Coluna Bate Papo Informal

Um espaço livre para comentários da editoria do Jornal, aborda os mais diversos temas.

O embrulho vem junto

Recebi esses dias um vídeo curto, daqueles de um minuto e meio que resolvem tudo. A tese era sedutora: a esquerda cultural estaria trocando os nomes dos pecados para que ninguém mais se sentisse culpado. Prostituta virou “profissional do sexo”. Adultério virou “relacionamento aberto”. Mulher promíscua virou “empoderada”. O argumento tinha substância real — linguagem molda percepção, isso é fato documentado. Mas no minuto final, o vídeo entregou o embrulho: “o mal não quer que você se sinta culpada”. Pronto. A análise havia terminado e o sermão havia começado, sem avisar.

O problema não era o vídeo ser religioso. Era que ele fingiu não ser.

Isso tem nome. Não é mentira, não é exatamente manipulação — é opinião embrulhada. É quando alguém embala uma conclusão ideológica, moral ou política em linguagem de análise neutra e te entrega como se fosse diagnóstico. O embrulho vem junto, mas não está declarado no rótulo.

A esquerda faz isso com maestria. O exemplo mais revelador não está nos campi universitários — está nas esquinas. Bandido não é mais bandido. É vítima da sociedade. A frase tem a textura da compaixão e a função da absolvição. Há algo verdadeiro lá dentro: pobreza, ausência do Estado e violência na infância são fatores de risco documentados para o crime. Isso é dado, não invenção. Mas o salto de “condições sociais influenciam” para “portanto não há responsabilidade individual” é ideológico, não científico. A maioria das pessoas criadas nas mesmas condições não comete crime. Esse detalhe inconveniente some no embrulho. Quem sobra é a vítima real — a que levou o tiro, a que perdeu a bolsa, a que enterrou o filho — transformada em metáfora de um sistema opressor. O concreto virou abstrato. O abstrato governa.

A direita não fica atrás. Olavo de Carvalho construiu uma carreira inteira identificando, com precisão real, a instrumentalização política da linguagem pela esquerda — e embrulhou essa análise numa teoria que explicava absolutamente tudo, tornando-se irrefutável por design. Quando uma teoria não pode ser derrubada por nenhuma evidência, ela deixou de ser análise e virou fé. O embrulho, nesse caso, era filosófico. Mais sofisticado. Igualmente fechado. E do outro lado do espectro, “bandido bom é bandido morto” faz o mesmo movimento inverso: embala ausência de política pública em linguagem de pragmatismo. Também dispensa análise. Também tem vítimas — inclusive inocentes, documentadamente.

Os dois embrulhos se sustentam um ao outro. Um justifica o outro. E o debate que poderia ser útil — o que realmente funciona em segurança pública, em linguagem, em política social — nunca acontece, porque os dois lados estão ocupados defendendo o embrulho.

O louquinho da vila — aquele que antes gritava na praça e o povo ignorava — aprendeu a usar essa técnica. Antes ele simplesmente xingava. Agora cita Foucault ou cita a Bíblia, dependendo do lado, e entrega a mesma certeza absoluta com verniz acadêmico ou verniz espiritual. A internet não o tornou mais inteligente. Tornou o embrulho mais bonito e o alcance, assustador.

O leitor atento aprende a identificar o momento em que a análise termina e o sermão começa. É quando as exceções desaparecem. Quando o outro lado vira caricatura. Quando a complexidade some e sobra só a conclusão. É quando “isso tem nuances importantes” é substituído por “quem discorda está do lado do mal” — seja o mal o capitalismo, seja o diabo, seja a ideologia de gênero, seja o conservadorismo reacionário.

A opinião legítima declara o que é. Diz: com base nesses dados, defendo isso. O embrulho não declara. Convence você de que chegou à conclusão sozinho, quando na verdade comprou o pacote fechado, lacrado, com o rótulo de outro produto na frente.

A diferença entre os dois é pequena no papel. Na prática, é a diferença entre pensar e ser pensado.

Aramis José Gorniski

Aramis José Gorniski


Entre em contato com Aramis José Gorniski: aramizinho@gmail.com