Coluna Bate Papo Informal

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O medo e a esperança dividem a mesma sala

Não é só ansiedade de eleição. É o país inteiro esperando, com o dedo no gatilho, para ver se ainda dá tempo de ser diferente

Tem gente que acha que essa tensão toda que sobe conforme a eleição se aproxima é histeria coletiva, exagero de quem vive grudado em notícia. Eu discordo. Acompanho política há décadas e sei separar ruído de sinal — e o que sinto chegar não é ruído.

É medo, sim. Mas não é só medo de perder uma disputa. É medo de reconhecer o próprio grupo do outro lado do espelho — de descobrir que quem discorda de você não é adversário de ideia, é inimigo. Isso dói mais do que qualquer resultado de urna, porque não se resolve em outubro. Fica.

Só que reduzir tudo a medo é injusto com quem também sente outra coisa, mais silenciosa, quase envergonhada de se mostrar: esperança. Não a esperança inflada de comício, cheia de bandeira e cartaz. Uma esperança mais contida, quase clandestina — a de que, dessa vez, talvez o país escolha diferente. Que a gente pare de ser manchete de vergonha lá fora e vire, nem que seja por um instante, exemplo de alguma coisa que deu certo.

E é aí que a imprensa séria — a que eu tento fazer, a que eu cobro dos colegas — entra como parte do problema e da solução ao mesmo tempo. Cada apuração que expõe desdém de político com dinheiro público, cada reportagem que mostra gente que devia cuidar da lei tratando-a como sugestão, alimenta a sensação de urgência. E essa urgência é legítima. Não é fabricada pela imprensa, é revelada por ela.

Mas urgência tem um efeito colateral que eu, como jornalista, preciso admitir com a mesma honestidade que cobro dos políticos: urgência não escolhe direção. Ela empurra. E o mesmo sentimento que faz um leitor querer votar melhor é o que, levado sem freio, já fez gente boa votar em salvador nenhum. A vontade de acreditar em coisas melhores é combustível — mas combustível não tem opinião sobre para onde o carro vai.

Talvez o desconforto real dessa época não seja escolher entre medo e esperança. Talvez seja perceber que os dois cabem na mesma pessoa, na mesma semana, às vezes na mesma frase. E que a diferença entre um eleitor lúcido e um eleitor arrastado pela maré não está em sentir isso — todo mundo sente —, mas em não deixar a urgência decidir por ele.

Aramis José Gorniski

Aramis José Gorniski


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