Todo governo que não entrega resultado precisa de um culpado. No Brasil, esse culpado tem endereço fixo.
Existe no vocabulário político brasileiro uma palavra que funciona como coringa, como escudo e como absolvição permanente: o governo. Não esse governo, não aquele governante, não fulano que assinou o decreto ou sicrano que nomeou o incompetente. O governo — entidade indefinida, sem rosto, sem mandato, sem CPF. Algo que existe, oprime e atrapalha, mas que curiosamente nunca é o mesmo que está no poder falando sobre ele.
Nas edições anteriores desta série, discutimos como o Brasil fabricou ignorância através de uma escola que não emancipa, como essa ignorância virou cultura internalizada até no balcão do banco, e como a pobreza foi transformada em identidade e a dependência em virtude. Hoje o assunto é o mecanismo que amarra tudo isso junto e garante que o ciclo nunca se quebre — o culpado permanente.
O raciocínio é simples e eficiente. Todo regime que não entrega resultado precisa administrar a frustração de quem esperava. A solução mais barata — infinitamente mais barata do que governar bem — é entregar um inimigo. Alguém que explique, sem necessidade de prova, por que as coisas não melhoram. Por que a promessa não virou realidade. Por que o povo continua onde está apesar de tudo.
No Brasil, esse inimigo tem endereço fixo. É sempre alguém que tem mais. O rico. O empresário. O mercado. O latifundiário. A mídia. O capital internacional. A lista muda conforme a necessidade eleitoral, mas a função é sempre a mesma — desviar o olhar de quem governa para quem produz. Transformar o bem-sucedido em suspeito e o fracasso do Estado em crime alheio.
O mecanismo tem uma elegância perversa. Enquanto o inimigo existir, o governante não precisa governar — só precisa apontar. Não precisa melhorar a escola — só precisa dizer que alguém não deixa. Não precisa gerar emprego — só precisa explicar que o mercado sabota. Não precisa entregar resultado — só precisa renovar o contrato com a indignação. E a indignação, ao contrário da competência, não tem prazo de entrega.
O paradoxo que ninguém nomeia em voz alta é este: o político que denuncia o sistema é o sistema. Governa há décadas prometendo mudar o que ele mesmo perpetua. Ocupa o Estado que diz ser ineficiente. Controla o orçamento que diz ser capturado. Nomeia os cargos que diz serem aparelhados. E a cada eleição volta ao palanque com o mesmo discurso, o mesmo inimigo e a mesma promessa — porque sabe, com precisão de especialista, que uma população que não interpreta texto complexo, que depende de benefício para sobreviver e que aprendeu a ver a própria ascensão com desconfiança, é uma população que vai acreditar mais uma vez.
Fechamos esta série onde ela sempre deveria ter chegado: o problema do Brasil não é o rico que tem demais. É o poder que precisa que você acredite nisso. Que precisa do seu ressentimento mais do que do seu desenvolvimento. Que investe na sua ignorância, cultiva a sua dependência, romantiza a sua pobreza e te entrega um culpado — para que você nunca olhe para quem, de fato, tem interesse em te manter exatamente onde você está. O inimigo não mora no andar de cima. Ele fala no microfone
