roubar mimosa — aquelas frutas fedidas, mas com um sabor de infância que nenhum gourmet supera. Também rolava aquele amigo que dizia saber onde havia uma lavoura de milho. Íamos em missão especial, sacos vazios nas mãos e o retorno triunfal — sacos cheios, mães desesperadas e cozinhas cobertas de palhas e bagaços.
Éramos uma piazada animada, conhecedora de cada canto do bairro — sabíamos dos esconderijos, dos mistérios, dos “tesouros”. Sabíamos o dia certo de empinar pipa, quando era seguro colocar fogo no campo do Magalhães (sim, era outra época…), e fabricávamos carrinhos de rolamento como verdadeiros engenheiros mirins.
Mas nada se comparava à Festa de Santo Antônio. Quando ela chegava, parecia que um novo mundo se abria. Nosso ponto de encontro mudava para a Praça General Carneiro, onde tudo era maior, mais cheio de vida, de gente nova, de possibilidades.
Era ali que surgiam os primeiros “climinhas” com as meninas — aquelas que víamos de longe na escola, mas que ali, na festa, pareciam mais próximas. Bastava uma troca de olhares, um dedo de prosa, e já saíamos nos achando enamorados, mesmo sem encostar um dedo.
Assim como no Ano Novo, a festa também era época de comprar bombinhas, traques e afins. Pobres lixeiras, baldes e latas de tinta — alvos preferenciais dos nossos ataques explosivos. Melancias roubadas viravam carnificina frutífera, espalhadas em pedaços pelos cantos da rua. E a diversão era justamente essa: sair por aí assustando os desavisados e aprontando com quem cruzasse nosso caminho.
Impossível esquecer dos casais que se formavam em volta da festa — principalmente entre os visitantes do interior, todos produzidos com suas roupas de domingo. Cada porta virava cenário para beijos apressados e carícias rápidas. Era um festival de amassos — e um espetáculo à parte.
Mas a grande lembrança, mesmo, são as noites da festa. A fogueira imensa queimando, e nós, piazada liberada, jogando nas roletas para ganhar brindes inúteis (e absolutamente indispensáveis). Gastávamos nosso suado dinheirinho em bobagens com a certeza de estarmos vivendo o auge da existência. E nada, absolutamente nada, superava a compra do famoso óculos de sol da festa — aquele modelo “Top Gun”, réplica barata, exageradamente grande para nossos rostos juvenis, mas que nos fazia sentir invencíveis. Um verdadeiro troféu de plástico com alma de herói de cinema.
Bons tempos.
Espero, sinceramente, que as gerações atuais também tenham suas histórias incríveis para contar quando completarem meio século de vida.

