O Brasil que prefere eleitores analfabetos

Não é por acaso que a educação nunca foi prioridade de verdade neste país


Você já parou pra pensar por que, depois de décadas de promessas, de planos, de slogans e de ministérios inteiros dedicados ao assunto, o Brasil ainda forma adultos que não conseguem interpretar uma bula de remédio? Não é incompetência. É projeto.

O Indicador de Alfabetismo Funcional — o Inaf — revela um país que lê, mas não entende. Apenas 12% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são plenamente proficientes em leitura e interpretação. Doze por cento. Nove em cada dez pessoas que concluíram o Ensino Médio não dominam a própria língua. Em matemática, o número cai para algo entre 3% e 4%. Isso não é fracasso do sistema educacional. É o sistema funcionando exatamente como foi desenhado para funcionar — por gente que sabia muito bem o que estava fazendo e se beneficiou de cada geração que saiu da escola sem entender o que leu.

Um eleitor que não interpreta texto complexo não lê um programa de governo. Não avalia uma proposta orçamentária. Não entende o que está assinando quando recebe um benefício condicionado ao seu voto silencioso. Ele sente — e sentimento, como todo político populista sabe, é muito mais fácil de manipular do que raciocínio. A ignorância não é um problema a resolver. É uma matéria-prima a explorar.

E aí entra o mecanismo mais perverso da política brasileira contemporânea: a armadilha do benefício. Não estamos falando de ajuda emergencial — isso existe em todo país civilizado. Estamos falando de um modelo em que trabalhar formalmente pode significar perder o auxílio, pagar imposto e terminar o mês com menos. Um modelo em que a conta não fecha para quem tenta subir. Racionalmente, quem está preso nessa lógica não é burro — está respondendo aos incentivos que o Estado criou. O problema é que alguém criou esses incentivos de propósito.

Junto com a armadilha econômica vem a armadilha cultural. A narrativa de que ambição é desonestidade. De que quem acumula, roubou. De que ganhar mais de três ou quatro salários já coloca alguém no campo dos inimigos do povo. Essa ideologia não liberta ninguém — ela confisca a esperança dos pobres e a transforma em ressentimento contra quem conseguiu sair. É o cadeado na porta da mobilidade social, pintado com as cores da solidariedade.

O resultado está nos dados. E está nas ruas. Um país onde metade dos universitários não consegue lidar com textos de alta complexidade não vai se desenvolver apostando em mais transferência de renda. Vai continuar elegendo quem promete mais do mesmo, num ciclo que se retroalimenta com precisão de relógio: ignorância gera dependência, dependência gera voto, voto gera poder, poder perpetua a ignorância.

O maior inimigo do pobre brasileiro não mora em Brasília nem em São Paulo. Mora na decisão — tomada há décadas, por governos de todos os campos — de nunca transformar a escola pública num instrumento real de emancipação. Porque emancipação é perigosa. Cidadão que pensa, questiona. Cidadão que questiona não renova mandato. E isso, no Brasil, é o pecado que nenhum político perdoa.

A pergunta que fica — e que incomoda porque não tem resposta simples — é esta: quando o Brasil vai parar de tratar seus pobres como patrimônio eleitoral e começar a tratá-los como o que são? Gente que merece escola de verdade, não mesada de campanha. Gente que, se tivesse tido outra educação, talvez exigisse outro país. Talvez até conseguisse construí-lo.

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Aramis José Gorniski


Entre em contato com Aramis José Gorniski: aramizinho@gmail.com